A era dos conteúdos template

OpiniãoNotícias
Marketeer
12/01/2026
10:42
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Opinião de Mariana Cerca Miguel,  Senior Brand Strategist & 360º Marketing Consultant
O dia em que o critério ficou para trás
Em 2026, a inteligência artificial já não é novidade para ninguém, pelo menos
para profissionais de marketing que estão quase todos, esperemos, a usála diariamente. Todos usamos, todos integramos e todos percebemos o seu potencial. A discussão sobre a sua adoção ficou lá atrás e a IA passou a fazer parte do quotidiano do marketing, da comunicação e das marcas. E, mal ou bem, entrou nos processos, nos calendários editoriais e nas rotinas criativas. Só que entretanto, parece que toda a gente começou a achar que era a única a usar IA, e o feed começou a soar todo igual.
Textos corretos, bem escritos, bem estruturados, tecnicamente irrepreensíveis
que se leem com facilidade, grandes ensinamentos, grandes lições de
marketing, e em que se concorda com quase tudo. Só que vagos. Falta
lhes densidade, decisão e autoria. Faltalhes autenticidade e originalidade.

Usar IA não é o problema, o problema é abdicar de critério

Atenção, não tenho nada contra a IA. Uso
a todos os dias, trabalho com ela, integroa em processos estratégicos e recorro a ela também a nível pessoal
para organizar ideias, estruturar pensamento e pesquisar melhor. A questão não
é usar IA, mas como se usa.
Em 2026, já todos percebemos o potencial da IA. Por isso, vá lá, sejamos mais
criteriosos e menos preguiçosos. Estes conteúdos template cansam, deixamnos mesmo exauridos (pelo menos a mim). Textos iguais, imagens iguais, tudo a repetir a mesma lógica e a alimentar egos de profissionais no Linkedin. Carrosséis com layouts reciclados, esquemas criados em programas “espetaculares” de AI que toda a gente já viu, ilustrações genéricas com
estética de banco de imagens generativo e, para quem repara, até a marca
de água no canto a denunciar o atalho.
Quando o design deixou de pensar
O mesmo acontece no design. Visual limpo, sim, funciona, mas pensamento próprio praticamente inexistente. Hoje parece que todos somos designers e um dos princípios mais básicos do design, aquele que aprendi ainda em 1999, perdeuse pelo caminho A forma segue a função. Quando isto não acontece, é só decoração sem nexo e sem razão de ser.
A IA cria rápido, organiza e produz, mas o critério tem de continuar a ser humano
porque na verdade no limite a responsabilidade é do ser humano e não da máquina. Quando texto, imagem e design nascem todos do mesmo automatismo, o resultado é um feed bonito mas totalmente descartável e sem nada a acrescentar. Não diria ineficiente, já que cada vez menos me parece que cumpra a função de diferenciar e chegar ao outro lado, mas serve para encher espaço, para “encher” literalmente, e não para construir marca ou conteúdos relevantes.
A escala cresceu mais depressa do que o pensamento
O contexto ajuda a explicar parte do fenómeno. Em 2025, o mercado global de inteligência artificial aplicada ao marketing estava avaliado em cerca de 47,3 mil milhões de dólares, segundo dados consolidados da Statista e análises de mercado da McKinsey sobre adoção de IA em marketing e vendas. A adoção deixou de ser marginal. De acordo com a SurveyMonkey 2025 State of AI in Marketing, cerca de 88 % dos profissionais de marketing usam IA nas suas tarefas diárias, desde otimização de texto à análise de dados, e mais de 90 % das empresas planeiam reforçar o investimento em ferramentas de IA generativa nos próximos anos. A tecnologia passou a infraestrutura, o acesso democratizouse e a produção acelerou. A eficiência cresceu de forma evidente, mas o pensamento estratégico nem sempre acompanhou o mesmo ritmo.
Quando toda a gente publica com a mesma cadência, o mesmo tom e as
mesmas estruturas, a tecnologia deixa de ser diferencial e passa a pano de
fundo. Passa a ser ruído.

A escrita começa a denunciar
se logo nos títulos. O cérebro reconhece padrões, identifica textos genéricos com rapidez e sente quando falta contexto vivido, experiência real ou consequência assumida. 
Eu confesso que já estou cansada. Muitas vezes nem chego ao segundo
parágrafo da maioria dos posts. O LinkedIn parece uma feira do “quem é o melhor” e os artigos saem como pãezinhos quentes, uns atrás dos outros, todos muito certos, todos muito iguais, todos fantásticos.
Isto é branding
Isto é um tema de branding, não tanto de tecnologia.

