Distinguir-se no panorama internacional da sustentabilidade não é feito menor e a Corticeira Amorim já o fez por duas vezes. A empresa portuguesa, referência global no setor da cortiça, acaba de ser novamente reconhecida pela World Finance como líder na redução de carbono e sustentabilidade na indústria de produtos vínicos. Esta distinção reforça uma trajetória de mais de 15 anos a integrar práticas ESG em toda a sua cadeia de valor, da floresta ao produto final, com metas ambiciosas, inovação contínua e um claro compromisso com o futuro do planeta.
Por Sandra M. Pinto
Em entrevista à Marketeer, Cristina Rios de Amorim, administradora da Corticeira Amorim, com o pelouro da Sustentabilidade, explica como transforma um recurso natural único em motor de uma estratégia global de impacto positivo, fala dos projetos em curso, dos desafios e da visão para 2030. Um testemunho de como a sustentabilidade, quando é parte do ADN, deixa de ser promessa e passa a ser ação.
A Corticeira Amorim foi recentemente distinguida, pela segunda vez, pela World Finance na área da sustentabilidade. O que representa esta dupla distinção para a empresa?
A eleição da Corticeira Amorim como “Melhor Empresa na Redução de Carbono na Indústria de Produtos Vínicos” nos World Finance Carbon Awards 2024 e a distinção, pelo sexto ano, como a “Empresa Mais Sustentável na Indústria dos Produtos Vínicos” são um reconhecimento do trabalho contínuo que temos vindo a desenvolver desde 2006 para integrar a sustentabilidade em todas as dimensões da nossa atividade. Acreditamos que a liderança se exerce com responsabilidade e compromisso, e é com orgulho que vemos a nossa ação ser reconhecida internacionalmente.
Que critérios ou práticas destacaria como determinantes para esta nova conquista internacional?
Esta conquista internacional é o reflexo de uma estratégia de sustentabilidade sólida, transversal e baseada em práticas concretas e mensuráveis. Destacam-se os avanços significativos na redução das emissões de carbono, impulsionados por uma atuação consistente e de longo prazo. Esta abordagem inclui o aumento da utilização de energia renovável controlada para 63,4%, bem como investimentos contínuos em fontes de energia limpa e na otimização de operações com menor pegada de CO₂. Simultaneamente, a Corticeira Amorim tem assumido um papel ativo na preservação e valorização das florestas de sobreiro, assegurando a sua viabilidade ambiental e económica e a continuidade dos serviços dos ecossistemas que proporcionam. A adoção dos princípios da economia circular é outro dos pilares fundamentais, com 84,2% dos materiais consumidos provenientes de fontes renováveis ou recicladas.
A liderança da empresa é sustentada por uma cultura de inovação, melhoria contínua e compromisso com a criação de valor sustentável partilhado ao longo de toda a cadeia de valor.
Como tem evoluído a estratégia de sustentabilidade da Corticeira Amorim nos últimos anos? Houve mudanças estruturais ou é uma continuidade de um compromisso de longa data?
Em 2018, a Corticeira Amorim alinhou os seus objetivos com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e lançou as bases para o programa “Sustentável por natureza”, que estabelece a ambição para 2030. Atuar de forma ética, transparente e responsável, em prol da competitividade e da criação de valor sustentável para todos os stakeholders e o planeta, é o mote deste programa, revisto em 2024, que assenta em três pilares fundamentais:
- Promover as caraterísticas ambientais dos produtos e das florestas de sobreiro;
- Promover o bem-estar e oportunidades iguais para todos e todas;
- Promover o I&D+I e alavancar o desempenho económico.
Atualmente, estão definidos dez grandes objetivos que orientam a atuação de toda a organização, centrando-se nas alterações climáticas, na biodiversidade e ecossistemas, na economia circular, nas relações laborais, emprego e DEI, na gestão de talento, na segurança, saúde e bem-estar, na cadeia de valor, nos clientes e consumidores finais, na comunidade/sociedade. O programa define objetivos e metas qualitativas aplicadas a toda a organização e metas quantitativas aplicadas a uma seleção de empresas consideradas representativas da pegada de sustentabilidade da Corticeira Amorim. Promovemos a monitorização regular das ações, o que inclui indicadores de desempenho e procedimentos de controlo, os quais garantem, com rigor, integridade e transparência, o reporte das prioridades e do progresso.
A cortiça é, por si só, um material naturalmente sustentável. De que forma a empresa vai além da matéria-prima na sua abordagem à sustentabilidade?
A Corticeira Amorim adota uma abordagem à sustentabilidade que vai muito além da matéria-prima, integrando práticas ambientais, sociais e de governação em toda a cadeia de valor.
