“Ser um dos 100 melhores profissionais da minha área representa duas décadas de dedicação”, Manuel Machado Carneiro, diretor-geral Sheraton Cascais

EntrevistaNotícias
Sandra M. Pinto
16/01/2026
10:00
EntrevistaNotícias
Sandra M. Pinto
16/01/2026
10:00


Partilhar

Reconhecido como um dos 100 melhores gestores hoteleiros do mundo em 2025, Manuel Machado Carneiro destaca-se como uma das figuras mais relevantes da nova geração de líderes da hotelaria de luxo. Diretor-Geral do Sheraton Cascais Resort, assume uma carreira construída entre projetos internacionais exigentes, experiências em mercados altamente competitivos e uma visão estratégica que cruza inovação, sustentabilidade e gestão de pessoas. Aos 37 anos, lidera uma das unidades de referência do segmento de luxo em Portugal, num percurso marcado pela abertura de conceitos pioneiros, pela valorização do talento humano e por uma abordagem integrada à gestão hoteleira.

Por Sandra M. Pinto

Nesta entrevista, partilha a sua visão sobre liderança, os desafios da hotelaria contemporânea e o futuro do setor, num momento em que Portugal reforça a sua posição no panorama internacional da hospitalidade.

Como se sente ao ser reconhecido como um dos 100 melhores gestores hoteleiros do mundo em 2025?
Ser distinguido como um dos 100 melhores gestores hoteleiros do mundo representa um marco profundamente significativo na minha carreira. Ser reconhecido aos 37 anos implica, necessariamente, que algo de verdadeiramente relevante foi construído ao longo do caminho. No fundo, esta distinção é o reflexo de quase duas décadas de dedicação, de esforço contínuo, mas, acima de tudo, de um trabalho desenvolvido em conjunto com várias equipas extraordinárias.
Acredito firmemente que qualquer reconhecimento individual só é possível através de um trabalho coletivo sólido, consistente e alinhado por uma visão comum. A nível pessoal, esta distinção tem também um significado muito especial, uma vez que a hotelaria é uma área que, muitas vezes, nos mantém fisicamente afastados da família. Por isso, este reconhecimento simboliza igualmente todo o esforço pessoal que essa escolha profissional implica, as responsabilidades acrescidas que acarreta e, sobretudo, o apoio incondicional da minha família ao longo destes anos, sem o qual nada disto seria possível.

Que valores e princípios de liderança considera essenciais para alcançar resultados sustentáveis no setor da hotelaria de luxo?
Para mim, a liderança assenta numa base de investimento contínuo no desenvolvimento de projetos, na evolução tecnológica, na modernização de infraestruturas e sobretudo no desenvolvimento das pessoas, que são o verdadeiro alicerce do setor hoteleiro.
Acredito numa visão holística da gestão através da qual é possível, e necessário, equilibrar o impacto económico com a responsabilidade ambiental e social. Projetos desta natureza só são verdadeiramente sustentáveis quando conseguem gerar valor a longo prazo, respeitando o meio envolvente, promovendo o bem-estar das equipas e criando experiências autênticas e memoráveis para os hóspedes.

Qual considera ter sido o principal fator de sucesso na sua integração e liderança do Sheraton Cascais Resort?
O sucesso da integração e liderança no Sheraton Cascais Resort resulta de uma abordagem integrada, que alia de forma equilibrada as vertentes comercial, financeira, operacional e de recursos humanos. Acredito numa gestão transversal, capaz de implementar estratégias com impacto imediato, sem nunca perder de vista a sustentabilidade a médio e longo prazo.
Este modelo exige rigor, consistência e uma forte cultura de equipa. Este ano, o Sheraton Cascais resort alcançou cerca de 20 nomeações para prémios internacionais, arrecadando quase metade dessas distinções. Este reconhecimento externo é a prova do extraordinário trabalho em equipa e da excelência dos profissionais que integram a hotelaria nacional.

De que forma a sua experiência internacional, incluindo projetos no Dubai e em restaurantes Michelin, influencia a gestão do Sheraton Cascais Resort?
A experiência internacional permitiu-me adquirir uma visão muito mais abrangente do negócio e dos seus múltiplos desafios. Os mercados são profundamente distintos entre si e trabalhar em contextos tão diversos, como o Dubai, com equipas de mais de 36 nacionalidades, proporciona uma compreensão mais profunda da gestão intercultural e dos recursos humanos.
Essa vivência reforçou em mim uma liderança assente no desenvolvimento contínuo das equipas, no crescimento individual das pessoas e na criação de ambientes de trabalho inclusivos e motivadores. A hotelaria é um setor em permanente evolução e a experiência internacional oferece-nos um contacto direto com realidades mais e menos estruturadas, capacitando-nos para atuar com eficácia em diferentes contextos e ambientes laborais.

