“Com a minha marca quero mostrar que o artesanato português pode ter projeção internacional sem perder a sua essência”, João Bruno, designer

EntrevistaNotícias
Sandra M. Pinto
01/08/2025
10:45
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01/08/2025
10:45


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Nascido e criado no coração de uma tradição secular, João Bruno cresceu rodeado de lã e do saber-fazer dos tapetes de Arraiolos, uma herança que viria a moldar profundamente a sua identidade artística. Hoje, é reconhecido por fundir com mestria o artesanato tradicional com o design contemporâneo, criando peças únicas, inteiramente feitas à mão, que desafiam os limites entre funcionalidade e escultura.

Por Sandra M. Pinto

A partir do seu atelier no emblemático espaço A Moagem – Fábrica das Artes, em Tomar, João dá nova vida à lã portuguesa, levando-a a palcos internacionais sem nunca perder o vínculo à sua origem. Nesta entrevista, o artista, que vai marcar presença na Paris Design Week através da exposição “Re.MADE IN PORTUGAL naturally”, partilha o seu percurso, a importância do tempo e da técnica, os desafios e promessas da lã no século XXI e como, com cada peça, revaloriza uma cultura que é tão nossa.

João Bruno, como começou a sua ligação com a lã e o design contemporâneo?
Cresci rodeado de lã, muito pela influência da minha mãe que era uma apaixonada pelos tradicionais tapetes de Arraiolos. Muito mais tarde quando me propus fazer a primeira peça, uma cadeira, a escolha pela lã foi óbvia e por uma questão de proximidade. A partir daí, comecei a fazer várias experiências e encontrei a minha própria linguagem, unindo a arte e o design contemporâneo ao saber-fazer tradicional.

O que o inspira a criar peças inteiramente feitas à mão, e qual a importância do artesanato no seu trabalho?
O trabalho manual é, para mim, uma afirmação de autenticidade. Muitas vezes, trata-se de gestos humanos que nenhuma máquina conseguira replicar. E isso é sem dúvida uma vantagem no advento da inteligência artificial. Depois, inspira-me a ligação com a matéria, o tempo investido em cada peça e a possibilidade de criar algo único que carrega memória e identidade.

Pode descrever o seu processo criativo desde a ideia até à peça final?
Tudo começa com uma ideia ou uma imagem mental, muitas vezes inspirada na natureza ou na geometria. Depois, passo para o desenho, estudo de cores e alguns ensaios, mas em grande dose é um trabalho de improviso. A execução é um diálogo constante entre a técnica e a matéria, até chegar ao equilíbrio final que procuro.

Trabalhar com lã exige muita paciência e técnica. Quais os maiores desafios que enfrenta nesse processo?
O maior desafio é respeitar o tempo da peça e do próprio material. Não é possível apressar o processo sem comprometer o resultado. Também há desafios técnicos ligados à resistência, escala e durabilidade.

Tem alguma peça favorita ou uma que represente um marco na sua carreira?
Cada peça marca um momento diferente. O “Dodecaedro” é sem dúvida a peça que designo como a minha peça. Mas “Raízes” e “Coração” foram trabalhos que abriram novos caminhos na minha prática sobretudo ao nível da escultura.

A lã é um material tradicional português. Como é que essa herança influencia o seu trabalho?
A herança está presente no respeito pela técnica e na valorização da lã como matéria-prima nobre. É também um compromisso com a preservação de um saber que faz parte da nossa cultura.

De que forma procura inovar ao usar um material tão tradicional?
Explorando novas formas, escalas e contextos. Levo a lã para territórios menos óbvios, como a escultura contemporânea e a instalação artística, mantendo a técnica manual, mas com uma estética atual.

O seu atelier está no espaço A Moagem – Fábrica das Artes, em Tomar. Qual é o significado de trabalhar num edifício com tanta história?
Trabalhar num espaço carregado de história é inspirador. É como se as paredes guardassem memórias e isso influencia o meu trabalho. Além disso, insere-me num contexto criativo onde há troca constante com outros artistas.

Acredita que o seu trabalho ajuda a valorizar o artesanato e a cultura portuguesa?
Sim. Cada peça é também um veículo para mostrar que o artesanato português é relevante, contemporâneo e pode ter projeção internacional sem perder a sua essência.

Como vê o futuro da lã no design contemporâneo e no mercado global?
Vejo um futuro promissor. Há um interesse crescente por materiais sustentáveis e de origem natural. A lã, pela sua versatilidade e história, tem tudo para ocupar um lugar de destaque no design global.

Pretende explorar outros materiais ou manter o foco na lã?
A lã é e continuará a ser o meu fio condutor. Mas gosto de a cruzar com outros materiais, naturais ou até sintéticos (tudo depende do fim a que se destina a peça), para expandir as possibilidades criativas.

O seu trabalho combina funcionalidade e arte. Como decide o equilíbrio entre estas duas vertentes?
Depende da intenção da peça. Algumas nascem para serem utilitárias, outras para serem exclusivamente artísticas. O equilíbrio vem de respeitar o propósito inicial.

Que conselhos daria a novos artistas que queiram apostar no artesanato português?
Que conheçam profundamente a técnica, mas que não tenham medo de arriscar. É na reinvenção, e não apenas na repetição, que o artesanato se mantém vivo.

Tem algum projeto ou colaboração futura que possa partilhar?
Estou a preparar novas peças escultóricas e instalações para eventos internacionais em 2025, que vão continuar a explorar a relação entre lã, natureza e espaço.




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