Um estúdio criativo assinado por arquitectos, que tem na experiência do espaço um dos maiores valores. É a Feeders, que, ao fim de 15 anos, está mais que pronta para voar para fora.
Há 15 anos, dois amigos, colegas de faculdade de Arquitectura, e amantes de eventos, juntaram-se numa pequena sala de um apartamento arrendado no Bairro Alto, em Lisboa, para darem forma a um sonho: terem uma empresa que casasse arquitectura com arte, música com tecnologia, técnica com emoção, que desenhasse experiências e voasse. Assim o pensaram e assim o fizeram, criando a Feeders, aquela que começou devagar entre a organização de arraiais de faculdades e a recuperação de apartamentos, mas que hoje chama a si uma carteira bem cheia de clientes, tendo já assinado projectos como os palcos (nomeadamente o principal) no NOS Alive, exposições de Bordallo II, os festejos do Sporting no Marquês de Pombal, Volvo Ocean Race ou Web Summit. E quer continuar a voar, como partilha Joaquim Silva, um dos sócios-fundadores, enquanto apresenta à Marketeer as actuais instalações da agência – já que, no próximo ano, se mudará para nova morada, em Telheiras. Para já, está-se a reorganizar, sendo que há todo um plano em cima da mesa para chegar mais longe, em particular à Arábia Saudita, e duplicar a actual facturação. «A Feeders assumiu-se como uma ferramenta para as agências e acreditamos que essa forma de operar tem potencial para acontecer também fora de portas, em expansão internacional. Temos uma vontade gigante de expandir e levar a Feeders além-fronteiras», partilha, enquanto a vai caracterizando, uma e outra vez, como uma tool dentro da toolbox das agências. E para que não restem dúvidas, diz, com a maior das certezas: «A Fedeers é um tiro de loucura!»
A Feeders nasce em 2010, quando dois amigos de longa data decidem criar uma empresa que unisse o seu know-how em arquitectura à paixão comum por eventos. É possível recordar um pouco desse trajecto, entre os primeiros clientes, as maiores dificuldades iniciais até às grandes conquistas?
São 15 anos formalizados, porque, na realidade, são muitos mais, já que eu [Joaquim] e o Duarte estivemos juntos na Associação de Estudantes da Universidade Lusíada, onde éramos estudantes de Arquitectura. Ambos fomos tendo as nossas experiências paralelas em eventos – eu na Fábrica do Braço de Prata e o Duarte enquanto estagiário no Rock in Rio –, e reuníamo-nos os dois na Associação, onde partilhávamos as nossas experiências, eu com gosto pela música e o Duarte sempre com um gosto muito grande pela parte técnica…
… mas, onde e quando é que a arquitectura entra nesta equação?
Lembro-me quase do momento zero em que começámos a planear o nosso primeiro evento. Foi para o arraial da faculdade e lembro-me de termos desenhado todo o recinto em AutoCAD, de termos feito as marcações todas, das vias de segurança… era quase inato e era, no fundo, a aplicação do nosso curso naquilo que gostávamos de fazer, os eventos. Penso que terá sido o momento embrionário daquilo que depois pusemos em prática. Acabámos o curso em 2010, numa altura mais difícil em termos económicos para Portugal, os nossos amigos iam todos trabalhar para fora, e o Duarte acabou por me desafiar a abrirmos uma empresa. Não tínhamos nada a perder e sabíamos que o pior cenário seria voltar para casa dos pais. Por isso, começámos proactivamente a fazer muitos projectos.
Qual foi o vosso primeiro cliente?
