Haverá quem não conheça o icónico frasco verde da água de colónia Lavanda, lançada em 1929, e que quase um século depois se mantém como um dos clássicos da perfumaria portuguesa? O sabão Patti, em homenagem à soprano Adelina Patti? Ou, ainda, os sabonetes da Claus Porto, que conquistaram a estrela da TV norte-americana Oprah Winfrey? A história da Ach. Brito confunde-se com a própria história da saboaria e perfumaria portuguesa. Mas há um pormenor que pode escapar ao “faro” de muitos consumidores e que tem sido essencial para o sucesso da marca: esta é uma empresa 100% familiar, actualmente sob gestão da 4.ª e 5.ª gerações.
A Ach. Brito foi fundada no Porto, em 1918, pelos irmãos Achilles e Affonso de Brito, que adquiriram os activos da Claus & Schweder, a primeira fábrica de sabonetes em Portugal, inaugurada em 1887. Já na altura, os irmãos Brito acreditavam no potencial da indústria portuguesa e na importância de criar produtos de qualidade capazes de competir com as melhores referências internacionais da época. «Desde cedo, a Ach. Brito distinguiu-se pela atenção dedicada à fragrância, ao design e à experiência sensorial dos seus produtos, construindo um património que cruza cosmética, artes gráficas e cultura material portuguesa. Essa visão permitiu-lhe crescer rapidamente e tornar-se uma das referências da perfumaria e cosmética nacionais», refere fonte do departamento de Marketing da Ach. Brito.
Ao longo de mais de um século de actividade, a empresa atravessou profundas transformações políticas, económicas e sociais, mantendo sempre a produção em Portugal e uma forte ligação à sua identidade original. Entre os principais marcos deste percurso estão a constituição, em 1949, de uma exploração agrícola em Mouquim, Vila Nova de Famalicão, dedicada ao cultivo e destilação de plantas aromáticas, o que lhe permitiu passar a produzir internamente óleos essenciais de gerânio, alecrim, tomilho, poejo e eucalipto, destinados às formulações da marca e, assim, controlar a qualidade das matérias-primas; mas também a criação, em 1953, de um estúdio próprio de litografia e impressão, que lhe possibilitou trazer para dentro de portas a reprodução dos seus rótulos e embalagens, durante muitos anos pintados à mão. Este vasto património gráfico, construído ao longo de décadas, constitui, ainda hoje, uma das mais importantes fontes de inspiração da marca.
Recentemente, deu-se um dos momentos mais decisivos na história da companhia: depois de sete anos sob controlo de uma sociedade de capital de risco (Menlo Capital), a Ach. Brito haveria, em 2022, de voltar integralmente às mãos da família fundadora, numa operação assumida por Aquiles de Brito, bisneto do fundador. O empresário que, em 1994, com apenas 22 anos, tomou a decisão, em conjunto com a irmã, de ficar com o negócio familiar, tomava assim a decisão de reassumir o controlo total da empresa, com o intuito de voltar a conduzir directamente a sua estratégia, o desenvolvimento das suas marcas e a visão para o futuro.
Hoje, esta matriz familiar é um dos pilares mais sólidos da Ach. Brito e um garante da consistência e qualidade dos seus produtos. «Mais do que um negócio, Achilles e Affonso de Brito construíram uma empresa assente em princípios que continuam profundamente presentes na cultura da organização: rigor, independência, qualidade, respeito pelo consumidor e visão de longo prazo. Embora o contexto actual seja naturalmente diferente daquele que existia em 1918, esses valores continuam a orientar a forma como a empresa toma decisões.
Traduzem-se na preocupação constante com a qualidade do produto, na preservação do património da marca, na valorização das equipas e numa gestão que privilegia a construção sustentável do negócio em detrimento de resultados imediatos», assegura fonte do departamento de Marketing da Ach. Brito. O que se mantém, desde sempre, é a «consciência colectiva de que a empresa é guardiã de um legado que importa preservar e projectar para o futuro», reitera.
Ach. Brito 1918: uma gama intemporal
Mais do que uma simples alteração accionista, a decisão, há quatro anos, de fazer regressar a Ach. Brito integralmente às mãos da família fundadora, tem-se revelado decisiva para a companhia. Desde então, a empresa, que hoje tem a sua fábrica em Vila do Conde e detém ainda a marca de luxo Claus Porto, tem apresentado um renovado dinamismo no mercado, que culminou, no ano passado, com o rebranding da marca e o lançamento da linha Ach. Brito 1918. Trata-se de uma gama que revisita o património gráfico e sensorial da marca através de fragrâncias, sabonetes, cremes de mãos e velas concebidos para um consumidor contemporâneo.
