Desde sempre que a Herdade da Malhadinha Nova, Beja, tem ligações fortes à Arte. Seja nos rótulos das suas garrafas, nas peças de design presentes em diferentes espaços da propriedade, nos traços de arquitecto ou em eventos pontuais.
Por Mª João Vieira Pinto
A CEO, Rita Soares, deu corpo a uma programação artística – sem calendário nem agenda, como a própria diz -, que inclui exposições, residências e colaborações com artistas nacionais e internacionais. «Não existe luz sem cultura, e queremos partilhar a luz que temos através das nossas instalações, da qualidade de tudo aquilo que servimos, seja no vinho, na gastronomia ou na hospitalidade. A Arte faz parte da luz», partilha com a Marketeer.
Este mês, foi tempo de dar corpo a Grace, uma exposição assinada pela artista belga Eva Claessens, que a família Soares conheceu num jantar e entendeu fazer sentido trazer até ao Alentejo, numa celebração entre arte e território.
Eva criou uma série de obras inéditas em mármore branco e bronze, materiais que dialogam com a luz natural do Alentejo e com a textura da paisagem. Além das esculturas, apresentou algumas pinturas de grande escala, também baseadas nesses desenhos iniciais. A instalação foi montada numa estrutura desenhada por Manuel Aires Mateus, anteriormente usada para um concerto e, desta vez, transformada num anfiteatro natural.
Após o evento, as peças foram transferidas para a adega da Malhadinha, onde permanecerão durante três meses.
Acompanhe a conversa com Rita Soares no âmbito da instalação.
A Herdade da Malhadinha Nova teve, desde sempre, uma ligação à arte. Seja nos rótulos ou nas peças que decoram os quartos e espaços comuns. Mas desde há dois anos que têm vindo a investir em eventos anuais de outra dimensão. É a consolidação de todo um trabalho?
Perguntaram-me, há uns tempos, se fomos nós que escolhemos a Malhadinha ou se foi a Malhadinha que nos escolheu a nós. Na verdade, muitas vezes sentimos que este espaço tem uma energia tão especial, que talvez seja uma missão sabermos cuidar dele, trazer-lhe uma nova vida e deixar isso para o futuro. Mas sinto que, isso, tem que ser com raízes bem profundas e bem estruturadas. O nosso trabalho só fica completo se deixarmos um legado bem organizado, bem realizado, para os nossos filhos, e para podermos ser um exemplo para outros, para as futuras gerações. O que acreditamos é que toda essa estrutura tem que ser naturalmente ancorada na Arte. Talvez estas duas iniciativas formais que aconteceram o ano passado e este ano, num determinado espaço da Malhadinha, ajudem na consolidação, mas a verdade é que desde o início da Malhadinha que organizamos concertos… já tivemos o António Zambujo, António Vitorino de Almeida ao piano!
Além de toda a arte nos rótulos, nas casas…
Exactamente. O património de design que temos nas nossas casas é imenso. Um dos projectos que quero muito fazer é uma edição, um livro, que possa explicar o porquê da escolha de uma determinada peça, como o sofá da Noguchi, que está à entrada da recepção. Porquê que foi escolhido para ali e qual é a sua ligação com a natureza? Porque o Noguchi também se inspirou no seixo da Ribeira.
Muitas peças foram escolhidas com um sentido, com um sentido da relação com a natureza, e com um sentido de a deixar a perdurar no tempo.
Preocupa-nos o que vamos deixar e a forma como o vamos deixar, como trazemos uma nova vida e um espaço que tinha condições naturais incríveis, mas que estava abandonada há mais de 30 anos. Como é que o podemos melhorar para que possa ficar mais 100 ou 200 anos com esta nova energia.
Nesse contexto, momentos como concertos ou exposições são para manter e continuar!
Sim, mas não têm que responder a um calendário. Terão mais que ver com as relações que vamos tendo ao longo da nossa vida. A Eva foi uma pessoa que conhecemos, gostei muito do seu trabalho e quis partilhá-lo. Lancei-lhe o desafio e ela aceitou. Podia contratar uma curadoria, mas preferimos que as coisas sejam mais orgânicas, mais naturais. Que sejam diferentes e originais e que sejam, de alguma forma, irrepetíveis! O mais importante, e já o referimos muitas vezes na nossa comunicação, é o espaço e o tempo. É o tempo que queremos que aqui seja menos rápido e menos agressivo, e que pode andar um pouco ao sabor da ocasião, do que vai acontecendo.
A Malhadinha é uma marca forte na hotelaria. A ideia é que seja também cada vez mais um pólo de artes e conhecida pelo seu trabalho com as artes?
Cada vez mais acreditamos nisso, nessa realidade, de forma a ancorar o projecto e projectá-lo para o futuro. Não existe luz sem cultura, e queremos partilhar a luz que temos através das nossas instalações, da qualidade de tudo aquilo que servimos, seja no vinho, na gastronomia ou na hospitalidade. A Arte faz parte da luz.
Como é que definem os momentos mais públicos? Só através das teias de relações?
O que tem acontecido é que os momentos é que nos têm escolhido a nós. Se a pergunta é se existe neste momento um calendário para os próximos dois, três anos, não há. Não queremos toda a gente aqui, não queremos eventos grandes, mas momentos especiais, trazer cá pessoas muito especiais. Essa é, verdadeiramente, a essência da Malhadinha. Por isso, claro que vai continuar, mas sem um calendário definido. Têm que ser coisas que tenham muito que ver com o nosso espaço, com a nossa forma de estar, e não é um calendário de coisas só porque sim.
Dizem que não querem ter toda a gente na Malhadinha. Não vou perguntar quem é que não querem ter, mas quem é que querem ter?
Não queremos toda a gente cá, principalmente aquelas pessoas que não entendem aquilo que é o luxo da Malhadinha. Não vão faltar projectos para o futuro. Acreditamos que até aos 100 anos conseguimos ter ideias.
NOTA
E a rentabilidade da Malhadinha é…?
Facturámos 3 milhões e meio em turismo, 3 milhões e meio em vinhos. Está muito equilibrado.