Foi a Action 4, da Desafio Global, que nos pediu para tratarmos da parte operacional de um evento da Vodafone. Foi a nossa primeira factura. Mas, entretanto, já tínhamos feito nome no meio académico. O grosso dos nossos clientes eram associações académicas – que nos pediam os planos do recinto, de evacuação… – em paralelo com clientes particulares a quem fazíamos obras de recuperação ou remodelação. Ou seja, não havia uma identidade da Feeders, só uma vontade. Até termos tido o “momento 1”, em que fomos desafiados pela Everything is New para desenvolver um projecto para a sua zona de convidados. Entregámos um projecto em que a zona não devia ter vista para o palco mas, sim, para a plateia, para que os convidados vissem a sua dimensão, sendo que a cenografia dessa zona se fundia com a do palco. O Álvaro Covões gostou da ideia, mas não havia tempo útil para a sua execução e não avançou… No final desse ano, recebemos um telefonema da Optimus a perguntar-nos se éramos a agência da Everything is New e se podíamos reunir… Claro que dissemos logo que sim. Não tínhamos praticamente portefólio, mas tínhamos experiência. Recebemos um pitch para a concepção de cinco estruturas para o festival, sendo que estavam cinco agências a concurso e as estruturas poderiam vir a ser distribuídas pelas cinco. Quando soubemos quais eram as outras agências, percebemos que não teríamos grandes hipóteses. Mas, foi isso que nos fez, por outro lado, desprender de amarras e pensar num projecto que acabou por ser muito bem concebido, que tinha um fio condutor e um foco muito grande no utilizador. Foi o nosso primeiro projecto, ter que fazer o pórtico, o palco principal, a zona de convidados, a zona de imprensa e o palco clubbing, em 2013. Ganhámos os cinco espaços!
E foi o grande momento, a partir do qual a Feeders descolou! É o momento do antes e do depois?
Sim, tivemos a felicidade enorme de termos sido postos à prova, de termos um projecto de grande envergadura e responsabilidade, e estarmos expostos a um meio que não conhecíamos.
E hoje assinam vários espaços de marcas presentes no NOS Alive… é um trabalho conjunto no sentido de ter diferenciação de espaços num mesmo festival?
É um trabalho conjunto. Hoje, a Feeders é um atelier de arquitectura focado na experiência e na criação do impacto de marca, mas queremos ser uma tool dentro da toolbox das agências. O nosso propósito é “ler” as estratégias das agências, a identidade que traçaram para o seu cliente final e converter isso em experiência. Isto significa que, enquanto arquitectos, todas as estratégias que vemos são diferentes, mas que tudo terá sempre como resultado um produto feito à medida. Somos focados na experiência, em acrescentar valor.
É um dos pontos que vos diferencia de outros players?
Sinto que o facto de termos uma estrutura pequena nos pode tornar mais ágeis. Fazemos muita questão de identificar e reter talento dentro da nossa organização. Acho que o que nos diferencia é uma questão de identidade. Trabalhamos muito a arquitectura não presa à consequência mas, sim, ao que é o imaginário do que gostávamos que acontecesse. Tiramos da equação o orçamento e pensamos em ideias para a marca. Primeiro, criamos o sonho e só depois olhamos à parte orçamental, o que é libertador. Claro que no final do dia tudo tem que ser exequível.
Outros projectos com assinatura da Feeders nos últimos anos incluem o design e produção das estruturas do evento Volvo Ocean Race (2015), o stand da EDP na Web Summit (2017), ou a construção da célebre estrutura do lince ibérico do artista urbano Bordalo II (2018). Fazendo aqui uma radiografia, quais é que terão sido os mais relevantes, tirando desta avaliação o território da música?
Há uma coisa que nos apaixona, que é a arte. Tivemos a oportunidade de desenhar estruturas para Ai Weiwei, como desenhar também a experiência de espaço e exposição para o Bordallo II. No desporto, o Sporting foi um grande parceiro que acreditou em nós, assim como o Porto, e que nos permitiram não só desenhar experiências de retalho como de eventos e estarmos presentes na celebração de um campeonato de futebol no Marquês de Pombal.
Já este mês, assinam o projecto Vamos a Macau para a Direcção de Serviços de Turismo daquela Região Administrativa. Como aconteceu e qual a relevância para o vosso portefólio e posicionamento no mercado?
Macau continua a ter uma ligação muito forte com Portugal. No pós-pandemia, Macau queria fazer uma acção de charme para mostrar a sua abertura ao mundo. Escolheu Portugal como primeiro ponto para essa acção e foi à procura de parceiros. Dentro desses parceiros lançaram um pitch, a que proactivamente respondemos com um projecto que gostaram. Tivemos o gosto de o desenvolver em 2023 e agora, dois anos depois, quiseram fazer um roadshow para comunicar a marca, toda a oferta cultural e a Feeders está, de novo, a fazer o Vamos a Macau, ainda com mais impacto.
