Há vinhos extremos no alto douro

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Entre o planalto beirão e os vales do alto douro, estão a ser produzidos vinhos que se querem afirmar pela diferença: colinas do douro e quinta da extrema

Sim, criar um novo projecto de vinhos no Alto Douro, diferenciador, ainda é possível. E a prová-lo está a Colinas do Douro, uma marca que começou a ser desenhada e lavrada em 2010, ano em que o luso-angolano Kelson Giovetti compra um conjunto de cinco quintas, propriedade da CARM de Celso Reboredo Madeira. Mas foi a equipa contratada e reunida anos mais tarde que haveria de vir a semear a estratégia, a começar a dar fru- tos (ou uvas). Kelson Giovetti começou por ir buscar Diogo Mexia, engenheiro agrónomo e proprietário de uma herdade no Alentejo, para director-geral, Jorge Rosa Santos, para a direcção de produção e enologia, Rui Lopes, para coordenador de enologia, e Duarte Sequeira, como coordenador de viticultura. E, além da compra do terreno, investiu três milhões de euros na plantação das vinhas, que respondem já por uma produção anual de cerca de 300 mil garrafas – a primeira colheita é de 2017 -, sendo que o objectivo é chegar a um milhão, em 2020. Isto, de vinhos cujas uvas são provenientes de uma altitude superior a 600 metros, de terrenos em granito, com a Leda ao lado.

«Teremos ainda adquirido cerca de quatro ou cinco hectares de vinha velha, com uns 40 anos, plantadas por Celso Madeira», conta Diogo Mexia, lembrando que a plantação de 50 hectares se inicia logo em 2010, a que soma novo plantio de mais 50, perto de dois anos depois. «Foi uma operação faraónica, porque plantar 50 hectares naqueles terrenos fez esgotar todo o parque de máquinas», recorda Diogo enquanto, ao lado de Jorge Rosa Santos, vai apresentando com orgulho alguns dos melhores exemplares entretanto produzidos, entre brancos e tintos.

Ele, que foi desafiado em 2014 para tomar conta da empresa. «Foi um desafio», confessa. Sabia que percebia de vinha, mas não tinha ideia que o custo de produção era o dobro, apesar de o seu preço final de venda ao público não ser a duplicar. O que obriga desde logo a um maior rigor orçamental.

Por isso, uma das primeiras decisões que tomou foi, precisamente, a de ir buscar Jorge Rosa Santos para se ocupar dos vinhos. A que juntou Rui Lopes e Duarte Sequeira. Depois da equipa estruturada, foi arrumar a casa, traduzido em numerar e dimensionar talhões de qualquer coisa como 106 hectares de vinha. «Era preciso fazer esse cadastro para poder trabalhar individualmente», garante.

A partir daí foram entender os comportamentos das diferentes castas e terrenos. «O projecto precisava de nova visão em termos de gestão e de vinhos. Tinha que criar marcas», revela, enquanto garante que o Colinas do Douro branco servido está conforme. É então criada a marca Colinas do Douro, com imagem assinada pela designer Rita Rivotti.

«O que fizemos nos últimos três anos foi montar uma equipa. Hoje somos mais de 15 pessoas. Na adega são três e na vinha não precisamos de mão-de-obra externa a não ser nas vindimas. Já chegámos a ter 86 pessoas a vindimar.»

Criar marcas

Voltando aos talhões, depois de identificados foi preciso entender como tudo se organizava, tendo sido percebido que não fazia sentido trabalhar o projecto Colinas do Douro sem olhar para as outras adegas. Começa então a ser desenhada a nova marca – Quinta da Extrema –, que vai buscar o nome a uma das quintas, para diferenciar gamas e criar uma acima dos 10 euros, que representasse o melhor que se pode fazer naquela zona.

E se Colinas do Douro tem estado a apostar mais em monocastas como Verdelho 2015 e Rabigato 2016, já o projecto da Extrema tem outro posicionamento, que se atravessa em diferentes fases e momentos da sua vida. «Esta quinta tem condições diferentes das demais para se poder fazer vinhos únicos», confirma Jorge Rosa dos Santos, sublinhando quão notória é a transição geológica.

E o que é que há hoje? Os vinhos Colinas do Douro são feitos com uvas provenientes de qualquer uma das quatro quintas – e por isso tudo o que é Colinas do Douro está num patamar de preço entre os cinco e os 10,99 euros – enquanto os da Quinta da Extrema começam nos 14,50 e chegam aos 40 euros, sendo as uvas provenientes apenas e só da quinta que lhe dá nome, situada no Extremo Sudeste da Região Demarcada do Douro. No total, a empresa está a produzir 180 mil garrafas, sendo que a Quinta da Extrema começa com os Reserva e tem a produção limitada a 20 mil unidades (somando todas as referências).

