Por Paulo Silva, CEO da New Sheet
Há algo de extraordinário quando um evento deixa de ser apenas entretenimento e passa a ser um ritual coletivo. Quando deixa de ser produto e se torna parte da identidade de um lugar. É aqui que entra o verdadeiro poder do placemaking. Mais do que planeamento urbano, é arte, é empatia, é cultura viva.
Confesso que nunca fui grande fã de palavras caras. Mas há uma que me agarrou e ficou: placemaking. Pode soar a buzzword saída de uma reunião cheia de PowerPoints e termos técnicos. Mas para mim é mais simples: é dar ou devolver a alma a um lugar. Criar algo que não se copia, que não se vende em pacote, que não se importa de fora. É fazer com que um sítio (qualquer sítio), se torne memorável, não pelo palco ou pelo cartaz, mas pelas pessoas que o vivem.
O placemaking, ou “criação de lugares”, vai além da construção física. É uma abordagem colaborativa que transforma espaços públicos em locais de pertença. Junta vizinhos, ativa memórias, cria ligações, transforma a paisagem emocional de uma cidade.
Quando lancei a Revenge of the 90s, muitos viram aquilo como apenas mais uma festa. Mas a verdade é que, desde o início, o que me movia não era o cartaz nem o bar. Era a criação de um ritual contemporâneo. De uma experiência com memória emocional. Um momento de pertença. Um sítio onde as pessoas se reencontrassem com a sua juventude, com os amigos, com um tempo em que as coisas pareciam mais simples e mais próximas. E foi isso que tornou a ideia mais forte do que o próprio conceito. Era um evento, sim, mas era também um lugar emocional. Um espaço comum.
Se conseguimos isso numa pista de dança, por que não numa praça, numa aldeia, numa cidade inteira?
Vivemos numa era de aceleração digital, em que estamos mais ligados e, ao mesmo tempo, mais isolados do que nunca. E é aqui que nasce a necessidade de um “quarto espaço”, que não é casa, nem trabalho, nem um centro comercial. É um lugar de comunidade. De reencontro. De identidade. Onde a cidade se encontra consigo mesma, onde as pessoas se reconhecem umas às outras e a si próprias.
O erro é pensarmos que precisamos de importar modelos ou imitar o que se faz lá fora. Não precisamos de mais festivais clonados, nem de artistas estrangeiros só para parecer bem. Precisamos de eventos com ADN local. Que digam com orgulho: “Isto só podia acontecer aqui.”
As câmaras municipais, as freguesias, as associações locais têm hoje uma oportunidade de ouro. Não para gastar mais, mas para investir melhor. Não é uma questão de orçamento, é uma questão de visão. De ouvir quem vive os lugares todos os dias. A cidade não se constrói em gabinetes. Constrói-se nas ruas, nos mercados, nas praças e nos pátios. É lá que nascem os verdadeiros eventos. Aqueles que não se apagam na memória.
Um Festival do Arroz Doce numa aldeia pode parecer banal. Mas se mobiliza a população, se traz os netos de volta, se transforma o doce numa marca identitária… então não é só um festival. É um símbolo. Um ponto de encontro entre passado e futuro.
As pessoas não querem só divertir-se. Querem sentir que pertencem. Querem fazer parte de algo maior. Querem sentir que a sua história conta. E isto acontece quando um evento é construído com verdade, talento local e sentido de missão.
A cidade que consegue contar a sua própria história, com a sua própria voz, é a cidade onde dá vontade de ficar. De investir. De viver.
E esse, para mim, é o melhor marketing territorial que existe.














