No mundo da moda e das marcas de lifestyle, expressões como “small batch” (pequenos lotes) ou “edição limitada” são usadas para transmitir exclusividade e proximidade. Mas, por vezes, a realidade da produção mostra que estes termos nem sempre correspondem ao que sugerem.
Um caso recente ocorreu com a marca de lifestyle de Meghan Markle, As Ever. No dia 3 de janeiro, um alegado erro no site terá revelado números de stock que variavam entre 8.500 e mais de 137.000 unidades por produto. A divulgação destes dados gerou debate sobre o verdadeiro significado de “pequenos lotes” e “edição limitada”, conceitos amplamente usados em marketing, mas raramente clarificados.
Na moda, “small batch” é quase sempre relativo. Para uma marca de luxo que produz milhões de peças por ano, 5.000 unidades podem ser consideradas limitadas; para um atelier independente, 50 peças já constituem um lote. O mesmo acontece com marcas de lifestyle ou bem-estar que utilizam linguagem artesanal, mas operam a nível nacional ou internacional: quando a produção atinge dezenas de milhares de unidades, “small batch” deixa de ser um método e torna-se um termo comparativo de marketing.
Palavras como “artesanal”, “heritage” ou “atelier” sobrevivem muitas vezes à industrialização da produção, comunicando valores mais do que processos. O problema surge quando os consumidores interpretam estes termos de forma literal, criando uma perceção de exclusividade que pode colidir com os números reais.
Esta ambiguidade já é normalizada na moda. Coleções cápsula ou edições limitadas, como as linhas Limited Edition da Zara, são apresentadas como exclusivas, embora existam milhares de peças globalmente. Para os consumidores, “limitado” significa apenas “mais raro do que o habitual”, não necessariamente escasso.
O desafio é maior para marcas de lifestyle. Os consumidores esperam proximidade e escala humana. Quando surgem números industriais, como no caso de As Ever, a narrativa de intimidade e exclusividade pode parecer contraditória, mesmo que a qualidade se mantenha.
O problema central não é a escala de produção, mas a definição dos termos. “Small batch”, “edição limitada” ou “feito à mão” não são conceitos regulamentados; dependem de contexto, confiança e interpretação do consumidor. Quando esta perceção se desfaz, por fugas de informação, erros técnicos ou investigação jornalística, evidencia-se ambiguidade, não necessariamente fraude.














