A Chanel está a ser processada nos Estados Unidos por alegada infração de patente associada à sua ferramenta de experimentação virtual de maquilhagem, a Virtually Try-On. A ação legal foi movida pela empresa californiana Zugara, especializada em soluções de realidade aumentada, que acusa a marca francesa de luxo de utilizar indevidamente uma tecnologia patenteada relacionada com o reconhecimento facial em tempo real.
A queixa, identificada pela The Fashion Law, foi apresentada a 22 de julho num tribunal do estado do Texas. A Zugara que já desenvolveu soluções de RA para marcas como Nestlé, Pepsi, Toyota, AT&T e até para a Força Aérea dos EUA, alega que a Chanel incorporou, sem autorização, a sua tecnologia de rastreamento facial, que permite detetar e seguir os movimentos dos olhos, lábios e outras partes do rosto para aplicar maquilhagem virtual com elevada precisão.
Segundo a empresa tecnológica, o sistema da Chanel reproduz etapas chave da sua patente, violando assim os seus direitos de propriedade intelectual. Esta não é a primeira vez que a Zugara entra em litígio com marcas do sector da cosmética: um processo semelhante contra a Estée Lauder foi recentemente resolvido fora dos tribunais.
A funcionalidade Virtually Try-On da Chanel tem sido uma das apostas da marca no universo digital, permitindo que os consumidores experimentem diferentes gamas de maquilhagem, incluindo produtos inspirados no desfile Croisière 2025, looks com efeitos sunset ou até sugestões personalizadas pelo utilizador, através de dispositivos móveis ou webcams. A solução digital é posicionada como uma experiência de conveniência e inovação, muito alinhada com as tendências do consumo online.
Mas este caso levanta mais uma vez questões sobre a utilização e os limites legais da realidade aumentada (RA), tecnologia que sobrepõe elementos digitais a imagens do mundo real, e que difere da realidade virtual, que cria ambientes totalmente fictícios. A crescente integração da RA em sectores como o retalho de moda, beleza e acessórios tem motivado a proliferação de litígios sobre propriedade intelectual e, cada vez mais, sobre privacidade de dados.
Nos EUA, empresas como a Charlotte Tilbury Beauty, e.l.f. Beauty, Mary Kay e Ulta já enfrentaram acusações por alegada recolha de dados biométricos sem o devido consentimento dos utilizadores, o que pode configurar violação das leis de privacidade em estados como o Illinois, que impõe normas rigorosas sobre o tratamento desse tipo de informação.
Com gigantes tecnológicos como a Apple e a Meta a investirem fortemente em óculos de realidade aumentada e novas experiências imersivas, os especialistas apontam que as questões legais, especialmente relacionadas com dados sensíveis e biometria, vão tornar-se cada vez mais relevantes no debate sobre inovação digital.
Num momento em que marcas de luxo como a Chanel apostam em experiências virtuais sofisticadas para se aproximarem de novos públicos, este caso mostra que a fronteira entre inovação e infração continua a ser ténue e que a adoção de novas tecnologias exigirá, cada vez mais, um equilíbrio entre experiência do consumidor, propriedade intelectual e regulação de dados.














