O que levou a Granvinhos a apostar na região dos verdes

NotíciasEntrevista
Daniel Almeida
29/08/2025
09:45
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09:45


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É um caminho de diversificação aquele que a Granvinhos, empresa do Grupo La Martiniquaise, está a desenhar. Depois de uma forte e consolidada aposta no Douro, fez a curva para o Atlântico e chegou aos Vinhos Verdes, a partir da Quinta de São Salvador da Torre, Viana do Castelo. Num investimento a rondar os dois milhões de euros, contabilizando aqui todo o trabalho vitícola e a recuperação do património, em particular do solar do século XVII existente na propriedade, que se estende por 37 hectares de terreno, dos quais 30 de vinha, a ideia é fazer a diferença na região e ganhar em oferta e portefólio.

Pelo meio, atravessou literalmente o Atlântico e começou a desbravar terreno por terras da Madeira, naquele que é um projeto a dar os primeiros passos. Quanto ao dos Vinhos Verdes, a vontade já vinha a ser partilhada desde há algum tempo por Jorge Dias, o diretor-geral da Granvinhos e grande mentor de toda a transformação e estratégia que o grupo tem vindo a implementar. Por isso, não lhe foi difícil encetar negociações com o Grupo Soja de Portugal, então detentor de São Salvador da Torre, para a sua compra. Iniciou-as e concluiu-as, em 2022, com todo o processo a avançar de seguida e com os primeiros vinhos (Loureiro e Alvarinho) a chegarem ao mercado já este ano.

Na altura, a exploração agrícola da propriedade era feita em parceria com o enólogo Anselmo Mendes, modelo que será mantido nos próximos anos, pelo que também não podia ser outro nome a liderar trabalhos agrícolas, vindimas, blends e leveduras. De resto, são 30 anos de amizade que unem Anselmo Mendes e Jorge Dias, e uma marca conjunta era algo há muito falado!

Agora, «o objetivo é tornar a quinta e a sua marca referências na região dos Vinhos Verdes, apostando na qualidade dos produtos, na sustentabilidade ambiental e na valorização do território e do património», sendo que o projeto passa antes de tudo pelo desenvolvimento do potencial da casta Loureiro, referem. Jorge Dias, aliás, não deixa de defender que tanto o Alvarinho como o Loureiro estão bem adaptados aos «novos tempos e hábitos de consumo», mas ainda necessitam de ser valorizados «pela ligação às respetivas zonas de produção, bem como à dieta atlântica».

No que diz respeito à quinta, as suas origens remontam à Idade Média. Inicialmente parte do património do Mosteiro Beneditino de São Salvador da Torre, recebeu carta de couto de D. Afonso Henriques, em 1129. Ao longo dos séculos, passou por várias mãos, com destaque para a família Rocha Brandão, que por ali esteve ao longo de quase 400 anos e que ali construiu o solar e a capela dedicada a Santo Isidoro no século XVII, por bula do Papa Júlio III. No início do século XX, foi vendida ao banqueiro José Carreira de Sousa, tendo sido este proprietário e os seus herdeiros que desenvolveram a viticultura, chegando a produzir 120 pipas de vinho branco de qualidade. Em 1980, foi adquirida pela Soja de Portugal, que expandiu as suas atividades para a pecuária.

Para além dos 30 hectares de vinha, há pomares, olival, castanheiros e floresta. E, no centro de tudo, uma casa solarenga datada do século XVII, restaurada e ampliada no século XIX, concretamente em 1856.

Trabalhar o Loureiro e o Alvarinho

Na margem direita do rio Lima, a 10 km do oceano Atlântico, com a serra de Arga no horizonte, a propriedade é terreno fértil para as castas Loureiro e Alvarinho, beneficiando da brisa marítima. A sua localização e os solos estratificados de granito e xisto moldam a personalidade dos vinhos. E os hectares de vinha dispõem-se desde as margens do rio Lima até terraços com exposição maioritariamente voltada a sul, sendo aquela conduzida em cordão royat unilateral, com enrelvamento e em modo de produção integrada.

Por isso, o projeto passa por afirmar o potencial da casta Loureiro, dominante na região, e que encontra neste ecossistema boas condições para se exprimir. A casta ocupa 12 hectares nas cotas mais elevadas da propriedade, a cerca de 30 metros de altitude, em terraços expostos a sul, beneficiando da frescura do oceano Atlântico.

Agora, Jorge Dias diz que a palavra de ordem é «consolidar» todos os investimentos que estão a ser realizados pelo grupo, nomeadamente a nova adega do Rodo, na Régua, e o projeto do centro de visitas da Justino’s Madeira Wine, no Funchal. Mas, deixa claro: «Estamos sempre atentos a oportunidades que surjam, desde que enquadradas na estratégia de crescimento do grupo!»

Em conversa amena com a Marketeer, Jorge Dias descreve todo o trabalho até à data, escolhas e decisões tomadas, assim como abre a cortina ao futuro.

