“Feedforward geracional”

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Marketeer
15/09/2025
10:30
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Opinião de Catarina Tomaz, diretora de Marketing da VIAOUTLETS

Não se trata de ver a mudança à distância — estamos todos dentro dela. A viver, a fazer, a ser transformados. Coexistimos no mesmo tempo, no mesmo mundo, a influenciar e a ser influenciados. Estamos todos a atravessar a mesma transformação — com estilos diferentes, com ferramentas diferentes, mas com o mesmo impulso e modernidade.

 

Fala-se muito em gerações. Geração X, Y, Z… Fala-se em quem mudou o quê, quem consome como, quem trabalha de que forma, quem valoriza o quê. Há gráficos, estudos, manuais e debates sobre comportamentos geracionais como se estivéssemos a falar de espécies distintas — e não de pessoas ligadas por histórias que se tocam, se influenciam e se transformam mutuamente.

Um artigo recente, apenas para ilustrar, sobre os millennials e o consumo de vinho dizia que esta geração está a transformar o setor: bebem menos, mas melhor; compram com mais consciência; investem em vinhos raros; valorizam a origem, a experiência e o propósito.

Como geração X (1965–1980), também eu — e muitos dos que me rodeiam — partilho essas escolhas. Valorizo a autenticidade, a experiência, o contexto. Por oposição ao impessoal, ao indiferenciado, ao vazio de significado. E quando leio estudos sobre as gerações Y ou Z, revejo-me em muitas das conclusões. Serei uma X tardia ou uma millenial precoce?

Não se trata de ver a mudança à distância — estamos todos dentro dela. A viver, a fazer, a ser transformados. Coexistimos no mesmo tempo, no mesmo mundo, a influenciar e a ser influenciados. Estamos todos a atravessar a mesma transformação — com estilos diferentes, com ferramentas diferentes, mas com o mesmo impulso e modernidade.

A ideia de que cada geração vem “mudar tudo” parece-me redutora. O que muda, muitas vezes, não é o desejo — é o contexto que o permite expressar. A linguagem. A estética. A escala.

Enquanto marketeer, acredito cada vez menos em targets etários e cada vez mais em clusters, tribos e afinidades. Porque é aí que mora o que verdadeiramente nos une: o que fazemos, como pensamos, o que valorizamos. Quem está na tribo do padel? Ou na dos corredores? Ou na dos que defendem o consumo consciente? Todas as gerações. A identidade constrói-se aí — no gesto partilhado, não na idade.

Não há gerações espontâneas, nem mudanças que surjam do nada. Há continuidade, contágio, construção mútua. E é por isso que me faz sentido falar em feedforward geracional, como forma de descrever este movimento em espiral que atravessa tempos e pessoas. Ao contrário do feedback, o feedforward olha para o futuro integrando o que vivemos — e orienta a ação seguinte. Alimenta-se da troca, da escuta, da vontade de evoluir — com os outros, não à parte deles.

Estamos — ativamente, plenamente, coletivamente — num tempo de feedforward geracional. A influência não tem um ponto de partida. Circula. Contamina. Evolui. E é nesse cruzamento que a mudança acontece. Sem dono.




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