Por Andreia Ribeiro, Creative director da Fuel
“Mulder, the truth is out there, but so are lies.”
Esta frase foi dita pela personagem Dana Scully na série X-files (Ficheiros Secretos em português) e chamei-a para aqui hoje porque no outro dia o algoritmo presenteou-me com um fenómeno que eu desconhecia totalmente, o chamado “Scully Effect”.
Mas já lá vamos. Antes, deixem-me aborrecer-vos com uma reflexão pessoal.
A meio de Novembro tivemos o prazer de receber na FUEL uma edição das tertúlias das Las Cuervas, – se não ouviram falar delas ainda, pesquisem, vale a pena – resumidamente o que elas fazem é lutar para trazer mais mulheres para os departamentos criativos. Já somos mais, é verdade, mas ainda temos um longo caminho a percorrer, principalmente no que diz respeito a cargos de direcção.
Depois de uma conversa muito interessante sobre a filha da mãe da culpa – na nossa opinião, um dos grandes entraves para as mulheres prosperarem nesta área – fui abordada, enquanto mastigava um croquete, com a seguinte pergunta: como é que conseguiste sobreviver naquele tempo? Ultrapassado o choque de ter ouvido “naquele tempo” como se tivesse começado a fazer anúncios na idade média, parei para pensar na resposta. Não foi a primeira vez que pensei nisto, é verdade, mas também é verdade que a primeira vez que parei para pensar nisto foi há poucos anos, quando se começou a falar de quotas e #metoo e #timesup e desigualdade de género. Só aí rebobinei a cassete e vi aqueles anos da idade média com outros olhos. O que me deixou mais chocada nesta visualização a sépia do meu passado foi a minha distinta falta de noção. Eu não tinha noção nenhuma do quão absurdo era eu ser a única mulher naquele grande departamento criativo daquela grande agência. Até fazíamos piadas com isso, eles chamavam-me “man”, ríamos à conta de eu ter desenvolvido um talento muito especial: a capacidade de abandonar o meu corpo quando, ao almoço, TODO O SANTO DIA, eles falavam de futebol e outros assuntos que não me interessavam minimamente e eu focava um canto do teto do restaurante e partia numa aventura só minha, sozinha com a minha imaginação, só voltando na hora de pagar a conta.
Uma vez, meti-me na casa de banho para trocar de roupa para a festa de Natal da agência, coloquei um vestido e calcei uns saltos, quando saí, ficaram todos a olhar para mim estupefactos e um deles chegou mesmo a soltar um enojado: então man? Eu era um dos gajos. Não achava que era tratada de forma diferente. Não me passava pela cabeça que o facto de ser mulher poderia prejudicar-me. E hoje sei que foi essa falta de noção que me salvou. Porque agora vejo. Vejo a quantidade de vezes que fiquei de fora porque “uma mulher não escreve com graça”. Vejo a quantidade de vezes que, numa reunião, disse exatamente a mesma coisa que o meu dupla, mas só fui ouvida quando as mesmas palavras saíram da boca dele. Vejo tantas outras coisinhas que me escaparam totalmente enquanto as vivia. E isto incomoda-me profundamente.
Será que só estou aqui hoje graças à minha falta de noção?
Quero dar uma volta mais positiva a esta história por isso prefiro acreditar, também, noutra narrativa. E é aqui que entra o Scully Effect. Eu explico, para quem não viu o reel do Instagram.
Acontece que, na idade média – que para os Gen Z foi ali algures nos anos 2000 – investigadores identificaram um fenómeno sociocultural que relacionava o impacto que a personagem Dana Scully, da série The X-Files, teve no interesse desenvolvido por mulheres e raparigas em carreiras STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática). Quem viu a série sabe, a Scully era uma mulher inteligente, forte, extremamente competente, respeitada pelos colegas e bem-sucedida num ambiente totalmente dominado pelos homens. E o simples facto de haver uma mulher assim representada na TV (caso raro, na altura) resultou num aumento de interesse, confiança e motivação de muitas mulheres para seguirem carreiras normalmente associadas a homens, contribuindo favoravelmente para a participação feminina nestas áreas. Será que elas tinham noção de como a Scully estava a moldar o seu futuro ou simplesmente gostavam de vê-la a espalhar no ecrã o famoso Mulder eye roll? E, de forma inconsciente, foram alimentando, episódio a episódio, a certeza de que eram capazes de tudo?
Não é mágico o poder da representatividade? Não, não é mágico. É comprovado por estudos.
E nós, aqui no nosso quintal da comunicação, temos esse poder nas nossas mãos. Com grandes poderes, vêm grandes responsabilidades, já dizia o tio do homem-aranha – aposto que foi a tia May que disse primeiro, mas ninguém ouviu.
A forma como representamos as mulheres nos nossos anúncios importa, e muito.
Temos a obrigação de criar os Scully Effects do futuro.
Quanto à pergunta que me fizeram no dia da tertúlia, talvez eu tenha sobrevivido “naquele tempo” porque não tinha noção das barreiras à minha frente. Hoje sei que mostrar as possibilidades e criar referências – como a Scully – é uma das formas que tenho para garantir que as próximas gerações de directoras criativas não precisem de falta de noção para chegar lá.
Fonte: https://geenadavisinstitute.org/research/the-scully-effect-i-want-to-believe-in-stem/
Artigo publicado na edição n.º 353 de Dezembro de 2025