Neste contexto, a empresa desenvolve ações concretas como a valorização de resíduos, a redução do uso de materiais virgens não renováveis, a promoção da eficiência energética, e a aposta em energias renováveis. A Corticeira Amorim reforça a sua ação social e comunitária através de iniciativas de apoio à inclusão, à educação e à saúde, bem como da promoção de condições laborais justas e seguras ao longo da cadeia de valor.
A sustentabilidade na Corticeira Amorim é uma estratégia implementada transversalmente, mensurável e com impacto real, alinhada com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e com os compromissos definidos no programa “Sustentável por natureza”.
Pode partilhar alguns exemplos concretos de projetos ou inovações sustentáveis que estejam atualmente em desenvolvimento ou já implementados?
O Projeto de Intervenção Florestal (PIF) da Corticeira Amorim é uma iniciativa estruturante, com impacto em toda a fileira da cortiça. Visa preservar os sobreiros e os ecossistemas associados, promovendo a sua resiliência face a secas, pragas e doenças, e aumentando a sua taxa de sobrevivência. Salientamos ainda o protocolo estabelecido com a Universidade de Évora, com o objetivo de promover a coordenação de novas plantações, disponibilizando apoio aos proprietários na área florestal e a difusão das novas técnicas suberícolas. E a criação do Gabinete de Gestão Florestal, que pretende dar apoio complementar aos produtores florestais sobre temas tão diversos, como tratamentos para pragas, fertilização, podas, instalação de povoamentos e rega de apoio à instalação.
Entre os projetos em curso, realçamos:
- A substituição progressiva de fontes energéticas fósseis por renováveis;
- A otimização de processos industriais para aumentar a eficiência energética;
- Diversos programas de reciclagem de cortiça (incluindo PT, FR, IT), com resultados cada vez mais significativos (2024: 1219 toneladas de cortiça reciclada, equivalentes a 271 milhões de rolhas de cortiça);
- Grande parte das vendas consolidadas com estudos de análise de ciclo de vida ou pegadas de carbono (2024: 69% das vendas consolidadas);
- Redução do peso de materiais de packaging não renováveis virgens (Objetivo 2025-27: -15%);
- plantação de 200 mil sobreiros plantados no período 2025-2027, ambicionando plantar 1 milhão de sobreiros no período 2020-2030.
Como se mede o impacto ambiental positivo da atividade da Corticeira Amorim? Existem métricas ou relatórios que possam ser partilhados?
A Corticeira Amorim publica, desde 2017, o seu Relatório de Sustentabilidade, com dados auditados por entidades externas e alinhados com os mais elevados padrões internacionais.
O nosso relatório de 2024 segue as diretrizes da CSRD e dos ESRS, assegurando uma avaliação transparente do desempenho ambiental, com indicadores como consumo energético, emissões de CO₂ e utilização de recursos naturais.
O compromisso com a sustentabilidade é reforçado anualmente, com o fortalecimento das políticas e práticas ESG e um diálogo cada vez mais próximo com os stakeholders. Este percurso tem sido reconhecido por diversas entidades independentes, que posicionam a Corticeira Amorim como líder no setor. Entre os reconhecimentos mais recentes destacam-se:
- Classificação de Management (B) pelo CDP (climate change e water security);
- Medalha de ouro no rating da Ecovadis;
- Avaliação de risco “desprezível” pela Sustainalytics;
- Classificação AA – Líder no rating da MSCI;
- António Rios de Amorim distinguido como “Pioneiro no Compromisso com os ODS” pela United Nations Global Compact Network Portugal.
O que distingue a abordagem da Corticeira Amorim em relação à economia circular?
Temos promovido uma abordagem transversal e integrada. A nossa gestão positiva de valorização dos resíduos e o processo de reciclagem implementado permitem o aumento da reutilização da matéria-prima, prolongando o ciclo de vida da cortiça e seus benefícios ambientais, em particular a sua capacidade de retenção de CO2.
Consideramos que nenhum material de cortiça é resíduo, incluindo a cortiça virgem e outros materiais gerados, e utilizamos 100% da cortiça no processo produtivo, designadamente o pó residual de cortiça que é aproveitado como fonte de energia.
Neste sentido, aplicamos os princípios da economia circular através da redução de resíduos, do prolongamento do tempo de vida dos materiais e da regeneração dos sistemas naturais, com impactos muito positivos, nomeadamente desenvolvendo um processo produtivo integrado que reutiliza todos os subprodutos associados ao processamento da cortiça. Destaca-se ainda a redução da geração de resíduos não provenientes da cortiça, a promoção da sua valorização, prolongamento da vida útil dos materiais através de simbioses industriais, bem como a reciclagem de produtos de cortiça no final do seu ciclo de vida.
Como envolve os diferentes stakeholders – colaboradores, fornecedores, clientes – na concretização dos objetivos de sustentabilidade?
