A onda do surf é cada vez mais alta

EntrevistaNegócios
Maria João Vieira Pinto
20/10/2026
18:21
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Maria João Vieira Pinto
20/10/2026
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A onda do surf é cada vez mais alta

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A prova de Peniche, do WSL, está a chegar ao seu final, mas os números, esses, só virão mais tarde. O que se sabe, para já, é que se em 2015, um estudo do Instituto Politécnico de Leiria, estimava 10,68 milhões de euros de impacto económico total, já o de 2024, feito em parceria com o ISEG, aponta para cerca de 20 milhões de euros, com mais de 13 milhões de euros gastos pelos espectadores, 95% de ocupação hoteleira e 45,9 milhões de euros de retorno mediático nacional.

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“Há ainda uma estimativa de receita fiscal próxima dos 6 milhões de euros. O dado mais relevante é que o público cresceu 20% entre os dois estudos, mas o impacto económico quase duplicou. O importante é que estes dados sirvam de motivação a todo o ecossistema”, revela à Marketeer Frederico Teixeira – COO WSL EMEA. Sabia que o surf tinha uma onda tão grande?

16,5 milhões de euros de impacto direto, 3,4 milhões de euros indirecto e induzido, 71 milhões de euros de alcance em social media… Portugal, e em particular o Turismo de Portugal, tem noção deste impacto das provas de surf WSL no nosso País?

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Sim, aliás, esse facto faz com que o Turismo de Portugal não considere o surf como um evento ou um conjunto de eventos, mas sim como um veículo de promoção turística.

Logo em 2009, na primeira edição em Peniche, o evento ganhou o reconhecimento do Turismo de Portugal, que integra a modalidade do surf mesmo noutras campanhas e, inclusivamente, marca presença em eventos internacionais da modalidade.

Faz todo o sentido, quando falamos de um país com mais de 600 km de costa, “captar” o mar não só como matéria-prima de luxo para a nossa gastronomia, mas também para um turismo virado para o surf. Paralelamente, muitas empresas viram aqui uma oportunidade e desenvolveram actividades relacionadas com o surf, desde escolas a hotéis e restaurantes, contribuindo para o aumento e a diversidade da oferta. Será justo dizer que muita dessa motivação para “oferecer mais” veio de um turismo de surf que combateu a sazonalidade das regiões.

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O estudo de 2015, do Instituto Politécnico de Leiria, estimava 10,68 milhões de euros de impacto económico total. O de 2024, feito em parceria com o ISEG, aponta para cerca de 20 milhões de euros, com mais de 13 milhões de euros gastos pelos espectadores, 95% de ocupação hoteleira e 45,9 milhões de euros de retorno mediático nacional. Há ainda uma estimativa de receita fiscal próxima dos 6 milhões de euros. O dado mais relevante é que o público cresceu 20% entre os dois estudos, mas o impacto económico quase duplicou. O importante é que estes dados sirvam de motivação a todo o ecossistema.

O surf já é, portanto, mais “respeitado” enquanto desporto que agrega e traz valor?

O evento é um investimento com retorno mensurável para as marcas, para o território e para o País, não só pelos números, que solidificam todo este sucesso, mas também pela qualidade das ondas e de tudo o que oferecemos em termos de condições para a realização do evento.

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Os surfistas adoram Peniche, as ondas, o evento em si e a forma como são recebidos.

Temos feito um upgrade nas condições que os acolhem, para que sintam o nosso envolvimento, e isso reflecte-se na opinião tanto dos profissionais como da comunidade. Este ano, melhorámos a estrutura do campeonato em diferentes áreas: para os surfistas, criámos uma zona de recuperação física; para as marcas, construímos camarotes corporativos e um rooftop que permite uma zona de networking. Apostámos ainda na construção de torres para câmaras, com o objectivo de melhorar as condições de transmissão televisiva.

Todas estas apostas contribuem para a profissionalização, abandonando aquela ideia do surfista amador ou de um desporto sem critério.

A presença olímpica também teve aqui um papel importante. Nos Jogos de 2024, só no Brasil, o dia final do surf foi visto por 47,5 milhões de espectadores, e os atletas WSL ganharam mais de 4,5 milhões de novos seguidores. A nível global, falamos de 366 milhões de pessoas interessadas em surf, 128 milhões de fãs e 63 milhões de audiência na principal divisão da WSL, o Championship Tour, em 2025, mais 9% do que em 2024.

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O surf é, hoje, um desporto de alto rendimento, mas é fundamentalmente uma cultura que atravessa moda, música, cinema e turismo. É essa combinação que nos torna tão valiosos e abrangentes.

Tem sido fácil manter o percurso de crescimento? E a conquista de marcas, nomeadamente naming sponsor?

Fácil nunca é, mas temos conseguido manter um percurso sólido, com muitos desafios, mas com poucos percalços. As marcas valorizam as sinergias que temos criado entre elas, os atletas, a comunidade e o mundo.

Outra grande mudança a que temos assistido é o facto de o surf deixar de ser um território exclusivo para marcas endémicas, havendo um maior equilíbrio com outras áreas/sectores, como energia, telecomunicações, turismo, bebidas, banca, mobilidade e lifestyle. O MEO e a EDP, como naming sponsors de Peniche e Ericeira, respectivamente, são um exemplo disso.

