A mudança não se constrói em nome próprio

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03/09/2025
20:02
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Opinião de Inês Pereira, Doutoranda em Comunicação de Ciência na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, da Universidade Nova de Lisboa

Todos queremos deixar um pedaço de nós no mundo. Uma pegada com o nosso nome, uma marca com o nosso apelido, uma capa de jornal com a nossa cara. Levantamos constantemente monumentos invisíveis erguidos pelos nossos egos e há uma aversão cada vez maior a ser-se um ator secundário, como se só o protagonista tivesse lugar nos livros de história.

Talvez assim o seja. Talvez só seja próspero aquele que coloca a sua impressão digital neste mundo – sem equívocos nem ambiguidades. Talvez esta obsessão pela visibilidade e o reconhecimento seja alimentada pela sociedade, como se todos sofrêssemos de “síndrome de irmão do meio” – aquele que se diz esquecido se não fizer algo para chamar à atenção. Ou talvez seja apenas a sede de possessão humana, que confunde identidade com propriedade e torna a validação externa uma peça-chave na nossa autoestima.

Perdeu-se a comunidade, a união e a noção do impacto coletivo. Algures neste processo dividir passou a valer mais do que somar e em vez de levarmos projetos mais longe, levamos projetos por caminhos diferentes, mas em direções paralelas. A “sugestão” passou a vestir-se de “consigo fazer melhor” e, por isso, abrem-se hoje por aí tantas lojas (de ideias) em segunda-mão.

Se é preciso diversidade para existir liberdade de escolha? Claro que sim. Mas não nos deixemos enganar pelas matrioskas do mercado, onde muitos irmãos são filhos do mesmo pai sem saber, e onde tantos outros projetos vivem do mesmo sonho, do mesmo objetivo e que, juntos, poderiam chegar mais longe.

Imaginemos, só por dois segundos, o tanto que seriamos capazes de alcançar se uníssemos, mais vezes, os nossos esforços por um fim comum. Tudo o que poderia ser conquistado se a meta não fosse gravar o nome próprio de alguém num enredo de filmes hipotéticos.

A verdadeira mudança não dá créditos, dá resultados, impacta. Estamos tão ocupados em procurar um lugar de destaque que nos esquecemos de que a diferença real não se faz sozinha. E que, muitas vezes, é no trabalho silencioso, no apoio invisível, na colaboração sem vaidade que acontecem os avanços mais sólidos, onde se constroem os alicerces que edificam os arranha-céus mais altos.

A mudança não se constrói em nome próprio. Constrói-se na soma de esforços, na partilha de experiências, no exercício enriquecedor de colocar o coletivo acima do individual. Constrói-se quando entendemos que ser secundário não é ser irrelevante, é, na verdade, muitas vezes, ser indispensável.

Talvez o futuro precise de menos nomes próprios e de mais obras partilhadas nas sombras do desconhecido. Menos de “meu” e mais de “nosso”. Porque, no fim, se tivermos a coragem de renunciar ao crédito para abraçar o impacto, talvez descubramos que, afinal, o que mais nos aproxima da eternidade é aquilo que conseguimos fazer juntos.




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