Quando a marca vale mais do que o produto: o legado de Buffett

OpiniãoNotícias
Marketeer
29/11/2025
20:03
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Opinião de Daniel Rocha, especialista em Investimentos, Economia e Geopolítica

Nos próximos anos, quando olharmos para trás, talvez percebamos que a saída de Warren Buffett do comando da Berkshire Hathaway marcou mais do que uma simples transição empresarial. Foi o fecho silencioso de uma era e o início de outra. Uma era em que as marcas não são apenas parte de uma estratégia de marketing, mas o próprio coração do valor económico das empresas. Buffett percebeu isto antes de quase toda a gente, e tornou-o um princípio de investimento.



Sempre me fascinou a forma como o “Oráculo de Omaha” fala de marcas. Ele não as vê como um logotipo elegante, nem como uma campanha bem conseguida. Vê-as como um ativo vivo, um organismo cultural que se entranha na sociedade, nos hábitos, nas conversas, nas memórias. É por isso que, ao contrário de muitos investidores obcecados com resultados trimestrais, Buffett sempre procurou negócios que tivessem algo mais difícil de medir: significado.

Coca-Cola. Apple. Mastercard. Não são apenas empresas, são símbolos. São parte da rotina e da cultura global. São referências que atravessam gerações, geografias e crises. É aí que entra a ponte perfeita entre marketing e investimento: o valor que uma marca representa supera em muito o produto que vende.

Em finanças, chamamos a isto “ativo intangível”, mas a palavra é ingrata. Intangível dá a ideia de algo vago. Quando falamos de marca, estamos a falar de algo muito real: a capacidade de influenciar comportamentos, de condicionar escolhas, de moldar perceções. Isso é poder económico.

Um investidor procura empresas capazes de manter margem, mesmo em tempos difíceis. Um profissional de marketing procura marcas capazes de manter relevância, mesmo quando o mercado muda. Na verdade, falam de coisas muito semelhantes.

Buffett chamava-lhe pricing power, o poder de uma marca continuar a vender, mesmo quando aumenta o preço. Isso não nasce de um produto, nasce de uma relação emocional, criada ao longo de décadas. Nasce da confiança, do reconhecimento imediato, da promessa consistente, e nasce, sobretudo, da capacidade de uma marca não ser esquecida.

No fundo, aquilo que o marketing constrói é exatamente aquilo que os melhores investidores valorizam. O que muda é apenas a lente.

 

Coca-Cola, Apple, Mastercard: três marcas, três formas de conquistar cultura

Existem marcas que vendem produtos e depois existem marcas que vendem presença. Buffett teve o génio de distinguir estas duas categorias com uma clareza quase desconcertante.

Coca-Cola: quando o produto se dissolve e fica a cultura

A Coca-Cola é provavelmente a marca mais transversal da História. Não é só o sabor, é o que representa. Um estilo de vida, uma memória coletiva, uma presença quase arquetípica no imaginário global. Buffett entendeu que, enquanto existirem momentos de celebração,

existirá Coca-Cola. É uma marca que transcende o mercado. É cultura, e cultura não entra em queda-livre quando existe uma crise económica.

Apple: a marca que transformou tecnologia em identidade

A Apple é o melhor exemplo moderno de como uma marca pode ser mais forte do que qualquer especificação técnica. Não é sobre megapixeis, é sobre pertença. É sobre simplicidade, estética, estatuto, comunidade. Quando uma marca se transforma numa extensão da identidade do consumidor, não é apenas marketing, é comportamento humano, e comportamento é previsível. Investimento também.

Mastercard: a marca invisível que está em todo o lado

Ao contrário da Apple ou da Coca-Cola, a Mastercard não vive da emoção imediata. Vive da infraestrutura invisível, que permite que o mundo continue a funcionar. É uma marca silenciosa, mas indispensável, e se há algo que os investidores procuram, é indispensabilidade.

Estes três casos mostram uma verdade simples: Quando a marca molda hábitos, ela gera valor económico sustentável.

O que as marcas portuguesas podem aprender com isto

Portugal tem marcas extraordinárias. Algumas com história, outras com ambição global, outras ainda com potencial para muito mais, mas falta, por vezes, esta visão de longo prazo: perceber que a marca não é um departamento, nem uma campanha, é um ativo estratégico.

O grande erro que muitas empresas portuguesas cometem, é olhar para a marca como algo “visual”. Um exercício de estética. Quando, na verdade, a marca é uma promessa, e quanto mais forte for essa promessa, mais resistente é o negócio.

As marcas portuguesas que irão liderar a próxima década serão aquelas que compreenderem três pontos:

1. A Consistência é mais valiosa do que genialidade.

Não são as campanhas virais que constroem marcas, é a disciplina. É o tom consistente. É a coerência ao longo dos anos.

2. Cultura bate criatividade.

As marcas que sobrevivem são as que refletem comportamentos reais. A Coca-Cola não inventou o Natal, mas soube colocar-se no centro dele.

3. Valor não vem de produtos, vem de significados.

Quando uma marca representa algo maior do que aquilo que vende, deixa de ser vulnerável à concorrência.

Buffett sai, mas as marcas fortes ficam, e o futuro pertence a quem entender esta verdade. A saída de Warren Buffett marca simbolicamente o fim de uma era, mas deixa lições que continuam atuais e urgentes. No centro dessas lições está esta ideia poderosa: as marcas são investimentos.

Não investimentos financeiros apenas, mas investimentos culturais. Investimentos na relação com as pessoas. Investimentos na construção de algo que não pode ser copiado de um dia para o outro.

Se há algo que aprendi ao longo dos anos é que, no mundo dos negócios e dos mercados, não é a tecnologia que resiste ao tempo. São as marcas que conquistam significado. O produto muda. A sociedade muda, mas a marca que toca cultura permanece.

Neste ponto, o marketing e o investimento encontram-se de forma perfeita. Ambos procuram a mesma coisa: valor que perdura. A diferença é simples: o marketing constrói-o, o investimento reconhece-o.

Talvez seja precisamente nesta intersecção, entre estratégia, emoção e valor, que viverá o futuro das grandes marcas, em Portugal e no mundo.

 

 




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