Opinião de Marco Gouveia, consultor e formador de Marketing Digital, CEO da Escola Marketing Digital e autor do livro “Marketing Digital: O Guia Completo”
Passámos a última década viciados em métricas de vaidade e em resultados de curto prazo. Aprendemos a olhar para o marketing como uma slot machine: colocamos um euro em anúncios e esperamos que saiam dois em vendas. Criámos uma geração de gestores de tráfego que domina as ferramentas, mas que esqueceu o básico: as pessoas não compram de algoritmos, compram de marcas em quem confiam.
Em 2026, a “performance” tal como a conhecemos atingiu um teto. Os custos por clique não param de subir, a privacidade dos dados tornou o tracking um pesadelo e a Inteligência Artificial nivelou o jogo técnico por baixo. Hoje, qualquer pessoa consegue criar um anúncio visualmente perfeito em segundos. Se a tecnologia é igual para todos, onde é que se ganha a guerra? No único lugar onde a IA ainda não consegue entrar: na construção de Brand Equity.
A verdade é que a confiança é o algoritmo mais difícil de decifrar. Não se compra com orçamento de Google Ads; conquista-se com consistência, autoridade e, acima de tudo, utilidade. Enquanto muitas marcas continuam a berrar nos ouvidos dos consumidores para “comprarem agora”, as marcas que vão sobreviver a esta década são aquelas que decidiram ser a resposta para os problemas dos seus clientes muito antes de lhes tentarem vender o que quer que fosse.
A confiança é o que permite a uma empresa manter as margens de lucro quando a concorrência baixa os preços. É o que faz um cliente escolher o teu serviço, mesmo que o anúncio do vizinho apareça primeiro na pesquisa. Em 2026, o marketing de interrupção morreu. O que importa agora é a pegada que deixamos na cabeça de quem nos segue.
No digital, a confiança não se pede, demonstra-se. E demonstra-se através de pilares que a maioria das empresas negligencia porque, honestamente, dão “demasiado” trabalho e não trazem um ROI imediato na folha de Excel de amanhã.
O primeiro é a autoridade através da generosidade. Se queres que o mercado confie na tua solução, tens de provar que dominas o problema. Isto faz-se entregando valor real muito antes de pedires o cartão de crédito a alguém. É o que se chama de “educar o mercado”. Quando uma marca se torna o recurso onde o cliente vai para aprender, para tirar uma dúvida ou para resolver um pequeno entrave, ela deixa de ser um fornecedor para passar a ser um aliado. A venda, nesse caso, torna-se a consequência natural de uma relação de gratidão e respeito.
Depois, há a consistência da presença. Não há nada que destrua mais a confiança do que o “marketing de soluços”: empresas que aparecem em todo o lado durante uma campanha de saldos e depois desaparecem durante três meses. No digital, o silêncio é interpretado como instabilidade. Estar presente de forma consistente, com conteúdo útil, com uma voz clara e com uma postura coerente, sinaliza ao mercado que a empresa é sólida.
Finalmente, a confiança trabalha-se na transparência da experiência. Em 2026, com a IA a inundar a internet com conteúdo sintético e “perfeito”, a humanidade tornou-se um prémio de luxo. As marcas que escondem os seus processos, que não dão a cara ou que usam uma linguagem corporativa cinzenta e impessoal estão a cavar o seu próprio fosso. As pessoas confiam em pessoas. Confiam em empresas que mostram quem está por trás do ecrã, que assumem os seus valores e que, acima de tudo, cumprem o que prometem. No fundo, a confiança é o resultado de uma equação simples: Promessa cumprida + Tempo.
Ter uma marca forte já não é um luxo de grandes corporações. É a única apólice de seguro que uma empresa tem contra as mudanças de humor das plataformas externas. Se o Instagram desaparecer amanhã, o que é que sobra do teu negócio? Se a resposta for “nada”, então tu não tens uma marca, tens apenas um contrato de aluguer com as Big Tech.
Construir autoridade orgânica dá trabalho. Demora tempo. Exige pés bem assentes no chão e uma visão que ultrapasse o final do trimestre. Mas é o único caminho para quem não quer passar a vida a correr atrás de cliques que valem cada vez menos. No fim do dia, podes dominar todas as ferramentas digitais do mundo, mas se não dominares o algoritmo da confiança, serás apenas mais um ruído passageiro no ecrã de alguém.













