No novobanco, o ESG fundamenta a estratégia e orienta decisões que apoiam a transição dos clientes, reduzem a pegada operacional e reforçam a governação, contando com o compromisso e envolvimento dos colaboradores.
No novobanco, a sustentabilidade é entendida como um eixo transversal à estratégia e às decisões de negócio, orientando a forma como o banco apoia a transição dos seus clientes, gere riscos e cria impacto económico, ambiental e social. Nesta entrevista, Patrícia Afonso Fonseca, administradora e Chief Legal, Compliance and Sustainability Officer do novobanco, fala dos principais desafios, metas e instrumentos que estruturam essa ambição, desde o financiamento verde e a governação responsável até ao envolvimento de colaboradores, clientes e comunidades. O novobanco quer ser um parceiro activo e comprometido com a descarbonização, além de um agente de impacto social, com foco na inclusão e literacia financeira.
Na vossa estratégia de sustentabilidade, quais os eixos mais desafiantes?
No novobanco, entendemos a sustentabilidade como um eixo que atravessa toda a nossa estratégia e cada decisão que tomamos procura apoiar a transição dos nossos clientes, reduzir a pegada das nossas operações e reforçar as nossas iniciativas de governance. Em 2024, fomos o primeiro banco português a ter metas de redução de emissões validadas pela Science Based Targets initiative (SBTi), alinhadas com a ciência climática. Neste ponto, um dos maiores desafios continua a ser a execução desta estratégia na abordagem comercial aos nossos clientes empresariais de diversos sectores: diferentes ritmos e pontos de partida exigem soluções personalizadas, dados fiáveis, uma articulação com parceiros técnicos e a medição do progresso e alinhamento e satisfação dos clientes com a abordagem implementada.
Colocar o cliente no centro do que fazemos, alinhando cada decisão comercial com desempenho sustentável, exige equilibrar valor, simplicidade e inclusão com rigor dos factores ESG na gestão de risco. Na prática, isto significa garantir que entendemos os diferentes desafios dos nossos clientes e criamos propostas de valor que apoiam a sua transição energética, seja através de produtos de crédito especializados, da execução de parcerias com especialistas, ou através do desenvolvimento e promoção de iniciativas de literacia, partilha de conhecimento e boas práticas nos principais desafios ESG que as empresas enfrentam.
Mas o sucesso dos nossos objectivos de negócio e de um modelo centrado no cliente só é possível com pessoas capacitadas e motivadas, no âmbito de uma cultura que promove a inovação, a colaboração e a diversidade como alavancas para o negócio. Por isso, temos planos ambiciosos de transformação cultural, engagement e diversidade e inclusão com os quais queremos assegurar que atraímos e retemos o melhor talento.
O banco lançou um Green Bond Framework para apoiar financiamentos em energias renováveis e edifícios sustentáveis. Como garantir que estes fundos são canalizados para impacto ambiental real?
Desde 2023 que temos uma política de classificação de financiamentos e investimentos verdes que orienta a forma como, junto dos nossos clientes, promovemos um negócio que contribua para a transição energética da indústria e da economia em geral. Este quadro de classificação engloba um conjunto alargado de actividades consideradas verdes em alinhamento com os critérios identificados pela regulamentação da Europa – Taxonomia Europeia – e pelos mecanismos de financiamento e investimento europeus e nacionais, entre os quais o Banco Europeu de Investimento. A finalidade de utilização dos fundos que emprestamos é contratualmente formalizada com o cliente e, caso aplicável, os ganhos de eficiência energética ou intensidade carbónica são monitorizados ao longo do crédito.
O nosso Green Bond Framework foi construído tendo por base este modelo de controlo que já estava implementado, focando-se em duas categorias – energias renováveis e edifícios sustentáveis. Ao modelo de controlo interno implementado, acrescentamos o compromisso de emitir relatórios anuais de alocação de fundos auditados, para reforçar a confiança dos investidores e garantir que gera impacto ambiental real.
Que iniciativas têm para incentivar o financiamento verde e a adopção de práticas que reduzam o impacto ambiental?
Em 2024, concedemos mais de 700 milhões de euros em financiamento verde a empresas nacionais e, até Outubro de 2025, já ultrapassámos os mil milhões de euros. Para isso, desenvolvemos a capacidade para estruturar emissões de dívida dos nossos clientes, disponibilizamos produtos de crédito de médio e longo prazo dedicados, bem como soluções de curto prazo, como o confirming. Ajustamos também as condições de financiamento para investimentos verdes e promovemos parcerias especializadas e até tecnológicas com empresas que podem apoiar os nossos clientes na sua jornada de transição.
