Portugal é o terceiro destino mundial de surf mais procurado em motores de busca e o segundo a nível europeu. E, este, é apenas um dos dados de um território que tem vindo a crescer em números, em todas as suas dimensões. Só para ter uma ideia, em 2024, a etapa da MEO Rip Curl de Peniche movimentou mais de 20 milhões de euros, enquanto a Big Wave da Nazaré ultrapassou os três milhões.
Continuando a surfar esta onda, todas as estimativas apontam para que, no primeiro caso, as 120 mil pessoas que por ali passaram terão gasto 13 milhões de euros em consumo de produtos e serviços. Por sua vez, os 25 mil espectadores que foram até à Nazaré o ano passado terão deixado um rasto de 1,6 milhões de euros. Isto, num perfil desenhado entre os 18 e os 44 anos, sendo 36,5% estrangeiros em Peniche e 69,5% na Nazaré. Os dados resultam do estudo de impacto socioeconómico dos eventos WSL 2024 (etapa de Peniche e Nazaré) em Portugal. A WSL opera eventos de surf em Portugal desde 2009, quer sejam de qualificação ou de circuito mundial, tendo este trabalho sido preparado e desenvolvido no âmbito de um mestrado em Ciências Empresariais do ISEG, Lisbon School of Economics & Management. Numa conversa directa com a Marketeer, Francisco Spínola, o director-geral da WSL para a Europa, África e Médio Oriente, confirma a evolução do destino Portugal neste desporto, a sua notoriedade no exterior, partilha dados de patrocínio e garante que o caminho feito até aqui será para continuar. Até porque, olhando aos resultados até à data, percebe- se que no que bem resulta não se mexe.
Se tivesse que resumir, o que é, o que faz e como é que se gere a WSL?
A WSL é a entidade máxima que rege o surf profissional. Desde os juniores, homens e mulheres, até aos seniores. É o mesmo, por exemplo, que a ATP para o ténis.
Portugal tem autonomia total?
Quando comecei chamava-se ASP, Association of Surfing Professionals. Comecei por estar envolvido nisto quando trabalhava na Rip Curl, porque, antigamente, as marcas de surf é que tinham as licenças e organizavam as provas. O que aconteceu, entretanto, é que a Rip Curl tinha uma das 10 provas do Grand Slam, do World Tour, sendo que uma delas era móvel e todos os anos mudava de sítio. Eu, enquanto director de Marketing da Rip Curl aqui na Europa, candidatei- me para recebermos esse evento em Portugal. O evento correu tão bem, do ponto de vista da organização, dos próprios surfistas e dos patrocinadores, que o Governo e o Turismo de Portugal disseram “nós queremos que esta prova fique cá”.
Na altura, a Rip Curl já tinha duas provas no calendário e esta seria uma grande despesa adicional. Propus então à ASP que eu, enquanto Francisco, me iria candidatar, e criar uma empresa para ter uma licença independente.
Criaram uma prova de origem, no fundo.
Não, aquela prova passou a ser uma prova permanente. E ficámos com o apoio da Rip Curl na Ocean Events – a empresa que criei. Então, o mundo estava organizado: havia 10 provas no mundo inteiro, umas da Quicksilver, umas da Billabong, outras da O’Neill, outras das grandes marcas de surf, e uma delas era detida por esta empresa portuguesa, que era a minha, que fundei aos 30 anos. Desde aí, ficámos.
Até porque chegaram os primeiros apoios…
Sim, o Turismo de Portugal, a Câmara Municipal de Peniche, a TMN, que está até hoje (MEO). Depois entrou a EDP, que ainda se mantém, e começaram a chegar uma série de entidades. A verdade é que todas aquelas marcas que entraram no surf ficaram, e a nós não nos interessa poluir muito este território para que as marcas que estão associadas ao surf tenham verdadeira visibilidade.
Hoje, já tem mais que essa prova!
Em 2012, tinha eu essa licença, e um fundo americano muito grande comprou a Liga Mundial. A nossa prova estava a correr muito bem e puseram-me como director-geral para a região da Europa, África e Médio Oriente. Abri mão das minhas licenças e passámos todos (equipa) a trabalhar por uma só entidade chamada World Surf League. Em Portugal, temos a prova de Peniche, que é o World Tour. Temos uma prova da Challenger Series na Ericeira e uma do Qualifying Series, na Costa da Caparica. Já tivemos em Torres Vedras, em Santa Cruz, que está agora em stand-by, mas estamos a tentar retomá-la. E temos a prova do Big Waves, na Nazaré, que é um evento que mudou completamente aquele destino.
