Artigo da autoria de Helena Paixão, Psicóloga Clínica, Ceo&Founder Clínica Helena Paixão – Psicologia, Mindfulness e Desenvolvimento Pessoal e autora do livro O Poder do Autocuidado
Todos os anos, o Dia Mundial da Saúde Mental, assinalado a 10 de outubro, lembra-nos a importância de colocar a saúde psicológica no centro da vida individual e coletiva. A data, promovida pela Organização Mundial da Saúde, pretende quebrar estigmas e reforçar que não existe saúde e bem-estar verdadeiro sem saúde mental. Porém, como podemos transformar esta consciência numa prática diária consistente? A resposta está, em grande parte, no autocuidado.
Nos últimos anos, a palavra “autocuidado” ganhou protagonismo. Muitas vezes associada a rotinas de bem-estar ou a momentos de lazer, corre o risco de ser vista como um luxo ou uma moda (passageira). Contudo, a ciência mostra-nos que o autocuidado é um fator determinante na prevenção de problemas como ansiedade, depressão e burnout. Longe de ser supérfluo, é um investimento na saúde mental e na qualidade de vida.
Diversos estudos em psicologia clínica e neurociência comprovam que práticas regulares de autocuidado influenciam diretamente a forma como pensamos, sentimos e agimos. Estratégias simples, como fazer uma boa higiene de sono, praticar atividade física regular, cultivar práticas de mindfulness (formais e/ou informais) e autocompaixão, fazer journaling ou canalizar tempo para pausas conscientes, reduzem os níveis de cortisol (a hormona do stress). Paralelamente, estas práticas favorecem funções cognitivas determinantes — memória, atenção, tomada de decisão — e fortalecem a resiliência, aumentando a nossa robustez mental para lidar com as exigências do quotidiano.
Apesar desta evidência, persiste a ideia de que produtividade é incompatível com abrandar e fazer pausas conscientes. No contexto profissional, muitos ainda acreditam que trabalhar mais horas resulta em melhores resultados. No entanto, a própria OMS reconhece o burnout como consequência de ambientes de trabalho cronicamente exigentes (e desgastantes). Negligenciar o autocuidado não afeta apenas a saúde individual: compromete a inovação, a produtividade e a cultura das organizações.
É fundamental, no entanto, não transformar o autocuidado em mais uma obrigação. Quando se reduz a uma lista rígida de tarefas — “faça yoga, medite, leia antes de dormir” — pode gerar frustração – e até culpa. O verdadeiro autocuidado é, antes de tudo, um exercício de humanidade: escutar o corpo e as emoções, respeitar limites sem culpa, cultivar relações significativas e permitir-se a fazer momentos de pausa e lazer, sem necessidade de os justificar.
Ao celebrarmos o Dia Mundial da Saúde Mental, somos convidados a refletir sobre esta dimensão individual, mas também coletiva. Promover a saúde psicológica não depende apenas de escolhas pessoais, exige políticas públicas eficazes, ambientes laborais saudáveis e lideranças conscientes e ressonantes.
Importa reter e sublinhar: O autocuidado não é egoísmo, é o solo fértil onde crescem o equilíbrio emocional, a criatividade e a resiliência.
Cuidar de si no presente é, em última análise, cuidar do seu futuro — de cada um de nós, das organizações e da sociedade.














