Das dívidas

TiagoViegas

(Gostaria de, em jeito de ante scriptum, esclarecer os estimados leitores – todos os estimados seis, pelas minhas últimas contas – que este é já o terceiro ensaio à abordagem ao tema; os dois ensaios anteriores, fazendo fé em algumas opiniões claramente mais ajuizadas que a minha, estavam demasiado belicosos, quasi deselegantes, e, pior que isso, demonstrativos de que o tema não está ainda completamente resolvido em mim; ainda assim, não só porque está na altura de resolver o dito assunto, mas acima de tudo porque já devia ter entregue este texto há uma semana, resolvi tentar. Mais. Outra. Vez.)

Ao contrário daquilo que alguns poderão pensar, deixem-me desde já esclarecer que o título, para além de uma ligeira e infantil provocação aos tais alguns, não diz de forma alguma respeito ao dinheiro que os vários players da indústria devem a uns, a outros e uns aos outros (isso seria tão desinteressante quanto deselegante, e eu gosto de pensar em mim com um gentleman – vá, gentleman e meio, por causa do peso), mas antes ao que a grande maioria dos meus pares acaba por achar que lhes é devido sempre que passa muito tempo a trabalhar para um mesmo cliente: tudo.

O que, só atalhando de foice, é um imenso e perfeito disparate: aquilo que lhes devem é nada. Para além de respeito e consideração em igual medida àquele que demonstraram e que ao limite se deve materializar em frontalidade e (muito) pouco mais.

Há neste meio uma ideia mais ou menos absurda que os clientes nos devem tudo. Uma espécie de dívida moral, para além da já financeiramente paga, que deveria fazer com que eles nunca mais trabalhassem com outros já que, claramente, tudo o que são a nós nos devem.

O que começa por revelar uma imensa falta de modéstia; e depois – o que é pior – uma muito maior falta de inteligência.

E tanto uma como outra, pessoalmente, me aborrecem imensamente.

Eu, uma vez, tive um cliente. Eu gostava dele, ele gostava de mim e, juntos, fazíamos imensas vezes o amor. Criativo e metafórico, entenda-se. Ou trabalhávamos, para os mais desatentos.

Até que um dia esse cliente deixou de querer fazer amor comigo e resolveu que queria trocar-me por outro. Sim, eu pessoalmente achava que o outro era gordo, feio e tinha uma verruga peluda no meio do nariz. Ah, e tinha gonorreia (mal resolvido, quem, eu?). Mas isso era a minha opinião.

Na altura toda a gente ficou muito ofendida, na agência bradou-se aos céus a ingratidão, chamaram-se nomes aos senhores (e às senhoras, assim dita a emancipação) e prometeram-se vinganças. Como se aquele cliente nos devesse alguma coisa mais do que aquilo que tinha já pago.

E ainda que a consideração que o cliente demonstrou pela agência não tenha sido brilhante, a verdade é que a consideração que lhes tínhamos dado não era muito melhor: mentia-se, aldrabava-se, escondia-se, prometiam-se recursos que não se alocavam – enfim, fazia-se aquilo a que pelo menos 75% (e o simpático que eu estou a ser?) do mercado chama trabalhar.

E pronto, o karma é o que é e assim sendo a conta foi-se sem mais nem ontem.

Para uma outra agência que também tem um trabalhar assim parecido, mas isso depois já será com o karma outra vez.

Ou seja, e esticando a metáfora um bocadinho para lá dos limites do decoro, uma relação entre uma agência e um cliente é igual à relação de um homem e uma mulher (ou um homem com um homem, ou uma mulher com uma mulher, se quisermos ser politicamente correctos): enquanto quisermos ir os dois para a cama um com o outro, está tudo bem; no dia em que um deles resolver que está farto daquilo e quer ir dormir com outro, então está resolvido: vai dormir com o outro e acabou-se. A única coisa que lhe é pedida é a consideração para o assumir e avisar. Partindo do princípio que era tratado com igual consideração.

Não deixa de ser engraçado, tantos anos passados, olhar para trás e perceber que o meu primeiro chefe, dentro da sua alarvidade, é que era um gajo honesto: não querem ir para a cama comigo, então podem ir bardamerda. Era assim como um marido ofendido, que se farta de chamar nomes à mulher no dia em que esta lhe explica que está apaixonada pelo colega do escritório (era um alarve, afinal de contas).

Mas só nesse dia.

Porque depois compreendia, aceitava e respeitava a decisão – que é como quem diz, percebia que este jogo é mesmo assim.

Ninguém nos deve nada.

Mesmo quando damos tudo.

Texto Tiago Viegas

Fotografia  Paulo Alexandrino

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