Depois do Douro, o Grupo Granvinhos entrou nos Vinhos Verdes com um projeto de enoturismo, mantendo valores e identidade do grupo… mas é todo um novo território!
Exatamente por ser um novo território, temos de o conhecer bem antes de nos aventurarmos em qualquer projeto. Caso contrário, o valor da autenticidade, que gostamos de imprimir nos nossos projetos, poderia ser posto em causa.

E o que motivou a entrada nesta região? O seu potencial de crescimento…?
Desde logo diversificarmos o portefólio, com vinhos adaptados aos gostos dos atuais e dos novos consumidores – mais leves e frescos, sem prescindir da sua identidade e personalidade. E a região dos Vinhos Verdes e o Vale do Lima em particular conferem essa identidade e personalidade, quer no Loureiro, quer no Alvarinho. Depois, porque é uma região mais resiliente às alterações climáticas com o mar a apenas 10 km. E, por fim, porque nos abre as portas a um novo discurso à volta da dieta atlântica e diversifica a nossa oferta enoturística, até agora muito centrada num cabaz mediterrânico, como é o caso de Ventozelo.

Quais os primeiros trabalhos quando chegaram? E o que falta fazer?
O primeiro trabalho num projeto deste tipo é a operacionalização da componente vitivinícola. Conhecer as várias parcelas de vinha, corrigir o que for necessário em termos do encepamento e do solo e avaliar o respetivo potencial enológico. Foi o que fizemos nos dois primeiros anos e, na vindima de 2024, já produzimos os três vinhos que idealizámos. Ainda temos de drenar uma parcela, melhorar a biodiversidade na quinta e mitigar os impactos paisagísticos e ambientais da nova travessia do rio Lima.

Como descreveria todo o processo?
Tem sido a descoberta e aprendizagem de uma nova região, quer do ponto de vista vitícola e enológico, quer do ponto de vista cultural. Mas ainda temos muito que aprender e um longo caminho à nossa frente.

E o que ditou a escolha de alguns parceiros, nomeadamente ao nível da enologia e arquitetura?
Na enologia foi óbvio, já há mais de 30 anos que eu e o Anselmo Mendes queríamos produzir um vinho e ele já explorava esta propriedade desde 2014. Porque os projetos são sobretudo as pessoas que os fazem e as relações e as cumplicidades que se vão tecendo. Neste caso, para além da amizade que nos une, estamos com a pessoa que, em meu entender, melhor sabe exprimir o Alvarinho e o Loureiro. Que mais poderia pedir?

Na arquitetura, o Manuel Novaes Cabral apresentou-me o arquiteto Luís Pedro Silva, professor na Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto, que começou por estranhar o convite, porque estávamos sobretudo perante um programa de recuperação e adaptação de um património construído, e o arquiteto Luís Pedro Silva é mais conhecido por edifícios mais disruptivos, como o edifício ICON ou o Terminal de Cruzeiros do Porto de Leixões, distinguido com os prémios internacionais Az Award (2016) e ArchDaily (2017). Mas rapidamente estabelecemos uma relação de confiança e toda a equipa multidisciplinar que ele reuniu está entusiasmada com o projeto, que é sobretudo de organização dos espaços e atividades no património edificado da quinta.

O que se poderá esperar, dentro de um ano, em São Salvador da Torre?
Dentro de um ano espero ter vinhos tão bons ou melhores do que os de 2023 e 2024 e o projeto da adega já estabilizado. Quanto ao do enoturismo, sendo mais complexo e multidisciplinar, espero ter o programa base e o estudo prévio concluídos para avançar para os respetivos projetos.

Que expectativas em termos de vendas?
As primeiras reações do mercado são muito promissoras e, por isso, encaramos o futuro com muito otimismo. Esperamos dentro de 5 anos passar a fasquia de 100 mil garrafas nas três referências que já estamos a produzir.

E que potencial para o enoturismo?
A Quinta de São Salvador da Torre tem, desde logo, uma localização privilegiada para o enoturismo. A menos de uma hora do Porto e do aeroporto, a pouco mais de meia hora de Espanha e a apenas 10 quilómetros do mar, com autoestrada à porta, tem uma ótima centralidade relativamente a esses dois polos, que são mercados importantes. Depois, o património em si. Uma propriedade murada com mais de 400 anos, num local aprazível com o rio Lima aos pés e sob o olhar da serra de Arga, e toda a riqueza do Minho, das tradições e da gastronomia, um sítio onde as pessoas possam ser felizes.

Depois deste investimento, é por aqui que ficará a Granvinhos?
Temos de consolidar os investimentos que estamos a realizar, nomeadamente a nova adega do Rodo, na Régua, e o projeto do centro de visitas da Justino’s Madeira Wine, no Funchal. Mas estamos sempre atentos a oportunidades que surjam, desde que enquadradas na estratégia de crescimento do grupo.




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