E é aqui que a conversa muda de nível. Porque isto já não é sobre ferramentas,
tendências ou eficiência, mas sobre responsabilidade e autoria. Sobre quem escreve, quem publica e quem decide.
Em 2026, continuar a despejar conteúdo genérico é, mais do que ingenuidade,
falta de critério e falta de inteligência. Cada post publicado sem autoria e propriedade enfraquece não só o feed coletivo, mas a própria marca de quem assina.
Onde é que nos esquecemos de nós, de quem somos, do que temos a dizer, e
da nossa marca pessoal? Do que acreditamos, do que achamos, do nosso
cunho, da nossa experiência, do nosso espírito crítico e do nosso verdadeiro
know how?
É verdade que muitos deixaram de se atualizar e cedem facilmente à tentação
de parecer experts quando não o são, mas a IA pode também ser usada para aprofundar pensamento, não apenas como guião.
Há dois critérios simples que resolvem o problema:

O texto podia ser assinado por outra pessoa qualquer? Se a resposta é positiva, então não devia ser publicado. Se não existe uma decisão assumida, uma experiência concreta ou uma consequência real, não existe conteúdo, existe apenas preenchimento de feed, ruido e isso em nada contribui para o fortalecimento da marcas, mas antes para a sua dissolução.
Isto é relevante é diferenciador? Este conteúdo acrescenta algo à vida das pessoas? Se a resposta é não nem vale a pena gastar tempo a elaborálo.
A marca pessoal constrói diferença, a IA apenas organiza linguagem e o
significado nasce da escolha. Quando a ferramenta passa a escrever e a marca
deixa de decidir, o resultado é um ruído higiénico, onde tudo é igual, educado,
seguro, polido e irrelevante.
E este flagelo tem impacto direto na marca pessoal. Quem publica conteúdos template abdica, muitas vezes sem perceber, da sua diferenciação. Terceiriza o pensamento, homogeneíza a linguagem e perde autoridade aos poucos.
A relevância perdeu o seu lugar no pódio em detrimento da quantidade, e é cada
vez mais a paravra de ordem em 2026 no critério de seleção de conteúdos a consumir. E deveria ser também a criar.
Num mercado onde todos têm acesso às mesmas ferramentas, a vantagem
está em quem mantém voz, critério e ponto de vista alive and kicking.
Os sinais são óbvios e cada vez mais fáceis de identificar
Os sinais estão por todo o lado e são fáceis de detetar, pelo menos para quem
usa IA frequentemente. Títulos formatados como slides corporativos, com cada palavra em maiúscula, estruturas demasiado limpas e previsíveis, sempre com a mesma abertura, a mesma lista e o mesmo fecho inspiracional, frases partidas, emojis a tentar substituir voz, frases com estruturas artificiais, travessões largos que nem sequer fazem parte da gramática do português (ou de alguma língua na verdade) para explicar o óbvio ou simular profundidade num interjeição que não acresce nada e que denunciam logo a origem do texto, e, principalmente, frases partidas e com estrutura formal na negativa.
É irónico. Nunca tivemos tantas ferramentas para criar melhor e nunca vimos
tanto conteúdo mau e igual.
O cansaço é existe mesmo e não é só seu. A Anti Ai trend.

Em 2026 começa a ganhar força uma tendência silenciosa, mas consistente,
que muitos relatórios já identificam como reação natural à saturação
tecnológica: uma viragem consciente para o humano, para o imperfeito e para o
não automatizado. Para o autêntico.
Não se trata de rejeitar a IA, mas de recentrar o seu valor. Estudos recentes da
McKinsey e da Deloitte mostram um crescimento claro da preocupação com autenticidade, diferenciação e confiança num contexto de uso massivo de IA generativa.
Em paralelo, relatórios como o Accenture Life Trends 2025 e o Edelman Trust Barometer 2025 apontam para uma fadiga crescente face a conteúdos
excessivamente polidos, genéricos e indistintos, com consumidores a
valorizarem cada vez mais sinais de autoria humana, contexto real e intenção
clara. 

