A Casa de Santar reforça a ligação entre o território, a tradição e a inovação, valorizando o património vitivinícola do Dão e a sua identidade única.
A Casa de Santar assume-se como um património vivo do Dão e de Portugal, uma marca que atravessa gerações e que, de acordo com Miguel Rodrigues, director de Marketing e Vendas, carrega «uma história de mais de 200 anos». Esse sentido de continuidade transforma-se numa responsabilidade diária: a equipa vê-se como guardiã de um legado – social, cultural e natural – que deve ser entregue às gerações futuras «melhor do que o encontrámos». Por isso, cada decisão estratégica – da vinha ao rótulo, da adega às plataformas digitais – é pensada na lógica de proteger e valorizar este património.
Para Miguel Rodrigues, o terroir de Santar define grande parte da identidade organoléptica dos vinhos. A localização geográfica da vila, protegida por serras e marcada por altitudes entre os 400 e os 800 metros, cria um microclima que privilegia a frescura e a elegância – condições que, combinadas com solos de granito e xisto e a influência dos rios Dão, Mondego e Alva, conferem estrutura e rusticidade aos vinhos. Esses elementos naturais, explica, traduzem-se em vinhos equilibrados, com «enorme prazer para quem os consome», e justificam a fama de Santar como “a jóia do Dão”.
No conjunto de vinhas da Casa de Santar, a Vinha dos Amores ocupa um lugar simbólico e técnico. Situada numa encosta voltada a noroeste, esta parcela de baixa produção gera uvas de elevada qualidade para castas como Encruzado, Touriga Nacional e Alfrocheiro. Além das especificidades agronómicas, a vinha carrega memórias locais – recorda-se que ali existia um bosque e uma fonte, local de encontros amorosos, do qual herdou o apelido Alto dos Amores – e essa narrativa ajuda a posicionar os vinhos como produtos com profundidade histórica e afectiva. A designação da parcela e a história que a envolve são, para a marca, parte integrante da proposta de valor: não se trata apenas de um rótulo, mas de um território e de um imaginário que o consumidor leva para casa.
A diversidade de castas é outro eixo central. Touriga Nacional e Encruzado surgem como pilares do portefólio, referências que sustentam a imagem da casa dentro e fora de Portugal, mas Miguel Rodrigues salienta que o património varietal do Dão é mais amplo: Jaen e Alfrocheiro nas tintas, Gouveio e Arinto nas brancas, entre outras, compõem um mosaico genético que a Casa de Santar protege e promove. Esse pluralismo de castas é, na sua perspectiva, fundamental para preservar a autenticidade e a tipicidade do Dão.
A presença de biodiversidade nas propriedades viárias – carvalhos, freixos, choupos, dezenas de espécies de aves, raposas, coelhos e uma corrente de água rica em anfíbios – reforça a ideia de que a vinha existe num ecossistema complexo. Para o director de Marketing e Vendas, essa biodiversidade não é decoração: é parte do factor qualitativo que permite às vinhas produzir frutos saudáveis. A estratégia da casa passa por uma intervenção mínima e pelo respeito pelos ecossistemas pré-existentes, porque, ao agir desta forma, afirma, «só assim é possível garantir a expressão da região».
CONSISTÊNCIA E INOVAÇÃO SUSTENTÁVEL
A Casa de Santar encara a conciliação entre tradição e inovação como uma missão prática, articulada diariamente pela equipa de enologia. Miguel Rodrigues explica que o grande desafio é a consistência: produzir, ano após ano, vinhos que representem fielmente o perfil da casa. Para isso, a equipa recorre ao conhecimento científico para conhecer melhor cada vinha, cada parcela, cada planta e cada ciclo fenológico, antecipando problemas e definindo intervenções de prevenção em vez de correcção. O objectivo, sublinha, é que a vinha cresça com fruto saudável, colhido no tempo certo.
Neste quadro, a tecnologia e o desenvolvimento científico não substituem a tradição; antes, potenciam-na. A equipa utiliza «toda a tecnologia que temos ao dispor» para optimizar a matéria-prima e gerar vinhos de elevada qualidade, sem perder de vista a identidade original. A estratégia reflecte-se também nas escolhas de estágio e de estilo: dar tempo ao vinho, observar o seu amadurecimento e só lançar no mercado quando atinge o equilíbrio e a excelência que fizeram o nome de Santar.
A resposta às exigências do consumidor moderno combina este conhecimento técnico com uma escuta activa do mercado. A Casa de Santar reconhece as tendências – preferência por vinhos mais leves, frescos, de teor alcoólico moderado, com menor intervenção de barrica e maior apetência por brancos – e adapta parte da sua produção a essas preferências sem trair o perfil da marca. A premissa, afirma o responsável, é clara: «O melhor vinho é o que o consumidor gosta e quer beber», e a verdade e transparência perante o público são não só um imperativo ético como uma estratégia comercial.
No plano da sustentabilidade, a casa define a sua abordagem como um processo contínuo – um “work in progress” que abrange três dimensões: ambiental, empresarial e social. Os vinhos são produzidos em modo de produção integrada, um selo de coerência com práticas de viticultura responsável. Mais do que rótulos ou certificações isoladas, a Casa de Santar foca-se em medidas concretas: reduzir a pegada carbónica das operações, optimizar transportes e embalagens e procurar soluções que diminuam o impacto da actividade. Entre as iniciativas já planeadas destaca-se a redução do peso das garrafas de vidro, com impacto nas emissões relacionadas com o transporte e relevante para uma marca com presença internacional.
A internacionalização é, aliás, outra frente estratégica. Miguel Rodrigues aponta os Estados Unidos, Brasil, Alemanha e Suíça como mercados de maior expressão para a exportação da marca. Para além da colocação de produto, a presença externa serve para posicionar o Dão num mapa comparativo que, não sendo perfeito, tem utilidade promocional: a associação, ainda que imperfeita, com regiões como a Borgonha, pode ajudar a criar pontos de referência num mercado global. Essa comparação, na avaliação do responsável, «tem mais benefícios do que prejuízos», desde que não substitua a necessidade de promover a singularidade do Dão como região diferenciada.
A comunicação desempenha aqui um papel estratégico. A Casa de Santar não limita a defesa do seu património ao interior da adega; investe também no estudo do packaging e na comunicação digital, conscientes de que cada elemento de contacto com o consumidor – rótulos, histórias das vinhas, narrativa da Vinha dos Amores – contribui para criar valor. O relato da história local, a visibilidade das práticas sustentáveis e a proximidade com a vila de Santar são argumentos que constroem confiança e reconhecimento no exterior.
Miguel Rodrigues realça ainda o impacto social e económico da marca na região: a Casa de Santar não é apenas produtora de vinhos, é um agente activo na comunidade, e isso implica responsabilidades que vão desde as práticas de produção ao modo como a marca interage com a população local. O compromisso com a região traduz-se, nas suas palavras, numa atitude de defesa da cultura, do lugar e das pessoas «que fizeram e fazem parte da história desta casa».
As ambições futuras centram-se em reforçar a presença internacional, ampliar o conhecimento dos vinhos do Dão e manter a identidade de Santar, conciliando o respeito pelo passado, com olhos postos no futuro. A intenção é simples e ambiciosa: tornar a marca mais internacional, sem perder o propósito de apresentar vinhos que representam o legado mas que ao mesmo tempo olham para o amanhã. É, em última análise, a estratégia de quem sente que faz parte de uma história maior e trabalha para que esse património continue vivo, sustentável e relevante para novos consumidores e novas gerações.
Este artigo faz parte da edição de Dezembro (n.º 353) da Marketeer.













