A palavra “tecnologia” significa o conjunto de técnicas que permitem aplicar o conhecimento científico na prática. Desde sempre, a música fez-se com tecnologia. Agora, entramos na era da inteligência artificial (IA), que promete tornar os músicos cada vez mais dispensáveis.
Os mais otimistas garantem que canções feitas só por IA nunca terão o “pulso emocional” das composições humanas, especialmente em géneros como o rock.
Mas essa ideia acaba de ser posta em causa.
A 5 de junho, apareceu nas plataformas musicais um álbum chamado Floating and Echoes, do grupo The Velvet Sundown. Duas semanas depois, veio Dust and Silence, e, antes de o mês acabar, a banda já tinha quase um milhão de ouvintes no Spotify.
De imediato surgiram dúvidas.
A biografia do grupo e as fotografias dos membros pareciam irreais. A imprensa começou a investigar e nas redes sociais multiplicaram-se os comentários, tanto a favor como contra a existência física da banda. O grupo respondeu com ironia: “Dizem que não somos reais. Talvez tu também não sejas.”
O fenómeno ganhou contornos quase de novela quando a revista Rolling Stone publicou uma entrevista com Andrew Frelon, que dizia ser o “manager” da banda e admitia que as músicas eram feitas por IA. Poucas horas depois, The Velvet Sundown negou qualquer relação com Frelon, acusando-o de falsificar entrevistas e perfis. Frelon acabou por confessar que tinha enganado a revista.
Apesar do fervor dos fãs, a plataforma Deezer alertou que várias músicas do grupo poderiam ter sido feitas com IA, e um estudo do Institut de Recherche et Coordination Acoustique/Musique confirmou que pelo menos 10 das 13 faixas do álbum Dust and Silence foram compostas por inteligência artificial.
Com o mistério a dissipar-se, os autores do projeto revelaram: “The Velvet Sundown é um projeto de música sintética guiado pela direção criativa humana, com composição, interpretação e visualização apoiadas por IA. Isto não é um truque, é um espelho , uma provocação artística para desafiar os limites da autoria, identidade e o futuro da música na era da IA.”
No próximo dia 14 de julho será lançado o terceiro álbum, Paper Sun Rebellion, e será interessante perceber se mantém a popularidade. Se os ouvintes deixarem de ouvir, significa que ainda valorizam a presença humana na música. Se continuar a crescer, é sinal de que cada vez mais o público aceita e até prefere a música criada por máquinas.
Esta mudança preocupa especialistas como Gina Neff, professora da Universidade de Cambridge, que diz à BBC: “Talvez não importe se a banda é de IA ou não, mas importa que nos custa cada vez mais distinguir o que é real.”