A Corticeira Amorim promove o envolvimento ativo dos seus stakeholders através de um processo contínuo de identificação, escuta e participação. Este processo começa com o mapeamento das partes interessadas com influência, dependência ou responsabilidade na atividade da empresa, assegurando a sua integração na definição de prioridades estratégicas e na melhoria contínua do desempenho sustentável. A empresa mantém um diálogo transparente e duradouro com estes stakeholders, nomeadamente através de questionários, entrevistas e outras formas de auscultação. Esta abordagem permite compreender expectativas, identificar preocupações e monitorizar temas relevantes, reforçando o alinhamento entre os objetivos da empresa e os interesses dos seus stakeholders.
A sustentabilidade tem também uma componente reputacional. De que forma este reconhecimento internacional contribui para o posicionamento global da marca?
Acreditamos que este reconhecimento reforça a reputação da Corticeira Amorim no domínio da sustentabilidade, contribuindo para a diferenciação da marca e para o fortalecimento da confiança junto dos stakeholders. Em mercados onde os critérios ESG são determinantes, estes prémios consolidam a notoriedade e a credibilidade da empresa a nível global. Contudo, mais do que um fator reputacional, a sustentabilidade é um pilar central da nossa estratégia e uma exigência intrínseca ao compromisso com a excelência. Está presente em todas as áreas da atividade, orientando a entrega de produtos de elevada qualidade e impulsionando uma atuação exigente, transparente e focada em resultados reais e mensuráveis. Neste âmbito, a nossa abordagem integra uma visão de longo prazo, assente na inovação, na eficiência e na regeneração dos recursos naturais. Com este compromisso, cumprimos naturalmente todas as obrigações legais e regulamentares, procurando ir sempre mais além. As classificações obtidas em ratings internacionais validam este percurso e reforçam o posicionamento global da marca. Para além dos prémios da World Finance, destacam-se outras distinções conquistadas:
- Prémio Caixa “Supply Chain” e o Prémio Caixa “Environmental Transparency and Performance”;
- António Rios de Amorim distinguido como “Personalidade do Ano” na categoria de Indústria pelo Prémio Portugal Inspirador;
- Corticeira Amorim lidera o ranking de Reputação Corporativa Merco Portugal 2024 no Setor “Indústria”.
Quais são os principais desafios que enfrentam atualmente na implementação de práticas sustentáveis à escala global?
A Corticeira Amorim enfrenta atualmente vários desafios na implementação de práticas sustentáveis à escala global, refletindo a complexidade crescente do contexto regulatório, operacional e reputacional em que atua.
Um dos principais desafios é promover a consistência e a eficácia das práticas ESG em toda a cadeia de valor, para que fornecedores e parceiros adotem os mesmos padrões de responsabilidade ambiental e social. A manutenção de metas ambiciosas — como a redução de emissões, o aumento da eficiência energética, a promoção da igualdade e inclusão, e o reforço da rastreabilidade — exige uma atuação contínua, inovadora e adaptável.
Desafios estruturais incluem a adaptação às alterações climáticas, a transição energética e tecnológica, e a cibersegurança — especialmente num contexto de digitalização crescente dos sistemas de gestão. A preservação da biodiversidade e dos serviços dos ecossistemas assume uma relevância estratégica, dada a ligação intrínseca da empresa às florestas de sobro, cuja proteção é essencial para a sustentabilidade do seu modelo de negócio.
Adicionalmente, a empresa lida ainda com a necessidade de responder a múltiplas exigências e a escrutínios externos das suas políticas e práticas ESG. O alinhamento com novas diretivas, como a CSRD, representa um esforço adicional, que encaramos como parte do compromisso com a transparência e a melhoria contínua.
Olhando para o futuro: quais são os próximos passos ou metas da Corticeira Amorim na área da sustentabilidade?
Encaramos o futuro com ambição, responsabilidade e a convicção de que é possível construir um mundo mais equilibrado e regenerativo. Com a renovação do programa “Sustentável por natureza”, traçámos metas ambiciosas para 2025-2027 e uma visão estratégicas para 2030, alinhada com o nosso propósito de liderar uma transformação positiva no setor e no planeta
Queremos ser agentes de mudança, acelerando a transição para uma economia mais verde e inclusiva. Entre os nossos principais compromissos estratégicos estão a neutralidade carbónica nas emissões diretas e indiretas (scopes 1 e 2), a utilização exclusiva de eletricidade proveniente de fontes renováveis controladas, a melhoria de 40% na eficiência hídrica e o aproveitamento integral da cortiça, um recurso natural único que simboliza a nossa identidade.
Acreditamos que a sustentabilidade começa nas pessoas. Por isso, estabelecemos metas claras de valorização do talento, como alcançar 33,3% de mulheres em cargos de liderança. E porque o futuro se planta hoje, comprometemo-nos a plantar um milhão de sobreiros até 2030, um gesto que simboliza o nosso compromisso com a regeneração ambiental e com as gerações futuras.














