O poder tem péssima memória

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01/11/2026
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O poder tem péssima memória

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Por Teresa Verde Pinho, Associate Creative director na TBWA\Chiat\Day New York

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Toda a gente em publicidade tem um ou outro director criativo guardado num sítio pouco saudável da memória. Uma colecção de pessoas que ainda nos estragam o banho com uma frase de 2017.

O meu favorito dizia “ainda não está lá”. Lá onde? Tínhamos passado três noites a tentar chegar a um sítio que nem constava do mapa.

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Havia também o que desaparecia durante o processo e regressava dez minutos antes do cliente, com a tranquilidade de quem tinha dormido: “Mas porque é que fomos por aqui?”

Porque tu não estavas, Ricardo. Não dizíamos isto. Gostávamos de receber o salário.

Prometíamos que, na nossa vez, seria diferente. Feedback claro. Defender a equipa. Não mudar uma campanha às onze da noite por uma epifania que podia ter ocorrido às três da tarde. Era um plano bonito. Depois veio o cargo. As reuniões, os budgets, os problemas que poupamos à equipa, os clientes que pedem coragem e depois recuam.

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Até que nos ouvimos dizer: “Ainda não está lá.”

Uma pessoa devia receber uma pequena descarga eléctrica nestes momentos. Nada de grave. Só o suficiente para recuperar a memória.

Ninguém acorda a pensar em traumatizar uma dupla júnior. Começa com um comentário apressado, uma revisão adiada, uma reunião a que faltamos. Até que a equipa aprende a contornar-nos, a adivinhar humores. E nós chamamos a isto um processo.

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Quando éramos nós a receber feedback vago, faltava direcção. Agora que somos nós a dá-lo, queremos dar espaço à equipa. Quando nos reescreviam tudo à última hora, era uma falta de respeito. Agora estamos a proteger a qualidade. Quando o nosso chefe não aparecia, estava ausente. Quando nós não aparecemos, estamos sobrecarregados. Estamos, provavelmente. Mas quem ficou à espera do nosso comentário também está.

Há uma espécie de amnésia que vem com a responsabilidade. Lembramo-nos do que sentíamos, mas nem sempre reconhecemos o mesmo sofrimento quando somos nós a causá-lo. Temos acesso às nossas intenções, ao nosso cansaço. A equipa tem acesso ao comentário que deixámos no slide 28 às 23h47.

“Conseguimos explorar mais?”

Conseguimos. Também conseguimos chorar numa casa de banho. Somos pessoas com várias competências.

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O problema é que “explorar mais” pode querer dizer tudo. Falta uma ideia? Clareza? Outro caminho?

Às vezes, quem dá o feedback também não sabe. Talvez liderar melhor comece por admitir “ainda não sei o que me incomoda, preciso de olhar melhor”, em vez de transformar essa dúvida numa tarefa para a equipa. Isso não significa exigir menos. Significa explicar porquê.

O briefing mudou? Encontrámos uma ideia melhor? Ou estamos a mudar só para deixar uma impressão digital?

Chegamos à direcção criativa porque temos boas ideias. Depois, o trabalho passa a ser ajudar outros a tê-las – e aceitar que podem ser melhores do que as nossas. Nem sempre é fácil. Às vezes, mudamos uma frase sem a melhorar, só para ficar à nossa maneira. A equipa tenta perceber o que precisava de ser corrigido. Mas talvez só precisemos de sentir que a ideia também é nossa.

É difícil saber que tipo de chefe somos quando quase todos à nossa volta têm algum motivo para ser simpáticos. O silêncio pode parecer concordância. Uma equipa que já desistiu de discutir pode parecer uma equipa alinhada.

Talvez valha a pena olhar para os pequenos sinais. As pessoas mostram-nos ideias ainda frágeis? Fazem perguntas sem pedir desculpa? Dizem-nos que não há tempo, ou cancelam logo o jantar? E nós: damos feedback a tempo, defendemos as decisões que tomámos e assumimos quando mudamos de opinião? Parece básico. Também parecia ao director criativo de quem nos queixávamos.

Talvez essas pessoas estivessem tão cansadas e assustadas como nós estamos agora. Isso ajuda-me a compreendê-las. Mas não me faz ter saudades delas. Nem torna menos necessário fazer diferente.

Podemos dizer “fui vago”, “devia ter visto ontem”, ou “aprovei este caminho, vamos resolver juntos”. A equipa não precisa de uma grande confissão. Precisa de acabar o trabalho e ir para casa.

E, antes do próximo comentário, podemos lembrar-nos de quem éramos do outro lado da mesa. Do deck que fizemos sozinhos. Do fim-de-semana que perdemos à espera de uma resposta. Daquela frase que ainda nos aparece durante o banho. Antes de a dizermos a alguém.

Artigo publicado na edição n.º 363 de Outubro de 2026




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