Opinião de Ana Félix, Senior Designer & Project Lead da Shift
Há uma ideia muito convencional de que o Carnaval é o oposto da disciplina criativa. Um excesso sem método. Um momento de caos permitido antes de voltarmos a ser adultos funcionais, organizados e sérios. Discordo! Sou designer, lidero projetos criativos e vivo de ideias e decisões. Mas também sou, desde sempre, apaixonada pelo Carnaval. Todos os anos brinco, mascaro-me, penso no conceito, escolho materiais e construo narrativas. Levo isto tão a sério como levo a minha profissão e não acho que me faça perder credibilidade. Aliás, muito pelo contrário.
O Carnaval é um dos exercícios criativos mais honestos que existe. Não há briefings fechados ou limitados, nem clientes a aprovar. Há intenção, identidade e vontade de experimentar sem medo de errar, o que, para quem trabalha em design, é ouro. Quando escolho uma máscara, estou a fazer exatamente o que faço no meu dia a dia profissional: contar uma história, resolver problemas, criar impacto. Posso estar constrangida por questões técnicas ou de orçamento, mas tenho de me sentir confortável na pele da personagem do meu imaginário que escolho para esta ocasião e que acredito que vá captar a atenção de quem me vir desfilar nas ruas.
Tratamos a criatividade como um fator que só é válido quando vem acompanhado de método, ordem e discurso sério. E tratamos o Carnaval como algo fútil, infantil e descartável. Como se brincar fosse o oposto de pensar, mas não, não é. A criatividade nasce do jogo, do exagero, da coragem de sair da personagem e de quando nos libertamos do medo do ridículo. E o Carnaval é, historicamente, o espaço onde isso é permitido.
Grande parte das melhores ideias não surgem em reuniões nem em apresentações bem alinhadas. Surgem quando estamos atentos, curiosos e a aproveitar momentos, na rua, com cores, com pessoas e a observar os contrastes. Sim, é exatamente no meio do que parece uma confusão. No Carnaval, eu não desligo o meu cérebro criativo. Eu liberto-o.
Talvez devêssemos olhar para esta época como aquilo que realmente é: um laboratório criativo a céu aberto. E talvez pudéssemos levar um pouco mais do Carnaval para os nossos projetos, para os nossos processos e para a forma como pensamos o design. Eu vou, sem dúvida, continuar a liderar projetos criativos durante o ano e a mascarar-me no Carnaval como se fosse o briefing mais importante da minha vida. Porque, no final de contas, é tudo criatividade. Só muda o palco.














