Vinho botânico português nomeado na categoria de inovação dos prémios V d’Or. “Delância nasce da vontade de trazer o vinho para a cultura do aperitivo”

Notícias
Rafael Ascensão
02/02/2026
10:00
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A Delância, projeto português nascido no Alentejo e dedicado à criação de vinhos botânicos, foi distinguida com um lugar no Top 5 do Best Innovation in Wine do Vinexposium V d’Or. Para Ines Deroche, co-fundadora e chief marketing officer (CMO), o reconhecimento representa “uma validação muito importante do caminho” que a marca está a construir.

“Desde o início, procurámos criar uma nova categoria — os vinhos botânicos — e este reconhecimento mostra que esta abordagem é credível, relevante e faz sentido à escala internacional”, explica à Marketeer sobre o projeto lançado no ano passado.

“Para nós, é um motivo de orgulho levar uma história enraizada no Alentejo, numa comunidade e num território específicos, para um palco global. No fundo, este reconhecimento confirma que o setor está aberto a novas propostas e que existe espaço para formas mais contemporâneas de pensar e consumir vinho”, diz Ines Deroche, francesa que fundou a marca em conjunto com o companheiro inglês, Tom Simpson.

A gala dos prémios terá lugar a 8 de fevereiro, antes da Wine Paris, onde a marca estará a expor. “Apesar de a Delância ter sido lançada recentemente, não encaramos a presença na Wine Paris como algo prematuro. Desde o início, pensámos o projeto com uma visão de longo prazo e uma ambição internacional, conscientes de que criar uma nova categoria implica diálogo, validação e exposição desde cedo”, refere.

Mas desenvolver um vinho botânico implicou de facto sair das estruturas tradicionais do setor. “É um risco, e continua a ser. Mas, no contexto atual da indústria do vinho, acreditamos que não inovar também é um risco”, sublinha Ines Deroche.

“Desde o início, adotámos uma abordagem muito centrada no consumidor, procurando responder a novas formas de beber e a novos
momentos de consumo. O maior desafio foi operar fora das categorias tradicionais, sobretudo a nível regulatório e de comunicação. Ao adicionar botânicos, deixámos de ser legalmente classificados como vinho, o que impõe limites claros na forma como podemos comunicar o produto”, diz.

Mas em vez de ver isso como um bloqueio, “transformámos essa limitação numa força criativa e estratégica. A Delância nasce dessa vontade de respeitar a tradição da vinificação, abrindo ao mesmo tempo espaço para novas linguagens, novos códigos e novas experiências. Criar algo novo implica gerar algum desconforto, mas também nos surpreendeu positivamente o apoio de muitos profissionais e instituições do setor que reconhecem valor na criação desta nova categoria”, explica.

Vinhos para celebrações modernas

A Delância define-se assim como uma casa com vinhos “para celebrações modernas”, inspirado na cultura do aperitivo. Almoços de domingo, momentos de aperitivo, inaugurações de galerias, dias de praia, pores do sol em rooftops são assim momentos que “parecem especiais sem serem formais”, e para os quais este produto foi pensado.

Disponível na variedade de branco “infusionado com flor de sabugueiro e folhas de chá verde” e rosé “infusionado com romã e folhas de alecrim”, com um teor alcóolico de 10%, a gama lançada em março de 2025 conta já com uma nova cuvée planeada para 2026.

Segundo a co-fundadora, a aposta no lançamento da marca aconteceu após a identificação de uma lacuna clara no mercado, onde “o vinho continua muito associado à refeição e a contextos formais, enquanto os momentos de celebração mais leves, ao final da tarde, durante o dia ou antes do jantar, são muitas vezes ocupados por cerveja, cocktails ou bebidas espirituosas”.

“Faltava um vinho pensado especificamente para esses contextos, leve, refrescante e partilhável, que permitisse celebrar sem excessos. Em muitos países do Mediterrâneo, a cultura do aperitivo está bem definida como um momento social e informal. Em Portugal, esse momento existe, mas ainda não tinha uma expressão clara através do vinho. A Delância nasce dessa vontade de trazer o vinho para esses novos rituais quotidianos, inspirando-se na mixologia para criar novas formas de celebrar, mais espontâneas, contemporâneas e conscientes”, aponta.