Como consegue equilibrar a excelência operacional com a inovação em serviços e experiências para os hóspedes?
A inovação está hoje intimamente ligada ao desenvolvimento da excelência no serviço. Os atuais equipamentos e soluções baseadas em Inteligência Artificial permitem automatizar processos operacionais, libertando os recursos humanos para tarefas de maior valor acrescentado e contacto direto com o cliente. Este avanço tecnológico possibilita também uma visão mais detalhada e um conhecimento mais profundo dos nossos hóspedes, permitindo elevar a excelência da hospitalidade e desenvolver mecânicas de serviço mais sofisticadas e personalizadas. Desta forma, a tecnologia torna-se uma aliada estratégica das equipas, potenciando a capacidade humana de criar experiências únicas, diferenciadoras e verdadeiramente memoráveis para cada cliente.

Que estratégias utiliza para motivar e desenvolver equipas de alto desempenho na hotelaria de luxo?
A estratégia assenta na formação e capacitação contínua dos recursos humanos, aliadas à integração do desenvolvimento tecnológico e de ferramentas de inteligência artificial que permitam elevar o nível de personalização da experiência do cliente. Acredito que equipas bem preparadas, com acesso a conhecimento atualizado e a ferramentas adequadas, sentem-se naturalmente mais motivadas e envolvidas nos objetivos de cada projeto.
Tendo gerido equipas multiculturais de grande dimensão, procuro uma liderança inclusiva, próxima e atenta ao detalhe, onde o rigor, o planeamento estratégico e o investimento estruturado em infraestruturas assumem um papel central. O desenvolvimento de novos projetos é igualmente essencial para manter as equipas motivadas, desafiadas e focadas numa lógica de melhoria contínua e de evolução constante.
Neste processo, a integração do rigor financeiro é frequentemente o verdadeiro motor de sucesso, pois garante que as ideias e iniciativas são sustentáveis, exequíveis e geradoras de valor a longo prazo, tanto para o negócio como para as pessoas que o constroem diariamente.

Quais foram os maiores desafios que enfrentou na abertura de novos outlets e conceitos inovadores, como rooftops ou co-living em Portugal?
As aberturas são, por natureza, sempre um grande desafio. No caso de projetos como a Selina e a LIV Student, esse desafio foi ainda maior, uma vez que se tratava de marcas que não existiam, respetivamente, na Europa e na Península Ibérica. A implementação de uma marca desconhecida junto do mercado-alvo exige um esforço acrescido de posicionamento, comunicação e criação de notoriedade.
A maior parte dos desafios surgiram nos projetos de construção. No caso da LIV Student, tivemos a oportunidade de desenvolver um projeto desde o zero, partindo apenas de um terreno, o que permitiu desenhar toda a construção com base nas perspetivas operacionais e comerciais do negócio. Esse processo incluiu a implementação de ferramentas de gestão operacional, a contratação de equipas, bem como o desenvolvimento de estratégias comerciais e de marketing para a divulgação do projeto.
No segmento do co-living e do PBSA, este foi um projeto particularmente exigente, tendo em conta que se tratava de um dos primeiros do género em território nacional. Já na Selina, enfrentámos o desafio de mais de cinco aberturas num período de cerca de dois anos, abrangendo projetos hoteleiros e de co-working. Todo o desenvolvimento dos espaços, bem como a criação e gestão de equipas multidisciplinares para a implementação destes negócios em Portugal, permitiu-me adquirir uma perspetiva ainda mais abrangente, não apenas na área da hospitalidade, mas também nos domínios do real estate e da construção.

De que forma antecipa tendências no mercado da hotelaria de luxo, e como isso se reflete na experiência do hóspede?
Acredito que a hotelaria de luxo continuará a evoluir, sobretudo ao nível da personalização dos serviços. Os avanços tecnológicos e, em particular, a inteligência artificial, colocam hoje à nossa disposição ferramentas que nos permitem conhecer de forma muito mais aprofundada o perfil do cliente, as suas necessidades, preferências e expectativas.
Este desenvolvimento tecnológico permitirá não só antecipar comportamentos como criar experiências mais ajustadas e relevantes. Vejo igualmente um futuro marcado pela criação de espaços multifuncionais, flexíveis e adaptáveis às necessidades de cada hóspede, bem como por uma capacidade de resposta cada vez mais rápida e eficiente. No fundo, a tecnologia será um facilitador de experiências mais fluidas, intuitivas e personalizadas, reforçando a perceção de valor e exclusividade.

Como se diferencia o Sheraton Cascais Resort da concorrência em termos de serviço, experiência e posicionamento de marca?
O Sheraton Cascais Resort diferencia-se, desde logo, pela singularidade dos seus espaços. Falamos de um verdadeiro oásis localizado na Quinta da Marinha, envolvido por uma vasta área verde e com uma proximidade ao mar que lhe confere uma identidade única.
Ao longo de 2025, iniciámos o desenvolvimento e a implementação de estratégias operacionais focadas numa experiência cada vez mais personalizada, desde o momento da reserva até ao check-out. Paralelamente, continuámos a investir de forma consistente na renovação das infraestruturas, com destaque para o início da renovação integral do Active Gym, a modernização do sistema de Wi-Fi em todo o resort e a renovação da fachada, também iniciada nesse ano.
Para 2026, estão previstos diversos novos projetos estratégicos, incluindo o rebranding de algumas unidades e a renovação de espaços dedicados à saúde e bem-estar, reforçando o posicionamento do resort como uma referência no segmento do luxo contemporâneo.