No apoio às PME, que mecanismos disponibilizam e quais os sectores que consideram prioritários para essa transição?
Além de soluções de financiamento verde adaptadas às suas necessidades, em que sectores como imobiliário eficiente ou as indústrias intensivas em carbono são prioritários, disponibilizamos programas de literacia e partilha de conhecimento. Desde 2022, centenas de empresas participaram em acções de literacia ESG promovidas pelo novobanco. Apoiamos a formação das equipas de gestão das PME portuguesas, oferecendo a 450 empresas clientes do novobanco a oportunidade de aceder ao Voice Leadership, um programa de formação certificada em gestão, da Nova School of Business and Economics.
Reconhecendo o desafio que representa para as PME nacionais a identificação, monitorização e relato dos riscos ESG a que estão sujeitas e a forma como os endereçam e desenvolvem os seus planos de transição, o novobanco aderiu à plataforma SIBS ESG, que permite às empresas portuguesas reportarem, de forma centralizada, as informações de sustentabilidade de que os bancos necessitam para assegurarem as suas obrigações de reporte, bem como avaliarem os riscos a que estão sujeitas. Esta plataforma, além de permitir que as empresas reportem uma única vez os seus dados ESG – podendo escolher com que bancos os querem partilhar –, apoia as empresas a identificar os riscos a que estão sujeitas, bem como a calcular a sua pegada carbónica, sem custos associados.
Num artigo, o administrador do banco afirmou que «só financiamos projectos que sejam mesmo sustentáveis». Qual o processo de due diligence ESG que implementam antes de financiar um projecto e como evitam o efeito greenwashing?
Financiar um projecto sustentável significa que se um projecto não for viável financeiramente também não o será do ponto de vista ambiental. Esta preocupação traduz-se num processo rigoroso de análise de riscos ESG, que é realizada em conjunto com a análise e decisão da concessão de crédito. Avaliamos riscos físicos e de transição do projecto, avaliamos a maturidade ESG e os planos adicionais de investimento e transformação energética da empresa. Para evitar o efeito greenwashing, aplicamos políticas de exclusão, exigimos evidências mensuráveis e monitorizamos o desempenho dos projectos verdes financiados.
Prevêem uma redução de 50% nas emissões próprias (âmbito 1 e 2) até 2030 e a electricidade 100% de fontes renováveis até 2026. Que etapas já foram implementadas e quais os obstáculos mais significativos?
Este compromisso foi assumido tendo subjacente critérios científicos da iniciativa Science Based Targets e, desde 2021, implementámos uma série de iniciativas que já nos permitiram atingir estas metas. Até 2024 reduzimos as nossas emissões próprias em 58% e entre as medidas que nos permitiram atingir as metas, destaco: a electrificação da frota automóvel, substituindo veículos a combustão por eléctricos e híbridos; aquisição de energia 100% renovável para todos os edifícios do banco; instalação de painéis solares e carregadores para veículos eléctricos e/ou híbridos na nossa sede; optimização dos consumos energéticos através de sistemas inteligentes de gestão e monitorização.
De que forma envolvem clientes e comunidades na definição das prioridades de impacto social?
No novobanco, envolvemos clientes, colaboradores, investidores, fornecedores e comunidades através de uma abordagem colaborativa e contínua, num processo que assenta em três pilares: auscultação estruturada, através de avaliações e consultas regulares para compreender expectativas e prioridades; mecanismos de participação através de diversos canais de diálogo e interacções recorrentes com clientes e parceiros, complementadas por estudos específicos e benchmarking; definição de prioridades depois da auscultação, para identificar os impactos, riscos e oportunidades da nossa actuação ESG, assegurando que as decisões reflectem as necessidades e expectativas dos stakeholders. Entre as nossas iniciativas de impacto social, destacamos o protocolo celebrado com a APAV, que reforça o nosso compromisso com a protecção e apoio a vítimas de crime, promovendo uma sociedade mais justa e inclusiva. Esta inciativa visa contribuir para o bem-estar da comunidade.
No âmbito social, o banco refere-se ao bem-estar dos colaboradores, à igualdade de género e à inclusão. Que iniciativas internas têm tido impacto na cultura organizacional?