Este chamado “anti
AI trend” não é um movimento contra a tecnologia, mas um ajuste cultural e uma necessidade de voltar a pensar, de ganhar tração enquanto únicos detentores de espírito crítico e responsáveis pela nossa linha de pensamento e estratégia. Quanto mais automático se torna o meio, mais valor ganha aquilo que revela escolha, imperfeição e pensamento próprio.
O feed visual também perdeu verdade e originalidade
Eu, que sempre fui pró
redes sociais, ando cansada. Até o Instagram, que sempre me foi aspiracional, parece cada vez mais uma loja da Temu em formato social media. Perdeu a identidade e a criatividade.
Sempre fui ao instagram para me inspirar mas como me inspiro onde nada
acrescenta? Templates do canva atrás de criações made by IA, letras cursivas misturadas com bold serifado, sons de unhas a bater no microfone, latas a abrir, ruídos de DIY, pessoas iguais e insípidas, conteúdos de chapa 5 e zero novidade.
E as imagens também contam uma história. Já em 2025 tornou
se difícil distinguir o que é real daquilo que foi gerado por IA. Cenários demasiado
perfeitos, retratos sem rugas e filtros em todas as fotos, gestos excessivamente
simétricos, texturas smooth que parecem renderizações e fundos que repetem padrões familiares. Fotografias de Linkedin profissionais criadas em IA, pele de pixels em todo o lado.
Quando a imagem é apenas bonita e técnica, perde verdade. Perde contexto. E
isso importa, e muito. Não é tanto, a meu ver, querer fazer ou ter imagens bonitas, mas imagens reais.
A verdade visual deixou de ser um atributo automático. Tornou
se percebida e negociada pelos públicos.
O fosso geracional é real
Mas para as gerações anteriores ainda conta o original, o que cria um fosso
geracional relevante para marcas em 2026. Estudos indicam uma diferença clara de perceção entre a Geração Z e gerações como os Millennials mais velhos, a Gen X e os Boomers. A Geração Z não valoriza tanto se uma imagem foi criada por IA ou por um fotógrafo humano. O que pesa é se a imagem parece verdadeira, específica, contextual e com propósito. A origem tecnológica importa menos do que o significado real para quem a vê. Esta geração aceita conteúdos gerados por IA desde que façam sentido a nível cultural e emocional. Já as gerações anteriores continuam a associar originalidade, autoria humana e esforço visível a credibilidade, valor e confiança.
O Edelman Trust Barometer 2025 é claro neste ponto. Públicos acima dos 35
anos demonstram maior desconfiança quando percebem automatização
excessiva, sobretudo em imagens e storytelling visual. Para estes grupos, saber
que algo foi criado por uma pessoa continua a ser um sinal de cuidado,
investimento e intenção. O mesmo aparece reforçado em estudos da Deloitte
sobre confiança digital, onde a perceção de “conteúdo fabricado” reduz
confiança e ligação emocional em públicos mais maduros.

O que muda aqui não é apenas a tecnologia, mas o contrato psicológico com a
marca.
Para gerações anteriores, o original ainda funciona como prova de respeito, de
tempo investido, de critério, de esforço e de intenção. Isto não significa que rejeitam IA, significa apenas que não querem sentir que lhes foram servidos conteúdos automáticos, genéricos e feitos em piloto automático.
Em termos estratégicos, pode
se resumir assim.
A Gen Z pergunta “isto faz sentido para mim?”.

As gerações anteriores perguntam “isto foi feito para mim?”.

Marcas fortes são lideres de pensamento
Pessoas e marcas fortes nunca foram fábricas de imitação, nem de conteúdo
ad hoc, nem de produção por atacado. A beleza sempre esteve na raridade do insight, da ideia, da visão. Nada se tornou diferenciador por ser igual ao que já existia. Pelo contrário.
Foram sempre sistemas de escolha disruptivos a ditar tendências, caminhos e soluções. Escolheram o que diziam, o que ignoravam, o tom que queriam ter, o ritmo e a cadência das frases. Escolheram os seus silêncios. Assumiram propriedade das suas escolhas e dos seus erros.
Marcas fortes sabem gerir as duas coisas. Usam IA como ferramenta e mantêm
a sua autoria como cunho.
A decisão final é estratégica
Para a estratégia ter impacto e ganhar escala com clareza, a tecnologia tem de a
servir. Quando a tecnologia é que lidera e a estratégia segue, o caminho é volume sem direção. E é aqui que muitas marcas começam a perder autoridade sem perceber porquê.
O impacto no negócio e na marca sente
se a médio e longo prazo. Conteúdos indistintos geram envolvimento superficial, memória curta e confiança frágil. Não criam lealdade e muito menos pertença.
Por outro lado, conteúdos com densidade, contexto e voz própria continuam a
construir posicionamento, credibilidade, relação e criar cultura de marca.
Mesmo num ecossistema saturado, e, sobretudo num ecossistema saturado.

Em 2026, usar IA já não impressiona ninguém. O que continua a diferenciar é
critério, clareza e coragem para assumir um ponto.
A tecnologia amplia capacidades, mas somos nós, e as marcas, que criam
sentido, e quem abdica de pensar para publicar mais depressa e não perder o
barco acaba invisível, mesmo quando aparece todos os dias no feed.
Contas feitas, o clássico “less is more” continua a valer, sobretudo quando
implica bom conteúdo. O sentido crítico continua a ser o ativo mais raro no meio
de tanto conteúdo template e a relevância o ativo mais importante de todos.

Sê tu próprio. Todos os outros já existem.

Oscar Wilde



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