À medida que as ondas de calor se tornam cada vez mais frequentes e intensas, os riscos associados ao uso de certos medicamentos ganham uma nova dimensão. Muitos compostos, frequentemente tomados de forma habitual ou por automedicação, podem interferir com a capacidade natural do corpo para lidar com o calor, agravando o risco de desidratação, lesões renais e até golpes de calor.
Durante uma vaga de calor, o corpo humano ativa os seus mecanismos de termorregulação para manter uma temperatura estável, geralmente em torno dos 37 ºC. Este processo envolve a dilatação dos vasos sanguíneos e a transpiração. Mas se esses mecanismos falharem, devido ao clima ou a fatores externos como a medicação, o organismo entra em colapso. As consequências podem ser sérias: dores de cabeça, náuseas, insuficiência renal ou hepática.
Segundo a Agência Nacional de Segurança do Medicamento de França (ANSM), vários fármacos podem comprometer a capacidade do corpo para lidar com o calor e muitos são de uso comum em doenças como diabetes, hipertensão ou epilepsia.
Em situações de calor extremo, a automedicação pode revelar-se especialmente perigosa. Medicamentos para o alívio da dor, constipações, alergias ou insónia, muitos deles adquiridos sem receita médica, podem agravar os efeitos do calor sobre o corpo.
Por exemplo:
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Analgésicos como a aspirina, ibuprofeno ou cetoprofeno podem afetar negativamente o funcionamento dos rins.
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O paracetamol (Doliprane/Panadol), embora popular, é ineficaz contra os efeitos de um golpe de calor e pode agravar danos hepáticos, especialmente em casos de desidratação.
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Medicamentos para constipações com pseudoefedrina, como o Actifed ou Dolirhume (em Portugal ainda acessíveis sem receita), impedem a vasodilatação cutânea, dificultando a libertação de calor.
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Mesmo descongestionantes nasais com vasoconstritores podem ter impacto negativo na termorregulação.
Os anti histamínicos de segunda geração, normalmente utilizados para tratar alergias sazonais, têm menos impacto na transpiração, mas ainda podem provocar sonolência e diminuir a sensação de sede, o que agrava a desidratação.
Mais problemáticos são:
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Xaropes para a tosse com oxomemazina (ex: Toplexil), que reduzem a transpiração;
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Medicamentos para insónias como a doxilamina (Donormyl);
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Antieméticos como a metopimazina (ex: Vogalib, Vogalène), também disponíveis sem receita.
Estes compostos interferem com os mecanismos naturais de arrefecimento do organismo, um problema especialmente relevante para idosos, pessoas com doenças crónicas ou expostas a ambientes muito quentes.
Outra categoria que merece atenção é a dos laxantes e produtos diuréticos, incluindo suplementos com alegados efeitos adelgaçantes. Estes potenciam a perda de água, podendo conduzir a desidratação rápida em contextos de calor.