Uma equipa motivada é a base para um banco mais forte. Implementámos programas de bem-estar físico e mental, políticas de flexibilidade laboral e acções para promover igualdade e diversidade. Estas iniciativas são já visíveis na satisfação dos nossos colaboradores no aumento de 7 p.p. na taxa de engagement de colaboradores. Para garantir coerência e ambição na actuação, criámos dois fóruns estratégicos – o Steering de Sustentabilidade e o Steering de Diversidade –, que asseguram um acompanhamento próximo e rigoroso por parte da administração do banco destas temáticas, complementando o trabalho desenvolvido pelo Comité de Capital Humano. Nestes fóruns, acompanhamos a evolução das metas que definimos, como a promoção da representatividade feminina em cargos de liderança e a implementação de práticas que fomentam a diversidade e inclusão.
A literacia digital e financeira é um dos vossos eixos de actuação. Que desafios encontra na promoção da inclusão digital e financeira em regiões menos desenvolvidas e envelhecidas?
A literacia digital e financeira é o eixo principal da nossa estratégia de impacto social, pois reconhecemos que estamos numa posição ímpar para contribuir positivamente nas comunidades que servimos. Não só estamos presentes em todo o território nacional, incluindo nas regiões com menor densidade populacional, como temos conhecimentos especializados na área financeira e digital que podemos e devemos usar em benefício das comunidades locais. Os principais desafios prendem-se com as barreiras de acesso à tecnologia e digitalização junto de populações mais envelhecidas e o baixo nível de literacia financeira e digital, principalmente nos grupos com menores condições socioeconómicas. Por isso, apostamos em soluções acessíveis, programas de formação adaptados e iniciativas de sensibilização em parceria com organizações sociais, para contribuir para uma sociedade mais preparada e resiliente.
O relatório de sustentabilidade do banco destaca o conceito de “dividendo social”, como forma de comunicar os seus objectivos de sustentabilidade e acompanhar a sua evolução. Como comunicam estes resultados aos stakeholders e que feedback têm recebido?
O conceito de “dividendo social” é a nossa forma de comunicar resultados e progresso. Publicamos relatórios anuais com verificação independente e partilhamos a evolução dos indicadores- chave trimestralmente com os stakeholders. O feedback, em particular de investidores, tem sido muito positivo, reforçando a importância da transparência e da prestação de informação financeira e não financeira.
Quais as maiores preocupações em áreas como a cibersegurança e o impacto da inteligência artificial?
A cibersegurança e a protecção e privacidade de dados são, provavelmente, os temas mais cruciais para manter e reforçar a confiança dos clientes e, dessa forma, aumentar o seu nível de satisfação e envolvimento com o banco. São temas prioritários e por isso investimos continuamente em tecnologia e processos que nos permitam robustecer a segurança das nossas operações e a adaptação contínua às novas ameaças, assim como na publicação regular de conteúdos e alertas sobre novas formas de fraude online, sensibilizando para uma utilização segura dos meios digitais.
Num contexto de crescente exigência regulatória em ESG, como vêem a importância de um reporte padronizado e como se preparam para esse cenário?
A padronização é fundamental para reforçar a confiança no sector financeiro e garantir uma avaliação consistente do desempenho das instituições. Desde 2021, temos vindo a transformar os nossos processos internos, sistemas de recolha de dados ESG e formação das equipas, garantindo que o reporte é rigoroso, auditável e comparável.
Mas reconhecemos um desafio significativo na recolha de dados dos nossos clientes que, em muitos casos, são pequenas ou médias empresas e até particulares que não têm capacidade instalada para assegurar estes reportes. O pacote Omnibus, publicado em 2025, veio endereçar esta necessidade de simplificação, atrasando a obrigatoriedade de relato para a maior parte das empresas, embora continue a ser uma expectativa do regulador bancário. Temos expectativa de que esta simplificação ajude à competitividade das empresas europeias e que, em paralelo, permita aos bancos acesso aos dados essenciais dos seus clientes para fazer uma correcta avaliação dos riscos.
Para os próximos anos, que meta considera a mais ambiciosa – e porquê – no âmbito da sustentabilidade do banco?
Os objectivos de sustentabilidade são bastante ambiciosos e desafiantes. Mas a meta mais ambiciosa é comum à economia como um todo: atingir a neutralidade carbónica! Para contribuir para esse objectivo colectivo temos que concluir a integração de critérios ESG em toda a cadeia de valor. Exige uma transformação profunda, inovação e colaboração entre todos: banco, clientes, fornecedores e comunidades. Exige mobilização e mudança de mentalidade. Não é apenas uma meta, é a forma de garantir que o futuro é sustentável para todos.
Este artigo faz parte do Caderno Especial “Sustentabilidade e Responsabilidade Social”, publicado na edição de Dezembro (n.º 353) da Marketeer.














