Opinião de Bernardo Soares, diretor One Health da UPPartner e médico veterinário
O mercado pet tem crescido de forma consistente, acompanhando uma transformação profunda na forma como as pessoas se relacionam com os seus animais de companhia. Os tutores estão mais informados, mais envolvidos e mais disponíveis para investir em bem-estar, saúde e qualidade de vida. Ainda assim, grande parte do setor continua a funcionar numa lógica predominantemente reativa, concentrando muitos dos seus esforços na resolução de problemas já existentes, em vez de investir na sua antecipação.
Esta realidade não representa apenas um desafio do ponto de vista da saúde animal. Representa também uma oportunidade de posicionamento e comunicação que continua a ser subaproveitada por muitas marcas.
Quando falamos de prevenção, é habitual que o tema seja enquadrado numa perspetiva essencialmente clínica, associada a vacinação, desparasitação, nutrição adequada ou acompanhamento veterinário regular. Embora estas dimensões sejam fundamentais, limitar a prevenção a uma questão de saúde significa ignorar o impacto que pode ter na forma como as marcas se posicionam, comunicam e constroem relações duradouras com os seus públicos.
Na prática, a prevenção permite às marcas ocupar um espaço que vai muito além do momento da compra ou da necessidade imediata. Permite criar uma presença contínua na vida dos tutores, baseada na utilidade, na orientação e na confiança, transformando uma relação frequentemente transacional numa relação mais próxima e consistente.
Este tema é particularmente relevante num mercado em que muitos produtos e serviços tendem a aproximar-se do ponto de vista funcional. À medida que a diferenciação baseada apenas no produto se torna mais difícil, ganha importância a capacidade das marcas para construírem relevância através da relação que estabelecem com os consumidores.
Quando uma marca surge apenas perante um problema, tende a ser percecionada sobretudo como fornecedora de uma solução. Pelo contrário, quando consegue acompanhar, orientar e ajudar os tutores a tomar decisões mais informadas ao longo do tempo, passa a ocupar um território muito mais próximo da confiança e da parceria.
É precisamente neste ponto que a prevenção assume um valor estratégico que nem sempre é devidamente reconhecido. Ao criar pontos de contacto regulares e relevantes, permite desenvolver relações mais estáveis, aumentar proximidade e reforçar o valor percebido da marca, sem depender exclusivamente de momentos de compra ou de situações de urgência.
Num contexto em que a aquisição de clientes se torna cada vez mais competitiva e desafiante, esta capacidade de criar relevância contínua representa uma vantagem significativa. Afinal, os consumidores tendem a manter relações mais duradouras com marcas que os ajudam a evitar problemas do que com marcas que apenas surgem para os resolver.
É justamente neste ponto que a visão One Health ganha relevância. A prevenção não protege apenas a saúde dos animais. Influencia também o ecossistema familiar em que estes se inserem, a forma como os tutores vivem a relação com os seus animais de companhia, as decisões que tomam no dia a dia e a tranquilidade com que gerem o seu cuidado, promovendo escolhas mais informadas, reduzindo incerteza e contribuindo para uma relação mais equilibrada entre saúde animal, bem-estar humano e qualidade de vida.
Para as marcas, esta realidade representa uma oportunidade particularmente interessante. No panorama atual, em que os consumidores valorizam cada vez mais transparência, proximidade e orientação, a prevenção funciona simultaneamente como ferramenta de saúde, comunicação e posicionamento.
O desafio (e a oportunidade) passa, por isso, por deixar de comunicar prevenção apenas como uma recomendação técnica e começar a integrá-la como parte da proposta de valor da marca. Porque o futuro do setor pet será cada vez menos definido pelas organizações que conseguem responder melhor aos problemas e cada vez mais por aquelas que conseguem ajudar os tutores a evitá-los.
No final, a prevenção não é meramente uma forma de proteger a saúde dos animais. É a via mais segura e eficaz de construir confiança, relevância e diferenciação antes de existir um problema para resolver.