Qual é o papel de projetos inovadores, como PPSA e co-living, na estratégia global do grupo Sheraton e na hotelaria portuguesa?
Estamos a falar de projetos distintos, embora coincidentes na sua base de negócio ao nível do alojamento. Acredito que o desenvolvimento de conceitos como co-living, PBSA e senior living, contribui de forma decisiva para a modernização da hotelaria de luxo em Portugal, diferenciando um modelo de negócio tradicionalmente hoteleiro, que hoje é muito mais diversificado e híbrido.
Observamos uma aposta crescente em branded residences e na possibilidade de viver em espaços de resort onde uma ampla gama de serviços é integrada no quotidiano. Estes novos modelos ajudam a responder a diferentes necessidades, desde estadias de curta duração, média permanência ou de residência permanente, sempre associadas aos padrões de serviço, conforto e experiência próprios da hotelaria de luxo.

Considera que esta distinção internacional contribui para reforçar a reputação da hotelaria portuguesa a nível global?
Todo o tipo de distinções internacionais contribui para reforçar o estatuto da hotelaria portuguesa no panorama global. Hoje, Portugal compete ao mais alto nível mundial neste setor, com projetos inovadores, equipas altamente qualificadas e uma capacidade de adaptação notável às novas tendências do mercado.
Somos um país criativo, resiliente e cada vez mais atrativo para o investimento externo, não apenas pela qualidade da nossa oferta, mas também pela competência ao nível da gestão. O reconhecimento internacional da liderança portuguesa na hotelaria reforça essa reputação e consolida a nossa posição como um dos destinos mais relevantes e respeitados a nível global, criando condições para um crescimento sustentado e contínuo no futuro.

Que conselhos daria a jovens profissionais que aspiram a cargos de liderança no setor da hotelaria de luxo?
O meu conselho parte muito daquilo que foi o meu próprio percurso profissional. Que definam os seus objetivos, que sejam resilientes e que se inspirem nos melhores. Sonha alto. Trabalha com humildade. Serve com propósito, seja qual for o teu cargo, sê extraordinário nele. A grandeza não está no título, mas no impacto que deixamos nas pessoas, nas comunidades e nas próprias empresas. A hotelaria precisa de jovens que não procurem apenas um emprego, mas uma forma personalizada de servir, liderar e transformar.
Quando escolhemos cuidar bem de alguém longe de casa, estamos a construir pontes entre culturas, a criar confiança onde há desconhecidos e a provar que o sucesso também pode ser humano. Sonha alto. Trabalha com humildade. Serve com propósito.
É essencial que os jovens se conheçam, que compreendam quem são e qual o seu propósito. A hotelaria é um setor profundamente ligado às pessoas e exige uma enorme entrega pessoal.
Temos a responsabilidade de estar próximos das comunidades locais, de contribuir para uma sociedade mais equilibrada e de integrar o desenvolvimento económico e tecnológico que hoje caracteriza o setor. Essa evolução cria oportunidades únicas de conexão, aprendizagem e crescimento.
Costumo dizer que somos o reflexo do nosso passado e do nosso presente, e que tudo aquilo que fazemos hoje terá, inevitavelmente, impacto naquilo que seremos amanhã. Liderar é assumir essa responsabilidade com consciência, consistência e propósito.

Olhando para o futuro, quais são os próximos objetivos estratégicos que pretende implementar no Sheraton Cascais Resort e no seu percurso profissional?
No Sheraton Cascais Resort, o futuro passa por uma visão de evolução contínua. Para 2026, temos vários projetos estratégicos já definidos, nomeadamente a renovação de estruturas como a fachada, o desenvolvimento de novos espaços exteriores orientados para o wellness, o rebranding de alguns outlets e a renovação parcial de quartos.
Paralelamente, existe um forte foco na digitalização eficiente, com recurso a soluções de inteligência artificial, bem como na consolidação de práticas ESG que garantam um crescimento equilibrado, responsável e sustentável. Estamos, inclusivamente, a integrar projetos-piloto que utilizam tecnologia para criar uma maior proximidade e interação com o cliente, reforçando a personalização da experiência.
A nível profissional, o meu objetivo passa por consolidar o crescimento desta propriedade, tanto a nível nacional como internacional, e por contribuir ativamente para o desenvolvimento do enorme talento humano que temos internamente. Acredito que muitos destes profissionais farão, num futuro próximo, parte de estruturas de gestão internacional e esse é um dos meus principais propósitos a nível profissional.




Notícias Relacionadas

Ver Mais