Tem-se assistido a nível internacional a uma vaga de consolidação no setor do entretenimento e também, em particular, no do streaming. O tema ganha atualidade num contexto internacional marcado por grandes fusões e aquisições entre gigantes do setor, impulsionadas pela necessidade de ganhar dimensão, rentabilidade e capacidade de investimento, nomeadamente com a Netflix e a HBO Max a poderem-se juntar em breve e com a recente fusão da Skydance Media e da Paramount Global. Perante este cenário, fará sentido que também os principais canais generalistas portugueses unam esforços e, quiçá, lancem uma plataforma conjunta para dar maior escala às produções nacionais?
Para os responsáveis dos principais operadores portugueses — RTP, SIC e TVI –, que contam atualmente com plataformas de streaming ou outras estruturas parecidas, estas movimentações globais têm implicações indiretas, mas profundas, num mercado de menor dimensão como o nacional. E a ideia de uma plataforma conjunta não é descartada.
Hugo Figueiredo, administrador com o pelouro de conteúdos da RTP, reconhece que a estação pública já defendeu publicamente uma solução desse género e mantém abertura para a discutir. Para o responsável, a união de esforços poderia resultar num catálogo único e distintivo de conteúdos em português, ausentes das grandes plataformas internacionais.
“Do lado dos desafios, parece-nos que o mais difícil será conseguir que três empresas que, na atividade principal são concorrentes, consigam desenvolver um modelo de negócio vantajoso e justo para todos”, aponta o responsável da RTP, cujo serviço de streaming — a RTP Play — conta com uma média mensal de 1.359.706 utilizadores e de 3.040.842 horas horas consumidas.

A opinião parece ser partilhada pela Media Capital, dona da TVI. “Temos defendido, enquanto Media Capital, que faz sentido refletir sobre modelos de maior colaboração, nomeadamente no streaming, sobretudo quando o objetivo é dar mais escala, visibilidade e sustentabilidade às produções portuguesas. Num mercado de média dimensão como o português, a dispersão excessiva de plataformas limita o alcance dos conteúdos nacionais e dificulta a criação de propostas suficientemente fortes junto do público, em Portugal e na diáspora”, afirma Ricardo Tomé, diretor geral da Media Capital Digital.
Uma eventual plataforma conjunta poderia precisamente contribuir para reforçar a relevância do conteúdo português, “agregando catálogo, otimizando investimento tecnológico, melhorando a capacidade de recomendação e mais ainda da capacidade de monetização, criando uma proposta competitiva face aos grandes players internacionais”. Contudo, existem “desafios relevantes”, alerta.
“Desde a definição de modelos de governança e de monetização/venda, até às questões regulatórias, à gestão das marcas e à preservação da identidade editorial de cada operador. Por isso, mais do que uma questão tecnológica, trata-se de uma decisão estratégica que exige alinhamento de visão, incentivos e objetivos. Ainda assim, acreditamos que a colaboração, quando bem desenhada, pode criar mais valor para o ecossistema do que a fragmentação num contexto de crescente pressão competitiva global”, acrescenta.
Já Bruno Mateus Padinha, chief digital officer da Impresa (dona da SIC e da plataforma de streaming OPTO), reconhece que uma eventual consolidação poderia trazer ganhos de escala, permitir investimentos em produções de maior orçamento e reforçar a capacidade de internacionalização, mas lembra que os players nacionais não competem apenas entre si, disputando também a atenção do público e a receita publicitária com plataformas como o YouTube, redes sociais e outros streamers globais, como a Netflix.
Nesse sentido, defende modelos de “coopetição”, em que a colaboração com parceiros globais pode coexistir com a concorrência. “A análise especulativa de um cenário de consolidação deve também considerar esses outros players, a quem os broadcasters nacionais também podem associar-se (coopetir em vez de meramente competir), como aliás já sucede com a venda e a co-produção de conteúdos nacionais”, aponta.

