Ao longo dos séculos, o chocolate percorreu uma notável trajetória, de bem de luxo reservado à nobreza, a doce democrático das prateleiras de supermercado. Mas no século XXI, ele regressa ao universo do prestígio, agora com roupagens ainda mais sofisticadas. Existe, hoje, um segmento em que barras de chocolate podem ultrapassar os mil euros, com edições limitadas envelhecidas em barris de conhaque, trufas envoltas em ouro comestível e embalagens dignas de peças de arte.
De acordo com a Forbes, uma das marcas mais emblemáticas deste movimento é a equatoriana To’ak, reconhecida como a mais cara do mundo no sector do chocolate. Uma simples barra de 50 gramas pode atingir valores entre 1.300 e 2.300 euros. O segredo começa na escolha da matéria-prima: o cacau da variedade Nacional, uma das mais raras e praticamente extinta, é cultivado de forma artesanal, submetido a envelhecimento controlado e depois apresentado em caixas de madeira numeradas, acompanhadas de uma pinça de degustação e guia ilustrado. Edições especiais, como as que integram impressões certificadas de artistas equatorianos, chegam mesmo aos 2.600 euros.
Mas To’ak está longe de ser caso único. No segmento do chocolate ultraluxuoso, destacam-se também a americana House of Knipschildt, criadora da trufa La Madeline au Truffe (com um valor superior a 1.200 euros), e a suíça Delafée, que aposta na inclusão de folhas de ouro comestível para criar autênticas jóias comestíveis. Marcas como estas ocupam um espaço que já não se limita ao prazer gastronómico, mas antes à experiência emocional e simbólica associada ao consumo de luxo.
A questão que se impõe, como refere a Forbes, é: o que justifica valores tão elevados? A resposta não reside apenas na raridade do ingrediente ou nos processos manuais meticulosos. Há um elemento intangível que pesa significativamente, a narrativa. Para Bruno Lasevicius, chocolatemaker e investigador na área da cultura alimentar, o valor não está apenas no chocolate em si, mas na ideia de exclusividade: “Quando alguém paga 300 euros por uma barra, não está a comprar apenas sabor. Está a adquirir a sensação de ser único, de fazer parte de algo raro e especial.”
Para Luana Vieira, especialista em tecnologia do cacau, o envelhecimento controlado é um dos segredos deste segmento. “Cacaus maturados durante anos desenvolvem perfis aromáticos profundos, revelam notas escondidas e reduzem a acidez, transformando completamente a experiência sensorial.” A embalagem, o ritual e os acessórios completam esta proposta imersiva. O luxo, neste caso, não é apenas degustado é encenado.
Contudo, nem todos aceitam este conceito sem reservas. Tal como reportado pela Forbes, há quem critique a disparidade entre a estética e a qualidade técnica de alguns destes produtos. Questões como defeitos de torra ou falhas de temperagem foram identificadas mesmo em marcas de topo. Isto levanta uma dúvida pertinente: até que ponto o luxo se deve sustentar apenas na imagem?
A nível global, o mercado do chocolate premium continua a crescer. Marcas como a histórica Debauve & Gallais, fornecedora da corte francesa desde o século XIX, ou a Richart, com as suas linhas vintage, já atingem valores entre 1.600 e 5.900 euros por quilo. A experiência de prova, nestes casos, aproxima-se mais de uma degustação de vinhos raros do que de uma simples sobremesa.
Num artigo recente da Forbes, especialistas defendem que este segmento do chocolate de luxo reflecte uma tendência mais ampla no comportamento do consumidor contemporâneo: a valorização de produtos com identidade, origem e storytelling. À semelhança do que aconteceu com o café de especialidade, os vinhos naturais e as cervejas artesanais, o chocolate está a reinventar-se como objeto cultural e símbolo de estatuto.














