Enganei-me com os carros voadores

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16/05/2026
20:02
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Opinião de Bruna Ferreira, Head of Marketing & Communication na Quidgest

Em criança, o ano 2000 parecia-me um lugar distante onde os robôs circulariam pelos escritórios a oferecer água, chá e café, enquanto carros voadores cruzariam o céu das cidades vistas nos “Jetsons” e no “Blade Runner”. O trânsito desapareceria graças ao teletransporte e as máquinas fariam todo o trabalho sujo, perigoso ou chato (incluindo as reuniões, porque provavelmente já todos conseguiríamos ler pensamentos).

Cresci e o século XXI chegou. O mundo não acabou (o que já superou algumas previsões apocalípticas da época), mas também não ficou como eu tinha imaginado. Para começar, os carros limitaram-se a continuar na estrada.

Na verdade, durante boa parte dos 2000, aquilo a que chamava futuro continuava profundamente analógico: o fax mantinha um estatuto de estrela dentro das empresas, redigir uma notícia exigia ligar para números fixos (encontrados numa lista telefónica estrategicamente colocada debaixo do monitor de PC para lhe dar altura), várias deslocações, gravações em cassete e fotografias reveladas a uma velocidade que hoje seria impensável. As secretárias estavam cobertas de papel, a fotocopiadora era a banda sonora e o tabaco fazia naturalmente parte do ar que todos respirávamos (fumadores ou não). Sim, havia dias de fecho passados atrás de uma nuvem de SG Ventil.

Os ficheiros importantes cabiam em disquetes de 1,44 MB, mas os colegas mais à frente tinham pens USB de 128 MB que exibiam como se fosse um super protótipo da NASA em cima da mesa. E depois havia as reuniões: longas, densas e intermináveis. Reuniões focadas no passado, nas quais cada departamento trazia os seus números e a sua versão da realidade. Os dados raramente coincidiam. A gestão era uma modalidade artística situada algures entre a estatística, a diplomacia e a ficção criativa.

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Em 2026, quase tudo funciona de outra maneira. Antes de uma reunião começar, os indicadores já surgem em tempo real nos dashboards. Alguém pergunta: “O que acontece se mudarmos esta variável?” e o sistema devolve cenários. “E se o mercado desacelerar?”, o modelo recalcula em segundos. Nenhum carro voador passa pela janela, é certo. Mas houve algo igualmente transformador que entrou discretamente pela porta e sentou-se à mesa: software, inteligência artificial e agentes autónomos.

Os agentes autónomos recebem objetivos, organizam tarefas, tomam decisões, executam ações, avaliam resultados e corrigem o percurso. Funcionam como colegas silenciosos que saem da reunião, resolvem metade dos problemas e regressam com alternativas. Ou seja: exatamente aquilo que sempre esperámos de certos colegas humanos.

Na prática, para quem trabalha em Marketing ou Comunicação, isto significa deixar de viver apenas em modo reativo. Estes sistemas conseguem detetar sinais de uma crise reputacional, antecipar padrões de abandono, ajustar campanhas em tempo real e testar dezenas de versões da mesma mensagem. Enquanto dormimos, devoram newsletters, resumem tendências, cruzam dados e deixam um briefing pronto a abrir quando chegamos ao trabalho. Pela primeira vez na história da humanidade, há entidades genuinamente entusiasmadas por fazer apresentações e ler relatórios com mais de 100 páginas.

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E, no entanto, nada disto parece particularmente futurista. Talvez porque as tecnologias que verdadeiramente mudaram o mundo foram quase sempre discretas: a internet alterou a economia e a comunicação sem precisar de lasers, o smartphone reorganizou hábitos sociais e de consumo

sem parecer uma nave espacial, e a cloud tornou-se tão essencial que hoje confiamos documentos pessoais a uma coisa chamada “nuvem”, sem termos grande ideia de onde esta se situa exatamente.

Por isso, talvez o futuro não me tenha falhado. Talvez eu é que tenha passado demasiado tempo a olhar para o céu, à espera das máquinas erradas.

(Ainda assim, admito: continuo à espera de um robô simpático que me traga café… e de um carro voador que me leve do Tejo ao Lima sem demorar as 5 horas de uma travessia transcontinental.)

 

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