A mesma ideia é defendida por José Eduardo Moniz, diretor geral da TVI, que também sublinha que a cooperação com grandes plataformas de distribuição tem benefícios claros. No caso da parceria da TVI e da Plural com a Amazon Prime, esta tem-se mostrado “vantajosa para todas as partes, na medida em que aporta recursos financeiros significativos que de outro modo não apareceriam e cria novas oportunidades para criadores, atores, técnicos e profissionais do sector, além de proporcionar o acesso a mercados de dimensão incomensuravelmente superior à de Portugal”.
“A aposta no alinhamento com grandes plataformas de distribuição é uma forma de desbravar o futuro, permitindo que o produto nacional se torne mais conhecido junto de plateias muito amplas e em diversas geografias”, acrescenta o responsável da TVI, cuja plataforma de streaming, o TVI Player, regista mensalmente dois milhões de utilizadores únicos.
Também Hugo Figueiredo, da RTP, considera ser “imprescindível” continuar a desenvolver projetos em coprodução com as grandes plataformas. “É uma forma de dar palco internacional com escala à produção audiovisual originalmente em português e continuar a desenvolver projetos com níveis de produção ambiciosos, onde o talento português se possa desenvolver”, afirma.
Consolidação global do streaming levanta alertas e desafios para o mercado português
A aceleração dos processos de consolidação no setor global do entretenimento, com possíveis fusões entre grandes plataformas de streaming e grupos de media, é vista pelos responsáveis portugueses como um sinal claro de que o mercado entrou numa fase de maturidade, em que a escala deixou de ser uma vantagem para se tornar uma condição de sobrevivência.
Para Hugo Figueiredo, estas movimentações refletem o dinamismo de um setor em profunda transformação e a necessidade de ganhar dimensão num contexto de concorrência feroz. O responsável da RTP destaca que o mercado global tem vindo a privilegiar catálogos mais vastos, produções com orçamentos elevados e investimentos significativos em promoção e marketing, o que se traduz num aumento contínuo do preço das subscrições, que “levam o consumidor a fazer escolhas”.
“Esta opção do mercado por mais catálogo, mais produções cinematográficas e eventos em live streaming aumenta a pressão no mercado audiovisual português que, para manter níveis de produção aceitáveis, tem procurado cada vez mais coproduções com estas plataformas. A consolidação que se adivinha reduz a concorrência também no lado do desenvolvimento e tornará um desafio a concretização de projetos com produtoras portuguesas”, acrescenta.

Já Ricardo Tomé identifica três fatores centrais por detrás da consolidação: a pressão sobre a rentabilidade, o aumento dos custos de produção e aquisição de conteúdos e a necessidade de escala global num mercado simultaneamente saturado e fragmentado. Para o responsável, após uma fase de forte crescimento impulsionada pela subscrição, o setor entrou claramente numa etapa de maturidade. “Hoje, a escala é não apenas desejável, mas crítica e estas movimentações mostram que mesmo os grandes players globais reconhecem que a fragmentação excessiva destrói valor e que a eficiência operacional e a capacidade de investir em tecnologia e dados são determinantes”, diz.
O diretor geral da Media Capital Digital sublinha ainda que, se a nível global a escala é crítica, nos mercados locais essa necessidade é amplificada. Em Portugal, onde a elevada penetração da televisão por cabo (95%) — o que diferencia o país de muitos outros mercados europeus — os streamers disputam o consumo on-demand com as plataformas dos operadores de telecomunicações. Neste contexto, defende a importância de pensar os conteúdos desde a origem em distribuição internacional, maximizar a sua vida útil e procurar parcerias que permitam ganhar escala sem perder identidade.
O responsável deixa ainda críticas quanto ao enquadramento regulatório, considerando que algumas obrigações impostas às plataformas nacionais podem revelar-se desajustas e desproporcionadas face à sua dimensão económica. “Em vez de visar potenciar a distribuição e a produção, promovendo a língua e o consumo de conteúdos produzidos pelos nossos canais ou das empresas concorrentes locais, estamos a usar um prisma em que o resultado pode derivar potencialmente na restrição ou mesmo inviabilização de acesso pelos vários públicos a catálogo em português… potenciando ainda mais o consumo em plataformas globais”, alerta.
Um mercado pequeno, sob pressão crescente
Susana Gato, presidente da APIT (Associação de Produtores Independentes de Televisão), sublinha que eventuais processos de fusão ainda se encontram numa fase muito preliminar e dependem de confirmações determinantes.
No contexto nacional, alerta, a diminuição de operadores pode limitar a produção audiovisual portuguesa, “que se esforça, diariamente, para atingir patamares de competitividade alargada”.
No que respeita ao futuro do streaming em Portugal, “e olhando para o investimento que tem sido feito em produção original portuguesa, interessa que o mesmo cresça e potencie a circulação das nossas obras, fomentando a internacionalização dos conteúdos portugueses e promovendo a nossa língua, cultura e património”, conclui.














