Publicidade subvertida: o “Banksy da fast food” ataca de novo

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Marketeer
03/09/2025
10:53
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De colete refletor vestido e armado apenas com uma chave allen, um artista anónimo tem vindo a intervir, de forma subtil mas incisiva, em cartazes publicitários de comida rápida espalhados por várias cidades. O objetivo? Questionar o consumo desenfreado e subverter a linguagem da publicidade tradicional, tudo isto em plena luz do dia, revela The Drum.

Embora não seja possível revelar a identidade do entrevistado, The Drum avança que o seu trabalho fala por si. “Ao longo dos últimos três anos, tem transformado a paisagem urbana com intervenções que desafiam diretamente marcas globais, com particular foco na McDonald’s. A sua abordagem — uma mistura de sátira, ativismo e design gráfico, posiciona-o como uma espécie de “Banksy da fast food”, embora o próprio recuse essa comparação direta”, escreve The Drum.

“O meu pai fazia parte de uma banda punk e cresci num ambiente muito avesso à autoridade”, explica. “Nunca foi sobre quebrar a lei, mas sim sobre fazer um gesto simbólico de resistência.” A primeira intervenção aconteceu quase por acaso. “Ia a caminho das compras quando me deparei com um enorme billboard cheio de anúncios da McDonald’s e jogos de apostas. Pensei: ‘Já chega disto’. Fui a casa, voltei com uma caneta e escrevi algo por cima.” A reação do público foi imediata, riram-se, partilharam, e isso bastou para o motivar a continuar.

Com o tempo, as intervenções passaram dos murais para os abrigos de autocarro. Recusa-se a vandalizar o espaço público, pelo que adotou uma abordagem mais meticulosa: aprendeu a abrir cuidadosamente os suportes publicitários com uma chave allen, retira o cartaz, leva-o para casa, redesenha-o com uma nova mensagem crítica  e volta a colocá-lo no mesmo sítio.

Curiosamente, tudo isto acontece durante o dia. “O humorista e ativista Mark Thomas dizia que basta um colete refletor e uma prancheta para se passar despercebido. Funciona. As pessoas assumem que estás a trabalhar para a câmara.”

Uma das suas peças mais recentes transformou a frase promocional do hambúrguer Big Arch em “Big Arse”, uma piada visual simples, mas eficaz, que atraiu atenção tanto nas redes sociais como na imprensa especializada. Até ao momento, a McDonald’s nunca reagiu oficialmente às intervenções.

Parte do impulso por detrás deste trabalho está ligado ao sentimento de impotência face ao poder das grandes marcas. “Percebi que muitas pessoas se reveem nas mensagens. Sentem-se sobrecarregadas por campanhas agressivas de consumo. Estas pequenas intervenções tornam-se quase libertadoras.”

A inspiração vem, em parte, do colectivo Brandalism, um grupo de artistas ativistas criado no Reino Unido em 2012, conhecido por usar técnicas de “subvertising”, uma forma de protesto visual que deturpa a linguagem visual da publicidade para criticar consumismo, alterações climáticas e corporativismo. “Admiro muito o que fazem. É uma arte de guerrilha visual que consegue ser hilariante e grotesca ao mesmo tempo.”

O artista impôs-se uma regra inicial: nada de palavrões. “Mas às vezes, certas mensagens pedem mesmo uma palavra mais forte… e aí abro uma exceção.”

Uma das referências que mais o marcou foi o caso “McLibel”, um processo judicial iniciado pela McDonald’s contra dois ativistas ambientais, Helen Steel e Dave Morris, que distribuíram panfletos a denunciar as práticas da cadeia de fast food. O caso, que se tornou no julgamento mais longo da história do Reino Unido, destacou a disparidade entre cidadãos comuns e corporações com meios praticamente ilimitados.

Apesar da crítica, o artista não é anti-publicidade. “Há anúncios que são úteis, relevantes e até bonitos. Mas há um excesso, uma intromissão constante. E essa saturação é que me leva à ação direta. Não se trata de violência ou destruição, trata-se de equilíbrio. As marcas não vão sofrer por perder meia dúzia de cartazes.”

Até à data, já interveio em cerca de 40 painéis publicitários e não tem planos para abrandar. “Vivemos rodeados de mensagens a dizer-nos o que comer, o que comprar, como viver. Se podemos rir-nos disso, questionar, ou pelo menos provocar uma pausa, então vale a pena.”




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