Ou seja, perfil, posicionamento, preço e comunicação são completamente distintos entre as duas, assim como a própria distribuição, com a Extrema mais limitada a vendas no El Corte Inglés e em alguns supermercados locais, enquanto o Colinas do Douro se estende à grande distribuição.

Trabalho paralelo tem sido o de esforço para a exportação – este é o terceiro ano de vendas para o exterior -, que responde por 30% das vendas, com a Noruega a destacar- -se enquanto mercado principal da Quinta da Extrema, seguido da China, que procura Colinas. Outros mercados que já provam e compram os vinhos produzidos nestas quintas do Douro Superior são o Brasil e Reino Unido. «É um projecto recente, temos que ir devagar», destaca Diogo, que vai lembrando que a quinta permite fazer um milhão de garrafas, e é para isso que está dimensionada. «A breve, e assim que a adega estiver pronta, chegaremos às 800 mil garrafas», atesta com orgulho. Sim, está em curso a construção de uma adega com 3500 m2 de área, num valor de investimento de 5,5 milhões de euros, até porque de momento todos os vinhos são vinificados na Quinta da Cova da Barca (uma das quintas emblemáticas do Douro, da Companhia das Quintas), estando esta arrendada por três ou quatro anos, ou o tempo que a adega própria demorar a ser construída. E adega esta que leva assinatura do Pritzer Eduardo Souto Moura e de Ricardo Rosa Santos, num novo cunho, que ajudará a valorizar a marca e todo o projecto.

«Inicialmente, houve algumas dificuldades, até porque a adega está a ser construída no meio das vinhas e tudo teve que ser feito de dentro para fora. Está toda integrada no ambiente da quinta, tem sete metros de altura, mas três metros e meio serão enterrados. Terá um só piso e uma única janela e toda a tecnologia ou elementos, como as passadeiras, estão a ser desenhados ao pormenor, até para ser tudo o mais automatizado possível», vai expondo Jorge, com o brilho de criança que espera pelo brinquedo novo.

Com capacidade para chegar a 1,5-1,8 milhões de litros armazenados e receber 800 toneladas de uva, terá três pavilhões que se unem num vértice e que no meio confluem para uma praça central. «No vértice de um dos três pólos, o da vinificação, foi desenvolvida uma adega premium só de cimento, que ajudará a abrir outra dimensão na segmentação dos vinhos», conta o enólogo, enquanto vai levantando mais um pouco do véu e apresentando o seu Colinas do Douro Reserva branco 2017, com Gouveio, Viosinho e Rabi – gato, e que estagiou cerca de oito meses em barricas velhas trazidas da Borgonha.

O trabalho foi feito de cumplicidade entre a equipa de Arquitectura e a de Enologia, tendo ainda sido contratada uma empresa que assegurou o projecto técnico da parte dos vinhos. No fundo, uma equipa multidisciplinar, que casou ideias até ao projecto final e permitiu mesmo reduzir a área de construção em mais de 1000 metros quadrados.

Quando concluída, o exterior será em betão à vista – o que implicou mais de meio ano de testes até se chegar à textura e aparência ideal -, com cobertura de zinco enferrujado, que permite a camuflagem na paisagem.

Afirmar um statement

E porquê só comunicar agora a marca, Diogo? «Porque só agora é que temos capacidade para apresentar toda a gama e fazer algum ruído. Queremos passar a mensagem de que vinhos do Alto Douro têm mais-valia face aos do Baixo Corgo.»

Os próximos lançamentos virão em jei – to de um Syrah Quinta da Extrema 2016, um espumante e um colheita tardia. Queremos que os nossos vinhos fiquem mais assentes na trilogia frescura, leveza e acidez, pelo que o colheita tardia e espumante, a lançar em Novembro, serão statement do que por ali se faz, devido ao terroir.

Assim como será engarrafado vinho que irá inaugurar a adega numa edição muito especial de 1600 garrafas. «Neste momento acreditamos que o portefólio está bem definido», sublinham os dois, já rendidos ao entretanto servido Extrema Reserva 2016 tinto do Douro Superior, resultado de uma vindima mais fresca, que lhe confere grande acidez no final. «Quando tiver cerca de 500 mil garrafas, no próximo ano, o trabalho será de consolidação da marca, nomeadamente com a apre – sentação do produto e jantares vínicos.

Completámos o nosso primeiro ciclo de vinhos e de projecto. Temos os nossos primeiros topos de gama, já somos adultos em termos comerciais. Isso comporta alterações ao nível da instituição em si, como muitas viagens ao exterior para definição dos mercados.»

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