Eficiência e impacto: os novos desafios da saúde

Cadernos
Marketeer
15/01/2026
16:53
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Entre metas ambientais ambiciosas, inovação e responsabilidade social, a Sanofi procura alinhar crescimento, eficiência e impacto positivo a longo prazo.

A sustentabilidade tem vindo a afirmar-se como um eixo estratégico incontornável na indústria farmacêutica, atravessando todo o ciclo de vida do medicamento – da investigação à produção, do acesso ao doente ao impacto económico e ambiental dos sistemas de saúde. Este enquadramento ganha particular relevância num contexto global em que cerca de 3,6 mil milhões de pessoas vivem em zonas altamente vulneráveis às alterações climáticas e mais de seis milhões morrem todos os anos devido à poluição do ar, sendo o próprio sector da saúde responsável por uma parte significativa das emissões globais.

Em entrevista à Marketeer, Helena Freitas, country lead da Sanofi Portugal, explica como a empresa integra estes princípios nas suas operações, na inovação e na relação com a sociedade. Este compromisso tem sido reconhecido internacionalmente, com a Sanofi a integrar a lista das 10 empresas mais sustentáveis do mundo da revista TIME, numa abordagem que encara a sustentabilidade não como uma opção, mas como um dever coletivo.

Como integra a Sanofi a sustentabilidade em toda a sua estratégia e operações?

Na Sanofi, a sustentabilidade deixou de ser vista como “responsabilidade social” para se tornar num eixo prioritário da nossa estratégia. Partimos de uma convicção clara: não existe saúde humana sem saúde planetária. É esta visão que orienta o nosso modelo AIR – Acesso, Impacto Ambiental e Resiliência –, posicionando-nos no nexo entre saúde e ambiente e transformando ambição em resultados concretos. Prova disso é que no nosso portefólio actual mais de 70% dos nossos medicamentos e vacinas visam doenças agravadas por factores climáticos e ambientais, o que nos coloca numa posição única para gerar impacto real.

No pilar Acesso, desenvolvemos projectos que capacitam sistemas de saúde autónomos, nomeadamente em África e na Ásia, com programas de sensibilização, formação de profissionais e reforço de infraestruturas. Através da Global Health Unit, asseguramos medicamentos essenciais em mais de 40 países e, com a Fundação S, apoiamos comunidades vulneráveis afectadas por crises sanitárias e climáticas.

Quanto ao Impacto Ambiental, assumimos metas ambiciosas como a neutralidade carbónica até 2030 e Net Zero até 2045. Já alcançámos uma redução de 47% das emissões face a 2019, 85% de electricidade renovável nos nossos sites e 50% da frota eco-car. Nas fábricas, recorremos à inteligência artificial e a novas técnicas que permitem produzir mais rápido com menos recursos, alcançando reduções de até 50% no consumo de água e ganhos significativos em eficiência energética. Desde 2025, o eco-design é obrigatório para todos os novos medicamentos e vacinas, e já 55% das nossas vacinas dispensam blister, com meta de 100% até 2027.

No pilar Resiliência, trabalhamos para reduzir a pegada ambiental dos sistemas de saúde, que representam cerca de 5,8% das emissões de CO₂ em Portugal, e garantimos a sustentabilidade económica de todo o ciclo do medicamento – da investigação à produção e ao acesso –, assegurando um fluxo contínuo de inovação e resposta às necessidades dos doentes.

A nossa estratégia AIR permite-nos actuar em duas frentes: tratar as pessoas e reduzir o impacto ambiental em simultâneo. O futuro exige execução consistente: transformar metas globais em impacto local, acelerar a neutralidade carbónica e continuar a investir nas nossas pessoas. Para nós, AIR não é apenas uma estratégia – é a forma como perseguimos os milagres da ciência para melhorar vidas, provando que a sustentabilidade é um investimento inteligente que gera impacto positivo duradouro ao nível da saúde, do ambiente, social e da economia.

Que papel desempenha a inovação tecnológica e a inteligência artificial na transformação sustentável?

A inteligência artificial é hoje uma realidade transversal na Sanofi, presente em várias etapas do nosso trabalho. Começa logo na investigação, onde nos permite acelerar a selecção e pré-selecção dos doentes que participam nos ensaios clínicos, tornando este processo mais eficiente e preciso.