Em que é que consistirá precisamente?
Macau vem com dois pilares principais: trazer a sua cultura e dar a conhecê-la, com muitos espectáculos na Praça do Comércio; e a sua comunicação em paralelo com a cultura portuguesa.
Internamente, há uma reorganização do negócio. Qual é e o que é que a ditou?
A Feeders assumiu-se como uma ferramenta para as agências e acreditamos que essa forma de operar tem todo o potencial para acontecer também fora de portas, em expansão internacional. Temos uma vontade gigante de expandir e levar a Feeders além-fronteiras. Há dois eixos em que estamos a trabalhar: a expansão para outros mercados, nomeadamente o Médio Oriente, e, para isso acontecer, teria de haver uma mudança estrutural, que passa por fazer crescer e capacitar a nossa estrutura criativa e de gestão de projecto. A Feeders vai-se assumir, cada vez mais, como um estúdio criativo que terá de encontrar o seu espaço no mercado.
Em 2024, diziam que o Reino Unido e, sobretudo, os EUA seriam os vossos principais mercados-alvo. Agora, é ambição internacionalizar para a Arábia Saudita. O que ditou esta mudança? E porquê a Arábia Saudita?
O projecto de crescimento requer uma curva de aprendizagem e, nessa curva, apontar para mercados maduros como EUA ou Reino Unido – em particular com todas as circunstâncias actuais que os rodeiam – tornou-se menos atractivo. Por vezes, temos que parar, olhar e tentar perceber o que é que faz sentido: entrar num mercado já maduro e onde a concorrência vai ser muito maior, ou tentar ir para um mercado menos maduro e cujo potencial de crescimento é superior, pelo que nos permite crescer com menos risco? Qualquer líder de uma empresa tentará equilibrar o risco e o benefício. Experimentámos o mercado do Reino Unido, funcionou, mas não era exactamente o que estávamos à espera. Experimentámos os EUA, mas também não era eventualmente o que estávamos à espera. Agora, estamos a experimentar o destino do Médio Oriente, que tem mercados já consolidados – como é o caso de Abu Dhabi, Qatar ou Dubai –, sendo que a Arábia Saudita vai beber dessa experiência e nós vamos tentar contribuir no que estiver ao nosso alcance. Acho que há um enorme espaço por preencher.
O objectivo é levar a Feeders ainda em 2025 para a Arábia Saudita?
Sim, ainda em 2025. Precisamos de uma presença física e essa presença pode ser trabalhada de diferentes maneiras, seja com uma estrutura nossa que se move para lá, ou tendo parceiros locais. A Feeders é uma estrutura pequena, mas ambiciosa, e temos que equilibrar a forma como conseguimos canalizar pessoas para aquele destino. As nossas idas à Arábia Saudita são cirúrgicas, com projectos na mão que nos permitam tentar criar conversão, mas sabendo também que já estamos a explorar com parceiros locais outro tipo de relações.
Que impacto é que esta entrada na Arábia Saudita pode vir a ter no negócio?
Porque é que a Feeders sente que pode crescer e fazer esta expansão além-fronteiras? Temos resultados muito semelhantes há anos consecutivos, em termos de volume de negócios, o que nos faz perceber que chegamos ao que é a nossa quota de mercado. Para aumentar a quota, ou criamos mais verticais que possamos explorar e que são coisas diferentes das que estamos a fazer, ou entramos em conflito directo com os nossos clientes e parceiros, o que não faz sentido. A nossa estratégia em Portugal funciona como está, pelo que a alternativa para crescer é ir lá para fora.
Em 2023, o volume de negócios da Feeders superou os cinco milhões de euros; 2024 foi idêntico e que expectativas para este ano?
Vai aproximar-se dos seis milhões de euros.
A partir do momento em que entrarem na Arábia Saudita, que perspectivas há de crescimento?