Como é que se organiza um evento destes? Muda muito, de ano para ano? Quais são os maiores desafios?
Tentamos constantemente inovar numa lógica das estruturas, para tentarmos deixar uma pegada cada vez mais ecológica. Costumo dizer que o grande segredo disto foi o facto de os estádios já estarem construídos, as praias. Não tivemos que investir milhões no palco… Portanto, tentamos manter o nosso ecossistema o mais leve possível.
É claro que marcas como a MEO, EDP ou Corona vão querer activar, até porque só o evento de Peniche leva 30 mil pessoas por dia a uma praia que não tem as mesmas infra- -estruturas que tem um estádio de futebol. Daí que o nosso principal objectivo anual seja melhorarmos a preservação do ecossistema. Esse é sempre o nosso maior desafio. Depois, claro que todo o circuito tem evoluído imenso. Quando começámos, em 2009, os prémios andavam na ordem dos 500 mil euros, hoje está no 1 milhão e 200 mil euros. Mais do que duplicou. O que fizemos foi trazer marcas internacionais como a Rolex ou a Tudor, para ajudar a esse nível. Conseguimos trazer marcas que era impensável virem a activar num território como o surf.
Já que falamos de valores e de investimentos…
É imenso, mas ainda não conseguimos atingir a rentabilidade. Houve uma altura em que já estávamos quase, mas quisemos igualar o price money de homens e mulheres… A verdade é que já estamos a começar a ter marcas de beleza, como a Shiseido, a olhar para o surf também como um desporto feminino. Quando fiz a primeira prova, custava cerca de dois milhões de euros. Hoje, a Prova de Peniche está à volta dos três milhões e meio. Esse aumento foi sempre combatido com mais sponsoring, porque é o único revenue stream que temos, porque os media rights ainda são muito difíceis de vender. Podíamos implementar o pay-per-view, mas não o fizemos porque ainda estamos a querer que a audiência cresça.
Do total de receitas quanto é que voltam a investir todos os anos?
Tudo o que ganhamos é reinvestido. O que é que falta para dar esse salto? Novos caminhos, novos revenue streams, nomeadamente, um pay-per-view e aumentar os media rights. Estamos a fazer o caminho. Todos os anos temos crescido.
Quanto é que valerá o surf em Portugal?
Entre as nossas provas, as provas que existem, a Liga MEO, o Capítulo Perfeito, que são os eventos mais relevantes, diria que deve andar nos 25 milhões de euros.
Seria impensável há 25 anos?
Completamente impensável há 25 anos.
E as marcas já estão cientes desta dimensão, desta dinâmica do que o surf traz também para Portugal?
Felizmente, temos conseguido trabalhar com os melhores, como a EDP, que trabalham com as melhores agências de comunicação, de publicidade, o que nos permite grandes projectos em conjunto. As marcas finalmente estão a perceber que colocar autocolantes e fazer anúncios não chega. Têm que estar nos conteúdos e que ser relevantes para o público final.
Mas, para além dessas que já estão no surf, as marcas em Portugal têm noção de todo o impacto e da dimensão destas provas?
Creio que sim, já começam a perceber a importância que o surf tem. O facto de termos conseguido não poluir o território, de termos poucas marcas, pode ter ajudado. A ideia é que as marcas sintam o território, que é muito difícil. Uma marca tem que investir seis, sete, oito, 10 anos para ser reconhecida como estando associada a um determinado território. O surf é um bocadinho como a música. O que se está ali a tentar activar é fun.
Que marca faria sentido ainda irem buscar para aumentar o vosso bolo de receitas?
Pensámos no sector automóvel e airbnb…
Quantas pessoas é que chegam, por ano, para assistir às duas principais provas?
Temos 120 mil em Peniche e 50 mil na Nazaré. Estes números são da Protecção Civil. São maioritariamente brasileiros, muitos espanhóis… e têm muito impacto no turismo, na restauração, no comércio.