Este avanço ganhou uma nova dimensão com o desenvolvimento do Muse, a primeira plataforma nativa de inteligência artificial da Sanofi dedicada ao recrutamento de doentes para ensaios clínicos. O recrutamento é um dos maiores desafios da indústria, tradicionalmente lento e manual. Com o Muse, transformamos este processo: reduzimos prazos de meses para minutos, aumentamos a diversidade dos participantes e encurtamos o tempo entre a descoberta científica e a chegada dos medicamentos ao doente.

O impacto é real – conseguimos reduzir o tempo de recrutamento em até dois meses, temos potencial para reduzir custos com materiais e, sobretudo, alcançamos populações historicamente sub-representadas, fechando lacunas nos cuidados de saúde.

Desenvolvido em parceria com a Formation Bio e a OpenAI, este projecto reflecte a nossa ambição de reduzir para metade o tempo entre descoberta científica e terapêutica para o doente.

Na produção, a inteligência artificial também desempenha um papel essencial, ajudando-nos a optimizar processos e ir além da simples automatização ou robotização. Cerca de 25% dos nossos colaboradores utilizam IA diariamente através de ferramentas internas que permitem aceder rapidamente a informação, relatórios financeiros, previsões de vendas ou de despesas. Tudo isto assenta na qualidade dos dados: a inteligência artificial só é eficaz se for alimentada com dados robustos e fiáveis.

É igualmente importante sublinhar que a utilização de inteligência artificial não compromete, de forma alguma, a transparência ou a segurança dos processos regulatórios – esses princípios não são negociáveis. Pelo contrário, a IA pode reforçá-los, permitindo analisar dados de forma mais rápida e eficiente, mantendo o rigor exigido na investigação clínica e protegendo os dados dos doentes.

Que mudanças concretas estão a ser implementadas para reduzir o impacto ambiental?

A Sanofi assumiu o compromisso de atingir a neutralidade carbónica nas suas operações até 2030, com uma meta intermediária de reduzir em 55% as emissões operacionais até essa data. Isto implica mudanças profundas em várias frentes.

Uma área fundamental é a inovação em embalagens sustentáveis. Até 2025, todos os novos tratamentos da Sanofi passam a ser concebidos de raiz com princípios de eco-design, reforçando uma abordagem de sustentabilidade “end-to-end” ao longo de todo o ciclo de vida do produto. Estamos a trabalhar com embalagens mais pequenas, menos cartonagem e menos papel, o que permite também transportar mais unidades por viagem, reduzindo emissões associadas ao transporte.

Outro eixo fundamental é a eliminação progressiva do plástico. A partir de 2027, as nossas vacinas deixarão de integrar plástico nas embalagens, recorrendo a materiais alternativos e a dispositivos reutilizáveis. Estamos a substituir materiais como o PVC por cartão, a redesenhar embalagens para que sejam mais pequenas e leves e a reduzir significativamente a quantidade de resíduos gerados. Estas medidas já permitiram reduzir em 53% as emissões de CO₂ e em 62% o consumo de água associados a alguns dos nossos principais medicamentos.

Embora Portugal não tenha unidades de produção da Sanofi, há um conjunto de medidas muito concretas ao nível da operação local. Um exemplo é a transição da frota automóvel de diesel para veículos eléctricos para a maioria dos colaboradores. Além disso, há um trabalho indirecto muito importante, ligado à educação ambiental e ao apoio a comunidades mais vulneráveis que frequentemente poluem mais por falta de infra-estruturas e alternativas.

Destaco ainda o Projecto Terra, que procura quantificar, com dados concretos, o impacto ambiental e económico das vacinas em Portugal. Entre as iniciativas analisadas estão a eliminação de blisters, a optimização do tamanho das embalagens e uma melhor previsão da procura de vacinas, alinhar a produção às necessidades reais, para evitar desperdício e reduzir de forma mensurável as emissões associadas. O nosso desafio futuro é alargar esta lógica a outros medicamentos e ajudar as entidades decisoras a tomar decisões mais informadas e a incluir critérios de sustentabilidade nos processos de aquisição.

Como garante a Sanofi uma cadeia de valor sustentável e que parcerias são fundamentais?

