Em Portugal, comer à mesa sempre foi mais do que uma necessidade; é um momento de encontro, partilha e tradição. No entanto, as mudanças no estilo de vida e a presença constante de dispositivos electrónicos estão a transformar esta prática.
Segundo um estudo realizado pela Pitagórica para a Associação Portuguesa de Nutrição (APN) e o Continente, a grande maioria dos inquiridos (67%) almoça habitualmente em casa, um hábito que cresce com a idade e que é mais frequente no Norte (70%) e entre as mulheres (69%), ainda que 45% afirme que almoça maioritariamente sozinho, dentro ou fora de casa. O jantar é ainda mais caseiro: 85% fazem-no em casa e 67% estão acompanhados.
Apesar disso, 64% dos inquiridos gostariam de fazer mais refeições à mesa com a família, o que mostra que o valor simbólico e afectivo da mesa continua presente, mesmo que nem sempre se concretize no dia-a-dia. Esta vontade é ainda mais expressiva entre quem tem filhos em casa, evidenciando que as refeições continuam a ser vistas como momentos de convívio e ligação emocional, onde se alimentam também as relações, embora não aconteçam com a frequência desejada.
Ainda que 80% reconheçam que a refeição é um momento importante de diálogo e convívio, e 67% afirmem que comem melhor quando estão acompanhados, 1 em cada 3 pessoas janta mais vezes sozinha do que acompanhada. Entre os idosos, 31% afirmam jantar sozinhos. Já entre os mais jovens, sobretudo nas áreas metropolitanas, a relação com as refeições é mais fragmentada: horários desencontrados, refeições fora de casa e a presença constante de ecrãs.
O uso de dispositivos electrónicos é mais comum ao almoço, enquanto ao jantar a televisão assume o papel de “companhia de fundo”. Cerca de metade dos inquiridos vê televisão durante o jantar, esteja ou não acompanhado. 56% almoça em menos de 30 minutos e essa percentagem baixa para 44% ao jantar. Cerca de 44% utiliza com muita frequência telemóveis ou tablets às refeições, subindo para 70% entre os 18 e os 34 anos.
Apesar dos desafios, segundo a Pitagórica há sinais encorajadores: quando questionados sobre alterações no último ano, verifica-se um aumento das refeições feitas com quem se vive e uma redução das refeições a sós ou com amigos fora de casa. Também se verifica uma diminuição no uso de ecrãs durante as refeições, o que pode indicar uma vontade crescente de recuperar o tempo partilhado à mesa.
Por outro lado, há mais 9% de pessoas a dizer que neste último ano almoçaram ou jantaram menos com amigos e família alargada do que em 2024, do que aquelas que afirmam o contrário.
O regresso à mesa em família
Na quadra natalícia, os hábitos mudam. Mais de 70% dos inquiridos passam a consoada e o dia 25 com a família próxima, mantendo viva a tradição de reunir várias gerações à mesa. Ainda assim, 1 em 15 pessoas afirma que irá passar a consoada sozinha.
Durante a apresentação do estudo, esta manhã, ficou claro que 74% dos inquiridos consideram importante fazer refeições em família e 73% acreditam que as refeições são o principal momento de encontro familiar.
«Queremos que este estudo seja o mote para tomarmos consciência e conversarmos sobre hábitos do dia-a-dia dos portugueses», assumiu Filipa Appleton, head of Brand & Marketing do Continente, esta manhã, durante a apresentação, assegurando que com a campanha de Natal, o Continente pretende precisamente que essa conversa aconteça.
«Não há dúvida de que os hábitos alimentares tem impacto na saúde mental e a saúde mental também tem impacto nas escolhas alimentares. São muitos factores que interferem. As pessoas fazem escolhas com as suas vulnerabilidades e características. Num trabalho mais individualizado importa perceber as características daquela pessoa, nomeadamente ambiente familiar e questões sócio económicas. Estas condicionantes são essenciais nas escolhas. Temos de perceber as pessoas para perceber como é que os hábitos podem ser melhorados», sublinha Alexandra Antunes, vice-presidente da Ordem dos Psicólogos Portugueses, numa mesa redonda que se juntou para debater os resultados do estudo. E importa não esquecer, acrescentou, que tem vindo a haver um aumento do isolamento, que já existia com o evoluir das tecnologias, e que a pandemia tornou ainda mais evidente.
A vice-presidente da Ordem dos Psicólogos Portugueses acredita que temos mesmo que nos preocupar com os jovens. «A valorização do convívio não foi alimentada. Foi uma geração que cresceu com pais com menos tempo. E, por isso, temos de intervir junto das famílias na valorização do estar à mesa e do partilhar.» Uma intervenção, de resto, que deverá ser feita de forma coordenada entre diversos sectores da sociedade de maneira a todos estarem a remar no mesmo sentido.
Texto de Maria João Lima
*A jornalista escreve segundo o Antigo Acordo Ortográfico














