Sabe que há uma pérola no Douro?

Schiuu!! Mas não conte a muita gente. Chama-se Ventozelo, começou pelo vinho e abriu ao turismo. Sabe daqueles sítios de onde não apetece sair e para onde se quer voltar? É assim, por ali, com o Douro aos pés.

Texto de M.ª João Vieira Pinto

Tire o relógio. E o som do telemóvel. Entre devagar e vá-se deixando estar. Porque por Ventozelo, aquela que é a maior quinta privada do Douro, com 400 hectares – o tempo é valor que ainda dura. O tempo, os aromas, os sabores de sempre e os afectos de quem nos faz sentir em casa.

Cheguei à Quinta de Ventozelo ao final de uma manhã de sol, já embalada pela estrada que liga Régua a São João da Pesqueira – quase sempre ao longo do Douro -, naquele que era um regresso sonhado. Há três anos – quando pela primeira vez me encantei -, Ventozelo tinha-se prometido “abrir” ao mundo, deixar que muitos outros a pudessem perceber. Por isso, e durante mais de dois anos, os proprietários – o Grupo francês La Martiniquaise – investiram sete milhões de euros para reconverter a quinta em quinta&hotel. Abriria em Novembro, fecharia pela pandemia, reabriu agora.

Por isso, foi um gosto chegar a Ventozelo e perceber que nada se estragou, antes se melhorou… O que se deve, também, à vontade e sonho de Jorge Dias, o administrador do grupo em Portugal e grande escritor dos principais capítulos da história.

Para quem está no Norte, o Douro pode ser já ali. De Lisboa, são quase quatro horas. Não, não é perto. Mas assim que chegar vai perceber que valeu toda a pena.

Faça o check-in na loja-recepção da quinta, entregue a mala – há várias casas e diferentes tipologias, entre a casa do rio ou os quartos da Casa do Laranjal – e, se chegar pelas horas a que eu cheguei, vá almoçar.

Mas primeiro, claro, dê só uma espreitadela ao rio que corre no sopé. É de quadro, sim, de fotografia ou de memória que se guarda. Pelo menos, eu continuo a lá voltar, a essa memória! Suba então até à Cantina ou, se lhe apetecer prolongar sem horas, comece pelo Wine-Bar cuja carta é composta apenas e só por referências de Ventozelo, desde um Dalva ao Viosinho, passando por um Tinta Amarela. Parece-lhe pouco? Pois, garantimos que fica bem servido.

Mas melhor servido, ainda, é na Cantina. Esqueça a comida laboratorial de chef. Que também a há, por ali, ou não fosse Miguel Castro e Silva o grande consultor gastronómico dos diferentes espaços do grupo. Mas, aos saberes da nova cozinha, Miguel juntou-lhe os sabores da região, num resultado que é, na maioria dos casos, para não esquecer. Até porque há a cozinha – partilhada com Alice, cozinheira de longa data de terras do Douro – e há o grande forno a lenha. Por mais anos que viva, jamais esquecerei o sabor do bacalhau com crosta de broa que dali saiu e repeti três vezes, já depois de me ter desgraçado com uma bola de sardinha.

Miguel tem vindo a fazer o levantamento histórico da gastronomia local e já o começa a aplicar na carta que está a desenhar para Ventozelo. Uma coisa é certa: os legumes chegam da horta da quinta, o pão é comprado a fornecedores locais e acabado de cozer ali, o azeite também leva assinatura Ventozelo, e tudo o resto procura-se que seja assegurado por produtores próximos. «É uma cozinha de memória, com todo o rigor científico do Miguel», caracteriza Jorge Dias.

Claro que depois de um almoço destes só apetece uma sesta – se bem que pode ficar por umas saladas ou requisitar uma merenda, em jeito de cesto de piquenique, e estender a toalha junto ao rio ou na mata dos sobreiros.

Até porque a novidade da estação são mesmo as merendas, para quem quer uma refeição simples, sempre acompanhada dos vinhos da quinta, cuidadosamente embrulhadas em alcofas de junco.

Quanto à sesta, o meu conselho é junto à piscina infinita com vista, claro, para o Douro. Até porque o silêncio quase que chega a “magoar” de tanto imperar e ajuda a desligar! Se bem que nesta quinta, que tem 65 km de estrada no seu interior, há todo um mundo de opções. Não pense que tédio é sinónimo por ali. Agora, se for, entregue-se a ele.

Abrir as portas do melhor que o Douro tem

Quando se pergunta a Jorge Dias se está feliz, a resposta é clara, apesar de ir lembrando uma e outra vez que um projecto como este é sempre uma obra inacabada, um processo em melhoria. «Quando comprámos a quinta, pedimos ao professor Gaspar Martins Pereira para escrever um livro sobre Ventozelo. Quando nos aperce- bemos da espessura histórica da quinta, com mais de 500 anos, percebemos que o projecto de Ventozelo é tão grande que foi sempre ina- cabado, nunca houve recursos para o acabar.»

Isto, depois de algum tempo em que o grupo andou à procura de uma quinta, e em que chegou mesmo a haver uma “divergência”: «O meu presidente achava que devíamos comprar uma com 40 hectares, eu entendia que devia ter só quatro. Acabámos por comprar uma quinta com 400 hectares», conta a rir Jorge Dias, enquanto recorda que as primeiras ideias, os traços gerais para o que gostaria de vir a criar, esses já os tinha há anos. Os seus sonhos haveriam de se cruzar com uma mão- -cheia de propostas de uma equipa de cerca de 30 pessoas de áreas como Arquitectura, Paisagismo ou História. No fundo, o que havia era «o sonho de abrir as portas do melhor que o Douro tem, a quem quisesse visitar, encarando o Turismo, não como indústria extractiva, mas enquanto contributo para a própria sustentabilidade da região».

Como é que Ventozelo se apresenta? Como sendo “vastidão e detalhe; natureza em bruto e biodiversidade, terra e rio, fauna e flora”. Para descobrir tudo isso, há um programa variado de actividades e nove percursos que permitem encontrar diferentes valores culturais e naturais da quinta, entre as vinhas e o moinho, a mata de sobreiros, os caminhos -dos javalis ou a beira-rio.

Com 29 quartos distribuídos por diferentes edificações da quinta, nos próximos meses apenas 22 estarão a uso no sentido de aumentar o distanciamento entre os hóspedes. E alguns estão mesmo em casas isoladas. Ainda continua a pensar que o Douro é longe? Turismo

 

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