O nosso procurement é centralizado e existe uma preocupação crescente em trabalhar com fornecedores que partilhem a nossa visão e os nossos compromissos em matéria de sustentabilidade. Sabemos que este é um esforço colectivo e que a responsabilidade não se esgota na empresa, mas estende-se a toda a cadeia de valor. Estamos também a trabalhar para identificar melhorias nos actuais requisitos dos concursos públicos e quantificar de forma mais rigorosa o impacto ambiental associado.

O grande desafio surge sobretudo em países como Portugal, onde os concursos públicos continuam muito centrados no preço e nos prazos de entrega. Em alguns mercados, como o Reino Unido ou determinadas regiões de Espanha, já existem concursos que incluem critérios de sustentabilidade – o chamado green procurement. Em Portugal, esse caminho ainda está a dar os primeiros passos, e a Sanofi tem procurado trabalhar com as entidades competentes para promover essa mudança.

Em termos de parcerias estratégicas, destaco a colaboração com a Schneider Electric e a McLaren. A parceria com a Schneider Electric está focada na transição para energias renováveis para atingirmos o objectivo de operar com 100% de energias renováveis nas fábricas, tendo sempre em conta as especificidades de cada país.

A parceria com a McLaren Applied é muito mais do que tecnologia – é um símbolo da nossa ambição de liderar e transformar. Escolhemos unir forças com uma referência da Fórmula 1 porque partilhamos a mesma mentalidade: cada detalhe conta, cada decisão faz a diferença. Na pista, cada milissegundo é vital; na nossa missão, cada melhoria impacta vidas.

Essa visão levou-nos a adaptar metodologias de simulação e optimização da F1 para a indústria farmacêutica, trazendo para os nossos processos uma cultura de excelência e inovação sem limites.

Com esta colaboração, conseguimos algo extraordinário: simuladores que antes serviam para testar estratégias de corrida agora modelam linhas de produção farmacêutica, permitindo antecipar cenários e implementar mudanças com segurança e rapidez.

O impacto é real e humano: mais de 100 linhas optimizadas em sete países, tempos de paragem reduzidos em cerca de 50%, problemas previstos antes de acontecerem, menos desperdício e poupanças energéticas que contribuem para um futuro mais sustentável. Cada melhoria significa medicamentos que chegam mais rápido a quem precisa – e isso é o que nos move.

Hoje, esta parceria vai além da produção. Aplicamos esta tecnologia em áreas como marketing e previsões de vendas, tornando decisões mais inteligentes e ágeis em toda a organização. Tudo assente em três pilares que definem quem somos: excelência, dados e colaboração. Porque inovar não é apenas sobre máquinas ou algoritmos – é sobre pessoas, sobre liderar juntos e acelerar aprendizagens que nos aproximam do nosso propósito: perseguir os milagres da ciência para melhorar vidas.

Como se traduz todo este esforço em benefícios concretos para os doentes e o sistema de saúde?

Para o doente, o mais importante é ter acesso atempado a soluções eficazes, seja para tratar uma doença, seja para a prevenir. O grande desafio está muitas vezes nos sistemas de acesso. Em Portugal, continuamos a ser um dos países europeus com maior demora no acesso a terapêuticas inovadoras.

É fundamental olhar para o valor da inovação, não apenas em termos de custo, mas de resultados em saúde. Medicamentos inovadores melhoram a qualidade de vida, reduzem hospitalizações, evitam idas às urgências e permitem que as pessoas mantenham uma vida ativa, autónoma e produtiva. Tudo isto tem um impacto direto na sustentabilidade da saúde, do ambiente, da sociedade e da economia.

Ao reduzir hospitalizações evitáveis e melhorar a prevenção, estas soluções contribuem também para diminuir a pegada ambiental associada aos cuidados de saúde. Quando todos – empresas, governos e sociedade – partilham esta visão, criamos um ciclo virtuoso que gera impacto positivo duradouro.

A Sanofi está, de forma continuada e consistente, a procurar transformar os desafios do ambiente na saúde em oportunidades para criar valor para todos. Com uma abordagem integrada que une inovação tecnológica, responsabilidade ambiental e impacto social, estamos a construir um ciclo virtuoso que melhora o acesso aos cuidados, reforça a resiliência dos sistemas de saúde e protege o planeta. Porque acreditamos que cuidar das pessoas e cuidar do mundo são missões inseparáveis – e é assim que lideramos o futuro da saúde.




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