“Flor de Sal é uma marca que comunica qualidade antes de se provar”, Duarte Leal da Costa, Ervideira

Entrevista
Sandra M. Pinto
09/10/2025
10:40
Entrevista
Sandra M. Pinto
09/10/2025
10:40


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Num ano marcado por desafios no setor vitivinícola, com a quebra global do consumo de vinho a preocupar produtores em todo o mundo, a Ervideira segue em contraciclo. A marca alentejana, com raízes familiares profundas e uma filosofia assente na inovação, autenticidade e qualidade, registou um crescimento notável, com destaque para a Flor de Sal, que duplicou as suas vendas em 2025.

Por Sandra M. Pinto

Nesta entrevista, conduzimos uma conversa aberta e esclarecedora com Duarte Leal da Costa, Diretor Executivo da Ervideira, onde se abordam as razões por detrás deste sucesso, o impacto do enoturismo, a relação com os mercados internacionais, a visão da marca sobre os desafios da grande distribuição e a importância de comunicar o vinho como mais do que uma bebida: como cultura, história e emoção. Com um tom direto e sem rodeios, Duarte Leal da Costa partilha também a sua visão sobre a perda de relevância do vinho entre os jovens consumidores, a crescente competição das bebidas espirituosas e as estratégias da Ervideira para continuar a crescer sem abdicar da sustentabilidade nem da autenticidade que a caracteriza.

A marca Flor de Sal registou um crescimento de 100% este ano. O que explica este desempenho tão expressivo?
A Marca Flor de Sal tem-se consolidado, pela marca em si que ajuda a comunicar, pela sua apresentação, mas, acima de tudo, pela sua consistente qualidade. Este vinho ganhou 3 Medalhas de ouro consecutivas no Canadá, tendo entrado em força nesse mercado. Os Canadianos bloquearam as compras de vinhos dos Estados Unidos, e com isso ganhámos num mercado difícil, em que a reação preço qualidade é de extrema importância.

O enoturismo cresceu 16% num contexto de quebra global do consumo de vinho. O que tem impulsionado essa procura pela experiência Ervideira?
A resposta é simples, quem viaja em turismo, quer estar tranquilo, sem horas, viver boas experiências e, acima de tudo, ser bem recebido, com bons vinhos. E a Ervideira tem tudo isso! Os guias que nos trazem grande parte dos turistas, reconhecem o nosso bem receber, o sorriso na cara, o providenciar bons e variados vinhos, e se chegarem atrasados, tal facto não é um problema (risos). Eis a chave do sucesso!

Como é que os números alcançados nos primeiros oito meses de 2025 se comparam com os vossos objetivos para o ano? Superaram as expectativas?
Bem, na verdade, somos exigentes connosco próprios, e com isso colocamos sempre a fasquia alta, mas claro que estamos contentes, se bem que temos sempre mais ambições! (confesso que esse é um dos meus ‘defeitos’, a vontade de crescer e afirmar a marca Ervideira num patamar sempre elevado!)

Quais foram as principais estratégias adotadas para impulsionar os canais Horeca e de exportação?
A Ervideira tem apostado muito em ter novas vinhas, novas castas, nova tecnologia de adega. Agora que temos tudo isso instalado, estava na altura de crescermos em equipa e foi isso que fizemos.

Em que mercados internacionais a Ervideira está a crescer mais? Há apostas novas em termos de destinos?
Sem dúvida que no mercado do Canadá, e no Brasil.

A Flor de Sal é uma marca da quinta geração. Como é que a tradição familiar influencia as decisões estratégicas da empresa hoje?
Acima de tudo somos uma “equipa”, pois na relação de trabalho não se afigura o papel Pais/Filhos, antes sim a troca de impressões, conhecimentos e estratégias, pelo que a boa convivência entre gerações é um desafio apaixonante.

O setor do vinho enfrenta uma quebra de consumo global. O que acha que está a afastar os consumidores, sobretudo os mais jovens, do vinho?
O vinho é uma bebida mais formal e de maior compromisso que a cerveja, pelo que os mais jovens preferem, sem dúvida, a cerveja.
Poder-se-ia colocar a possibilidade de a cerveja ser mais barata, no entanto, verificamos que estes jovens acabam por beber muitas mais cervejas e, com isso, o custo não se torna mais reduzido. Em contexto noturno, as bebidas como o Gin, Vodka, Rum e Tequila tendem a ser mais apelativas, temos por isso, nós produtores de vinhos, que fazer um trabalho de motivação para o vinho, apelando sempre a um consumo com moderação.

