O desafio de manter relevante uma marca centenária

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12/03/2026
20:02
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Opinião de Francisca Oliveira, Business Development Manager na Riopele

Nascer no tempo dos reis, atravessar duas guerras, sobreviver a uma revolução e a sucessivas crises políticas e económicas, e ainda assim manter-se relevante, é algo verdadeiramente extraordinário.



Talvez por isso a longevidade centenária, nos negócios como na vida, esteja ao alcance de poucos. Não se trata de resistir ao tempo, mas de evoluir com ele.

Os números confirmam essa raridade. O relatório “Centennial Companies in Europe”, do banco suíço UBS, revelou que apenas 0,5% das empresas europeias ultrapassam os 100 anos de existência. O Japão, sustentado por um forte modelo de empresas familiares, lidera o ranking mundial, com mais de 33.000 empresas centenárias, segundo dados da Teikoku Databank. Em Portugal, dados de 2021 indicam que existiam 402 empresas com pelo menos um século de vida, cerca de 0,1% de um tecido empresarial cuja idade média é de 12,7 anos.

No caso da indústria têxtil, essa raridade é ainda mais evidente. É um setor estruturalmente exposto a ciclos económicos abruptos, pressionado por custos, volumes e margens, e inserido num mercado global onde a concorrência é cada vez mais intensa e desleal.

Por isso, o segredo da longevidade dificilmente cabe numa fórmula simples. Ao observar o legado de três gerações, aprendi que ele que se constrói na interseção entre visão estratégica, coragem para decidir, escala para competir e capacidade para antecipar.

Vivemos num ecossistema empresarial em constante mutação, o que requer visão estratégica e clareza, sobretudo no que não pode mudar quando tudo o resto muda. Há dimensões que inevitavelmente evoluem – tecnologia, matérias-primas, processos, mercados, cadeias de valor. Outras que não podem ser negociáveis: a cultura, o propósito, o compromisso com quem trabalha connosco e com quem confia nos nossos produtos.

Mas visão, por si só, não garante futuro. Em determinados momentos, é preciso coragem para investir quando o contexto recomenda prudência, ou abandonar modelos que deixaram de responder às necessidades do mercado. A continuidade constrói-se nessas decisões.

A escala também conta. Dá capacidade para suportar ciclos económicos adversos, fintar crises e financiar inovação. As crises podem ser muitas e complexas, mas a diferença está na orientação para a continuidade e na capacidade de adaptação.

Há ainda um desafio silencioso: impedir que o passado se torne mais pesado do que o futuro. A herança confere legitimidade, mas pode prender a marca ao passado. É essencial traduzir os seus valores fundadores para novas gerações: em novas linguagens, novos formatos e novos contextos. Porque a relevância não é um direito adquirido, é uma responsabilidade que se constrói todos os dias.




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