Peniche começou em 2009 com uma licença prevista para um único ano e chegamos este ano à 16.ª edição. Desde 2013, Portugal passou a contar no portefólio de eventos com todos os níveis da pirâmide competitiva: Championship Tour, Challenger Series, Qualifying Series, juniores e big wave. O calendário estendeu-se a Peniche, Cascais, Açores, Ericeira, Santa Cruz, Costa da Caparica, Nazaré e Matosinhos. Em 2025, a Ericeira foi reconhecida por atletas e pela WSL como o melhor evento Challenger Series do ano.

Os naming sponsors exigem parceiros com visão de longo prazo, que se envolvam além da componente financeira, e o nosso trabalho é demonstrar retorno com dados concretos: audiência, alcance, público e impacto e, no final, trabalhar para brand awareness.

Qualquer marca pode “casar” com esta prática e surfar o seu território em termos de valores e comunicação?

Pode, desde que o faça com autenticidade e queira ir mais além do que o binómio investimento-retorno. O surf tem valores muito claros: para além do desporto em si, que engloba conceitos como saúde e bem-estar, a ligação ao oceano remete não só para a sustentabilidade como também para a liberdade. A competição em si trabalha valores como persistência, determinação e superação, ou seja, abrange diferentes valores que tocam diversas comunidades. É uma modalidade super inclusiva, sendo, aliás, capitalizada em diferentes acções sociais que trabalham a inclusão.

O nosso público é cada vez mais atractivo para as marcas: idade média de 37 anos, dos quais 81% entre os 18 e os 54, 41% de mulheres. Além disso, têm uma relação muito emocional com as marcas que se associam aos nossos eventos. Por este motivo, estruturamos as parcerias em seis pilares diferentes: eventos e ativações, conteúdo original, atletas como influenciadores, co-branded marketing, media e tecnologia, e propriedade intelectual (media rights) e merchandising. As marcas que funcionam melhor são as que criam experiências e conteúdo integrado, e não apenas visibilidade.

O que é que o surf pode entregar ao País que outros desportos não conseguem?

Penso que podemos resumir esta resposta em três pontos principais. Primeiro, a imagem do País: os nossos estádios são a costa portuguesa, e cada transmissão é uma oportunidade de mostrar as características únicas do nosso território. A transmissão de Peniche chegou a espectadores de mais de 100 países, através de nove plataformas.

Segundo, criação de volume de turismo com efeito duradouro: costumamos dizer que existe um Peniche “antes e depois de 2009”, com hotéis, surf camps, restauração e serviços criados em torno desta nova procura. A Ericeira está ligada ao estatuto de Reserva Mundial de Surf e a Nazaré ajudou a reduzir a sazonalidade turística.

Terceiro, uma componente internacional muito forte: mais de um terço do público de Peniche é estrangeiro (36,5% em 2024).

Com etapas relevantes como Peniche, quais os grandes desafios para a WSL?

Peniche é a única paragem do WSL Championship Tour na Europa, o que é um enorme activo e também uma enorme responsabilidade para todos. Assim, os desafios passam por assegurar a sustentabilidade financeira do projeto, com parceiros públicos e privados, tentando sempre um compromisso a longo prazo; continuar a crescer em audiência digital, o nosso “habitat natural” e onde temos tido bons resultados: as visualizações de Peniche e Ericeira cresceram 33% desde 2022, e o VOD no YouTube cresceu 180% em Peniche. É aqui que nos mantemos relevantes num contexto global: de Portugal para o mundo.

Trabalhar em conjunto com a CM Peniche, a CIM Oeste e o Turismo de Portugal, de forma a gerir da melhor forma a pressão sobre o território num evento que junta cerca de 120 mil pessoas. É importantíssimo destacar o envolvimento e a disponibilidade da comunidade local. Nem sempre é visível o número de pessoas que estão por trás deste evento, mas são cerca de 600, incluindo equipas exteriores à região, embora todas de Portugal.

Cumprir as metas ambientais que nos propomos em conjunto com a WSL One Ocean (−49% de emissões face a 2018 e −70% de resíduos). Somos criteriosos com o controlo da pegada que deixamos, temos plena noção da importância de devolver a riqueza que o mar nos dá.

Todos estes factores culminam em garantir que Portugal se mantém competitivo nas mais diferentes variáveis face a outros destinos que querem receber o circuito.

Sei que há mais de 20 empresas envolvidas na operação. E para além disso? Que números no terreno?

Em 2024, estiveram envolvidas 25 empresas na operação das mais diferentes áreas de negócio. Há todo um behind the scenes do evento que passa despercebido às ondas e aos surfistas: equipa médica, incluindo fisioterapia, osteopatia e recuperação física, equipa de transmissão, equipa de segurança, equipa de transportes, equipa de limpeza, equipa de restauração e por aí em diante.

No terreno, trabalharam mais de 600 pessoas na montagem, sob a coordenação de talvez mais umas 100 à distância. São cerca de 40 dias de montagens e dois meses de preparação. Mal acaba um evento, focamo-nos no que vamos fazer no próximo. Aliás, durante o evento, chegamos a renovar e programar o ano seguinte com as marcas.

O que é que gostariam de conseguir, ainda?

Gostaríamos de consolidar a imagem de Portugal como um dos três melhores destinos de surf do Mundo, uma proposta de valor concretizada onde possamos oferecer as melhores ondas ao lado da melhor oferta gastronómica, cultural, entre outras, e com uma hospitalidade que nos caracteriza. Queremos também ver mais atletas portuguesas e portugueses no topo. Por fim, tudo isto só faz sentido se reforçarmos e consolidarmos o legado ambiental e social junto das comunidades locais.




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