Temos assistido à ascensão da cerveja e das bebidas espirituosas. Como é que o vinho pode voltar a ser competitivo nesses públicos?
Pois é! É importante comunicar que o vinho é alimento, é cultura, é partilha, é comunicação e que, à mesa, não se envelhece (risos). É uma comunicação mais formal, mas consideramos que o vinho, à mesa, tem outro “elan”, que alternativas como a cerveja não conseguem alcançar, destacando-se por outras características.

Fala-se muito na “guerra dos preços” no setor. Como é que a Ervideira lida com a pressão para baixar preços, mantendo a sustentabilidade?
A Ervideira está fora da chamada ‘guerra de preços’. Procuramos ser sérios e honestos, ter vinhos de qualidade superior, que quem procura esses padrões de qualidade, aceita pagar um preço justo pelos vinhos. Os salários sobem e isso é louvável. Não podemos querer que os salários subam e o preço desça, pois entraríamos em linha de suicídio, representando o fim da estabilidade dos próprios trabalhadores. Um dos fatores que prezamos muito é o “fair trade” e isso não é possível, quando alguém na cadeia perde dinheiro. (teríamos aqui muita conversa para debater sobre este tópico…).

Disse recentemente que é “impossível vender vinhos honestos abaixo dos 4 euros”. Como vê o papel da grande distribuição nesta realidade?
Disse e mantenho o que disse. O valor da terra, que tem que ser amortizado, o custo de uma plantação, todos os trabalhos desde as podas até à vindima, mais a vinificação e estágio, faz com que a rotação de dinheiro seja de três anos, com empates de capital e respetivos juros. Tecnicamente, em 4€, se retirarmos o IVA, a margem do supermercado, transportes, o que sobra para pagar toda uma garrafa de vinho? Assim, preços abaixo de 4€ no consumidor, faz com que alguém no caminho perca dinheiro, e esse é normalmente o agricultor, que vai empobrecendo lentamente. A pressão que é efetuada para baixar os preços é inaceitável!

A Ervideira diz que o vinho é mais do que uma bebida, é cultura e história. Como transmitem essa mensagem ao consumidor final?
Faz parte da nossa comunicação, explicar que para matar a sede é a água. Vinho é História, cultura, partilha, alegria, e como disse, anteriormente, à mesa, no momento de refeição e de partilha, com um copo de vinho, não se envelhece!

Como é que a vossa abordagem à autenticidade e ao terroir se reflete na forma como produzem e comunicam os vossos vinhos?
A Ervideira tem 120 ha de vinha, suficientes para abastecer os nossos vinhos. Procuramos ser produtores com garantia de origem, procuramos plantar castas diferentes em solos ou exposições diferentes e colher em ponto ideal de maturação. O transporte rápido e em frio até á adega e a dedicação de toda a equipa de adega/enologia, dá origem a um trabalho diferenciador, e é isso que os consumidores nos pedem. Quem pede um vinho Ervideira, não espera receber uma “Coca-cola”.

Com tantos desafios, o que motiva a família Leal da Costa a continuar a inovar e a apostar na qualidade?
Trabalhar nos vinhos é um entusiasmo, uma paixão, e, sem dúvida, é isso que nos motiva a trabalhar com uma dedicação inigualável. E esse entusiasmo e entrega trazem os resultados ambicionados pela nossa família.

O que podemos esperar da Ervideira para os próximos anos? Há novidades ou investimentos em vista?
Claro que há novidades em vista, e essas serão apresentadas dentro de um mês, (ainda está no segredo dos Deuses!) mas prometemos mais um produto de inovação que os consumidores vão gostar. Para os próximos anos, prometemos uma afirmação da marca no mercado.

Que papel pode ter a educação e a comunicação na aproximação do vinho às gerações mais novas?
Ui! Estou sempre a dizer que criar um filho, nada tem que ver com formar nem educar. Criar, é apenas dar alimento, roupa e teto, formar e educar é algo muito diferente por diversas razões. A comunicação do vinho tem que ser através de um consumo responsável, partilha entre amigos, momentos de conversa, momentos em que precisamos de estar uns com os outros, sem que os telefones interfiram.

A Ervideira está a pensar em lançar novos formatos, produtos ou campanhas direcionadas para um público mais jovem?
Novos formatos, em termos de capacidade não. No entanto, vamos lançar um novo vinho, o Caricatura (esta novidade já podemos revelar), que é um vinho mais moderno e mais abrangente, com carácter mais fácil de consumo, mas mantendo o perfil gastronómico. Sabemos que o consumo reduz, mas estaremos seguramente em contra linha e saberemos continuar esta linha consistente de crescimento.




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