Os sites de notícias estão a enfrentar uma queda sem precedentes no tráfego da web devido ao novo modo de IA do Google. O que está a acontecer, porque é que os sites de nicho se estão a manter (por enquanto) e que estratégias os veículos de comunicação social devem adotar.
A Google está a lançar o seu modo AI Overviews, uma funcionalidade que responde diretamente às consultas dos utilizadores no motor de busca, sem exigir que cliquem em qualquer link.
Esta transformação já está a ter consequências severas, especialmente para os meios de comunicação digital e para os blogues de notícias que dependem de tráfego orgânico.
Entre os mais afetados por esta nova dinâmica estão os sites de notícias, de conteúdos educativos e explicativos.
De acordo com dados da SimilarWeb e análises reunidas por utilizadores do Reddit e plataformas como o SparkToro, o tráfego global dirigido a sites de notícias sofreu uma queda significativa entre meados de 2024 e maio de 2025, passando de 2,3 mil milhões para 1,7 mil milhões de visitas mensais. Esta quebra acentuada tem sido acompanhada por um declínio igualmente preocupante na taxa de cliques orgânicos, que desceu de 7,3% para apenas 2,6% em muitas pesquisas em que o Google apresenta respostas geradas por inteligência artificial.
O impacto tem sido especialmente severo para meios de comunicação independentes e blogues de nicho, com alguns a registarem perdas superiores a 50% do seu tráfego desde abril. O problema vai além da dimensão numérica — trata-se de uma mudança estrutural. O novo modelo de respostas diretas do Google está a transformar o motor de busca numa espécie de “media em si”, ao fornecer respostas com base em conteúdos externos, sintetizados por IA, sem gerar tráfego para os sites originais.
O que é o modo Google AI?
Esta funcionalidade, ao detetar questões complexas ou informativas, gera um resumo automatizado de fontes como a Wikipédia, Reddit e Quora. Tudo sem necessidade de um único clique.
Estas “respostas mágicas” já aparecem frequentemente no topo das SERPs (páginas de resultados dos motores de busca), substituindo os links tradicionais e permitindo aos utilizadores resolver as suas dúvidas sem sair do Google.
Em muitas consultas, mesmo que o conteúdo de um site seja citado pela IA, o link não é visível a olho nu, o que desencoraja ainda mais os cliques.
Os locais mais afetados são:
- Notícias gerais (notícias, análises, explicações).
- Blogs sobre saúde, culinária, educação e finanças pessoais.
- Media que monetiza exclusivamente com banners ou AdSense.
- No r/SEO e no r/Blogging (fóruns importantes para os criadores de conteúdos digitais), os testemunhos estão a multiplicar-se:
Isto pode ocorrer por dois motivos. Em primeiro lugar, há uma menor exposição a pesquisas genéricas, já que o conteúdo produzido responde a consultas mais longas e especializadas, que a inteligência artificial ainda não consegue abordar de forma satisfatória. Em segundo lugar, trata-se de públicos mais envolvidos, que chegam ao conteúdo através de newsletters, comunidades próprias ou visitas diretas, menos dependentes do Google. No entanto, há um consenso crescente de que este cenário pode mudar. À medida que a IA evolui e é treinada com volumes crescentes de dados, até mesmo os nichos mais específicos poderão começar a ver o seu tráfego afetado.
Num cenário digital em rápida transformação, a comunicação social enfrenta hoje um desafio estrutural: a perda de visibilidade nos motores de busca, em particular com as mudanças recentes nos algoritmos da Google e a crescente predominância de respostas geradas por inteligência artificial. Contar que a Google reverta essas alterações não é, à luz da experiência passada, uma estratégia viável. Historicamente, sempre que a gigante tecnológica ajusta os seus mecanismos para melhorar a experiência do utilizador, raramente recua.
Neste novo contexto, a resposta mais sensata passa por diversificar ativamente os canais de tráfego. Isso implica expandir a presença em plataformas como YouTube Shorts, TikTok, Reddit ou LinkedIn, adaptando o conteúdo a formatos visuais e sociais mais consumidos. O envio regular de newsletters ganha relevância, assim como a construção de comunidades próprias em espaços como o WhatsApp ou o Discord, fomentando uma ligação direta com os leitores e reduzindo a dependência de intermediários como o Google.
Além disso, torna-se essencial otimizar os conteúdos para ferramentas de IA, mesmo que isso não se traduza de imediato em cliques. A inclusão de respostas claras e diretas, listas organizadas, tabelas, linguagem acessível e fontes verificáveis aumenta a probabilidade de esses conteúdos serem citados nos resumos automáticos gerados pela inteligência artificial.
Outro pilar estratégico é a criação de conteúdos verdadeiramente diferenciadores — reportagens originais, entrevistas exclusivas, inquéritos próprios ou cobertura local —, formatos cuja singularidade e profundidade continuam a escapar às capacidades sintéticas das IA.
É cada vez mais evidente que o futuro do tráfego web assenta em novas dinâmicas. A antiga fórmula de publicar, esperar pela indexação e garantir visitas já não oferece as certezas de outrora. O papel da inteligência artificial reconfigura não só a pesquisa, mas também a forma como a informação é consumida e partilhada.
Perante esta realidade, a comunicação social tem de fazer escolhas claras: adaptar-se, reinventar-se e, sobretudo, reconstruir laços com as suas audiências. Porque o clique gratuito no Google — durante tanto tempo dado como garantido — já não está assegurado.