De acordo com a Ach. Brito, a nova gama não surge como “exercício de nostalgia, mas como afirmação de continuidade”. As colecções que a compõem, Arabis, Archi, Arquivo, Barrocal, Bioma, Chimera, Comptoir D’Épices, Florela, Jângal, Oculto e Sublime, resgatam aromas, rótulos, símbolos e referências históricas da marca, mas agora com uma roupagem moderna e minimalista.
“Recuperam-se elementos que marcaram mais de 100 anos de história, mantendo viva a essência da Ach. Brito e oferecendo ao mesmo tempo uma experiência sensorial profundamente actual”, frisa a empresa. O que se propõe é “uma viagem sensorial e histórica que atravessa continentes, África, Ásia, Américas, sem esquecer Portugal”.
A gama Ach. Brito 1918 estreou ainda a nova identidade da Ach. Brito, desenvolvida pelo Studio Eduardo Aires. Agora, o logótipo da marca recupera o nome Ach. Brito tal como existia na fachada da antiga fábrica do Porto. Já a cor vermelha, presente ao longo da história visual da empresa, passa a predominar nos rótulos e embalagens, “não como elemento decorativo, mas como assinatura emocional”. “Toda a linguagem visual da linha 1918 assenta nesta ideia de edição (menos ruído, mais intenção), dando forma a uma identidade segura, coerente e pensada para permanecer”, explica a Ach. Brito.
O lançamento da linha Ach. Brito 1918 e o rebranding da marca revelam o caminho estratégico que a família fundadora desenhou para os próximos anos: garantir que esta marca centenária continua relevante, sem perder a sua identidade. «As gerações mais recentes têm procurado precisamente esse equilíbrio entre continuidade e renovação. O objectivo não é transformar a Ach. Brito numa marca diferente, mas sim encontrar novas formas de expressar os mesmos valores num contexto contemporâneo. Isso passa pela reinterpretação do património gráfico da empresa, pela valorização do design, pelo desenvolvimento de novos produtos, pela colaboração com criativos e artistas contemporâneos, pela presença em novos canais e pela utilização das plataformas digitais para contar a história da marca a novos públicos, de diferentes faixas etárias, fazendo da Ach. Brito uma marca de todos os portugueses, mas com o mundo inteiro como território», sublinha fonte do departamento de Marketing da empresa.
«A criação da Ach. Brito 1918 é talvez o exemplo mais visível desta abordagem: um projecto que olha para o passado como fonte de inspiração para construir o futuro.»
Mas manter-se-á a Ach. Brito nas mãos da família fundadora nos próximos anos? «O objectivo é continuar a desenvolver a empresa e as suas marcas com a mesma visão de longo prazo que a tem caracterizado ao longo de mais de um século. Naturalmente, uma empresa familiar como esta, com marcas reconhecidas, património histórico relevante e presença internacional, desperta interesse [do mercado]. Mas aquilo que distingue a Ach. Brito é a sua independência e a capacidade de tomar decisões alinhadas com uma visão própria, sem perder de vista a sua identidade e valores», afirma a mesma fonte. «Hoje, na quarta e quinta gerações da família, existe uma ambição clara de continuar a construir o futuro da Ach. Brito com a mesma independência, autenticidade e compromisso que estiveram na sua origem em 1918», garante.
O que é certo é que o legado de Achilles e Affonso de Brito se mantém vivo e dinâmico, encapsulado em produtos que fazem, e continuarão a fazer, parte da memória colectiva (e olfactiva) de várias gerações.
A Ach. Brito continua na família fundadora. É uma responsabilidade acrescida?
«Sem dúvida. Quando uma empresa permanece nas mãos da mesma família durante mais de um século, existe inevitavelmente uma consciência muito forte da responsabilidade associada a esse legado. As decisões são tomadas com uma perspectiva de continuidade e de longo prazo, considerando não apenas os resultados económicos, mas também o impacto sobre os colaboradores, os parceiros, a comunidade e o património que foi sendo construído ao longo de gerações. Existe igualmente uma responsabilidade acrescida na preservação do conhecimento, da produção em Portugal e da identidade da marca, garantindo que aquilo que foi recebido das gerações anteriores possa ser transmitido às gerações futuras», sublinha fonte do departamento de Marketing da empresa.
Este artigo faz parte da edição de junho (n.º 359) da Marketeer












