Está fechada a época de festivais de Verão de 2024 para a Access Lab. NOS Alive, MEO Marés Vivas e Festival da Comida Continente foram os três grandes festivais que ao longo do mês de Julho colocaram em evidência o trabalho feito em conjunto com a Access Lab ao longo dos últimos meses no que respeita ao tema da acessibilidade e que, em alguns casos, vai além da presença nos eventos.
Em conversa com a Marketeer, Tiago Fortuna, co-fundador da Access Lab – startup que pretende mudar o paradigma da acessibilidade em Portugal, criando pontes entre marcas, eventos, organizações e a comunidade de pessoas com deficiência e surdas -, faz um balanço do porquê das marcas continuarem com este investimento em responsabilidade social e como é que as mesmas asseguram que é sustentável.
Como tem evoluído a presença da Access Lab nos festivais portugueses e o que representa esta abertura crescente do sector?

Tem sido um crescendo. Continuamos a crescer, com muitos desafios, mas a conseguir trazer mais questões, mais comunidades para o centro dos eventos. Isso é muito importante e faz-nos sentir que o trabalho vale a pena. Começámos com eventos de uma escala menor, sempre com questões de comunicação, Língua Gestual Portuguesa e bilheteira, para hoje termos mais serviços e dimensões associadas – agora temos também coletes sensoriais para pessoas surdas, soluções tecnológicas para várias comunidades, salas de pausa e apoio para a neurodivergência.
Que impacto concreto teve a parceria com cada uma das marcas nos festivais de 2025 na experiência dos festivaleiros com necessidades específicas?
Todos os festivais foram diferentes com impactos muito positivos. Com a NOS, além de repetir a experiência do Colete das Emoções, de 2024, pilotámos um concerto com audiodescrição para pessoas com deficiência visual, numa app criada pela NOS inovação através do 5G e a marca ainda testou a sua app guia NOS. Foi muito positivo e trouxe visibilidade para uma comunidade excluída do território dos festivais como a comunidade cega. Com o Continente fizemos um ano 0 no Festival da Comida Continente, num espaço que acolhe 250 mil pessoas num único fim-de-semana. Foi preciso verificar todas as infra-estruturas e ajustá-las para que a experiência fosse mais confortável; criámos guias de transporte e materiais de comunicação acessível; promovemos sinalética; sensibilização das equipas; e língua gestual em concertos e showcookings. Agora, estamos a analisar tudo o que aconteceu através de consultores para propor melhorias para 2026. Por último, no MEO Marés Vivas, demos continuidade a um posicionamento da marca e Fundação MEO foi lançado em 2024. Partimos do trabalho na música para agora também existir mais atenção em áreas como o cinema e as próprias lojas da rede MEO. É um festival onde temos vindo a investir na comunidade com neurodivergência, além do trabalho que já fazemos com as restantes comunidades.
De que forma as marcas estão a contribuir, além do financiamento, para tornar os festivais mais inclusivos?
As marcas, ao nosso lado, estão a ser o verdadeiro motor desta evolução. É uma tomada de posição muito importante, muito forte e que deve ser acompanhada de muita responsabilidade, institucional e para com as comunidades. As marcas, quando dedicadas, conseguem alocar recursos (i.e. tecnológicos, de comunicação e humanos) para que a operação de acessibilidade seja bem sucedida. Há uma evolução grande no propósito das marcas, pelo menos das que conhecemos e com quem trabalhamos, para fazer activações e campanhas de comunicação com um significado maior e mais relevante. E isso também traz maior retorno. É um win-win.
Que critérios ou condições são fundamentais para que um festival seja considerado verdadeiramente acessível?
A comunicação precisa de ser acessível, os percursos precisam de contemplar pessoas com deficiência, a programação precisa de ser acessível (por exemplo com coletes, língua gestual e audiodescrição). Além disso é preciso uniformizar o mercado português em políticas de bilheteira. A ministra da Cultura, este ano, no RFM Sem Olhar a Quem disse que é “preciso generalizar o bilhete de acompanhante”. Foi uma intervenção que acolhemos com muito agrado, porque sem esta medida transversal vamos ter sempre a vida dificultada e, quando ultrapassarmos essa barreira, em todos os eventos, vamos ter um mercado diferente.
Como é feita a formação das equipas dos festivais para garantir uma abordagem inclusiva e empática?
A formação acaba por funcionar em cascata. Procuramos fazer sessões de formação para equipas core e depois brifar equipas de terreno, falar com essas pessoas, dar-lhes recursos didáctico para que as suas interacções promovam a inclusão. É um trabalho gradual, de persistência.
Que desafios ainda persistem na implementação de medidas de acessibilidade em grande escala?
Sem dúvida que o bilhete de acompanhante é a questão mais premente como referi. Questões orçamentais também são muito significativas, porque impactam o facto de fazermos uma acção mais robusta por um dia ou três dias.
Como vê o futuro da inclusão nos eventos culturais em Portugal e que papel a Access Lab ambiciona desempenhar?
Com muito entusiasmo. Sentimos uma evolução grande entre todos os stakeholders envolvidos e queremos criar um caminho sem retorno, em que não seja possível a ninguém recuar – promotores, marcas e público. Continuará a ser desafiante, temos muito trabalho pela frente, mas começam a ver-se rostos diferentes, novos sorrisos e a conseguir visionar um futuro diferente.
Texto de Maria João Lima
*A jornalista escreve segundo o Antigo Acordo Ortográfico
Galeria NOS Alive
Galeria MEO Marés Vivas