Esta abordagem responde também, na verdade, a uma transformação mais ampla no comportamento do consumidor. “Vemos uma nova geração transversal que bebe menos, mas com muito mais intenção”, afirma Ines Deroche, observando que a relação com o álcool se tornou “mais consciente, com maior atenção à qualidade, à origem, aos ingredientes e aos valores das marcas”.

O consumo deixa de ser automático e passa a ser uma escolha, associada a momentos específicos e a experiências mais leves. Neste contexto, a moderação deixou de ser uma limitação e tornou-se algo desejável. Beber melhor, com mais equilíbrio e prazer, é hoje uma tendência forte, especialmente entre consumidores que procuram qualidade sem excessos”, refere.

“Acreditamos que inovar implica sempre gerar algum desconforto, e isso faz parte de manter o vinho vivo e relevante”

No entanto, isso não significa que não seja encontrada alguma resistência, pois num setor com uma “história e uma tradição tão fortes” é “inevitável” encontrar alguma resistência, sendo por isso que, desde o início, o projeto sempre teve “muito claro que a tradição da vinificação teria de estar no centro”.

“O que fazemos na Delância não é rejeitar o passado, mas dialogar com ele. A infusão de plantas e flores no vinho é, aliás, uma prática muito antiga, que decidimos reinterpretar à luz dos hábitos e sensibilidades atuais. Sentimos alguma resistência, mas sobretudo por parte de um público que não é o nosso foco. Em contrapartida, temos sido positivamente surpreendidos pela curiosidade e abertura do nosso público-alvo e até de consumidores de vinho mais tradicionais, que veem valor em ter novas propostas à mesa. Acreditamos que inovar implica sempre gerar algum desconforto, e isso faz parte de manter o vinho vivo e relevante”

Na Delância, o produto também não se separa da forma como o mesmo é apresentado e contado, sendo que “o design, a linguagem visual e o storytelling são tão estratégicos quanto o próprio produto”, defende a responsável de marketing, até porque “são o primeiro ponto de contacto com o consumidor e determinam se o vinho entra, ou não, na conversa”.

O objetivo é passa assim por conseguir criar um “universo visual capaz de traduzir a experiência sensorial do vinho, preparando o consumidor para o que vai encontrar no copo. O design cria contexto, curiosidade e emoção, tornando o vinho mais acessível e partilhável”,

“Ao mesmo tempo, o storytelling permite-nos contar a história da nossa região e da nossa visão de forma contemporânea, criando uma relação com o consumidor mesmo antes da prova. Mas tudo isso só funciona se o produto estiver à altura. Para nós, o produto é o corpo e o storytelling é a voz”, acrescenta.

Consolidação em Portugal e primeiros passos internacionais

Para 2026, a prioridade da Delância passa por consolidar e reforçar a sua presença em Portugal, através de um distribuidor estratégico que a “ajude a crescer de forma estruturada no mercado nacional”. Além disso, estar mais presentes em contextos culturais e festivais, onde a reação com o vinho botânico “tem sido muito positiva”, assim como trabalhar no reforço da equipa e no desenvolvimento de uma rede de embaixadores de marca são outros dos objetivos.

A nível internacional, o objetivo passa por identificar um ou dois mercados de exportação e começar a preparar um primeiro lançamento fora de Portugal. “Num futuro próximo, queremos continuar a crescer de forma sustentável, com novos produtos, incluindo um novo vinho que iremos apresentar em breve, e com parceiros alinhados com a visão da Delância”, acrescenta Ines Deroche.

O futuro da marca assenta assim num equilíbrio “consciente”, onde Portugal continua a ser a base do projeto — pois é em território nacional que a marca “ganha sentido cultural e constrói comunidade”, mas onde a dimensão internacional “é estratégica para um projeto de nicho”, fazendo parte do ADN da Delância “desde cedo”. Já o desenvolvimento de novos produtos “surge como uma extensão natural da marca, sempre alinhada com a identidade e com os momentos de consumo que quer explorar”.

“Não vemos estas frentes como opostas, mas como complementares. Raízes fortes em Portugal, crescimento internacional bem escolhido e evolução contínua da marca”, conclui Ines Deroche.




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