Qualquer projecto de expansão deverá ter em mente que temos que duplicar estes valores.
A vossa equipa actual é de 15 pessoas. Indo a Feeders para fora, aumentará a equipa?
A actual equipa funciona por núcleos, por células criativas, entre um gestor de projecto, alguém que faz o contacto com o cliente e, no mínimo, dois arquitectos. A ideia que está em cima da mesa passa por replicar este modelo de células criativas. Ou seja, temos definido o modelo de roll out dos nossos projectos, em termos de recursos humanos, e é este modelo que será replicado.
Mas estamos num momento em que, para crescer, não pode ser para 16 ou 17 pessoas, mas para mais… … não há o receio de dar um passo maior que a perna?
O difícil era chegar até aqui.
Até onde pode então crescer a Feeders?
A Feeders é um tiro de loucura. Ninguém sabe para onde é que vai. A ideia base é que a Feeders seja tão grande que eu deixo de ter capacidade para a gerir e tem que vir alguém melhor para o fazer. É uma ambição idêntica à de um filho, que queremos sempre que sejam melhores do que nós. Nos negócios temos que ser românticos até determinado ponto. Nem sempre podem ser criados como legados ou heranças que vamos deixar para alguém.
Há já um plano desenhado até 2030…
Para fazermos um plano de expansão, contratámos uma consultora. Essa consultora fez uma análise da estrutura e história da Feeders, identificou os processos que não estavam a correr tão bem, os que podiam correr melhor, os que não temos e que teremos de englobar e aquilo que é, também, uma espécie de metodologia para implementação num novo mercado. Dentro disto, um dos temas que nos fez sentido foi o rebranding. Hoje, estamos a explorar três verticais: major events and sports – desde acções com o Sporting a festivais como o NOS Alive, Rock in Rio ou Marés Vivas –, stands and exhibitions – conferências, exposições, eventos como o Web Summit –, e um terceiro, que é o design de experiências de retalho e escritórios. Acreditamos que para cada um dos três existem ciclos. E os ciclos das marcas variam entre três e cinco anos. Por isso, nós próprios também fizemos esta análise e estamos a fazer um rebranding à marca para nos conseguirmos explicar de forma clara. No nosso novo projecto, haverá mais uma mudança, que é a de escritórios, porque acredito que o futuro passa por esta criação de ecossistemas. Queremos criar um espaço de cowork que seja, ainda, um ecossistema onde empresas, que se cruzem com o nosso foco de trabalho, possam crescer. Porque queremos ajudar outros a superar aquelas que foram as nossas dificuldades iniciais. Portugal está muito pouco talhado para as figuras do empreendedorismo.
Como é que arquitectos, de formação, não se importam de assinar tantos projectos efémeros?
Pela emoção. A Feeders rema em contracorrente porque o nosso projecto, de facto, não é nosso, é das pessoas que o habitam, é do cliente final que o contratou, é de quem acreditou nas nossas ideias.
Qual foi o projecto que vos foi mais querido nestes 15 anos? E há algum em particular que gostassem de vir um dia a assinar?
O projecto mais icónico foi a oportunidade de termos podido desenhar o palco NOS Alive e de termos tido a ajuda de todas as equipas técnicas para que o projecto se elevasse mais ainda. Continua a ser um orgulho imenso termos tido o privilégio de fazer uma coisa desta envergadura, com os Depeche Mode a actuar e outros artistas tão incríveis e que deram palco ao nosso palco. Em relação ao futuro, temos uma inspiração muito grande que é Alex de Betak, que desenha os maiores fashion shows de grandes marcas como Dior. A lógica de trabalhar com um grande orçamento, que permita criar impacto a este nível, permite-nos pensar e utilizar soluções que são completamente inacessíveis ao que é a Feeders de hoje. Se pudéssemos adaptar o talento que temos a isto, diria que gostava que acontecesse não tanto na moda, mas no desporto. O desporto é uma questão de lifestyle, cada vez mais presente, e queremos estar no desporto elevando o patamar de experiências. Se um dia nos derem essa oportunidade, levaremos toda a nossa experiência para esse campo.













