Vivemos mais tempo do que nunca, mas uma fatia crescente desses anos é passada com doenças crónicas que limitam a autonomia e a capacidade de trabalhar. O relatório internacional The Value of Chronic Care, produzido pelo Zurich Insurance Group com base em dados da OCDE, mostra como a carga de doença se está a deslocar da mortalidade para a morbilidade: menos mortes prematuras, mais anos vividos com doença. O desafio já não é só aumentar a longevidade, mas garantir que se vive com mais qualidade.
Durante décadas, os sistemas de saúde mediram-se sobretudo pela redução da mortalidade. Em muitos países da OCDE, morrer cedo tornou-se menos frequente e várias doenças, que antes equivaleriam a uma sentença de morte, são hoje tratadas com elevada eficácia.
À medida que vivemos mais tempo, aumenta a possibilidade de vivermos com doença crónica. Em vez de olharmos apenas para “quantas pessoas morrem e quando”, torna-se essencial perceber “em que condições essas pessoas vivem ao longo dos anos”. É aqui que entra a morbilidade: os anos marcados por sintomas persistentes, limitações físicas ou mentais e necessidade contínua de cuidados.
Em média, e segundo o relatório, um em cada três adultos na OCDE vive com uma condição de longa duração. Em Portugal, tal como noutros países, isso traduz-se em trajectórias de vida acompanhadas por diabetes, doenças cardiovasculares, problemas de saúde mental ou patologias músculo-esqueléticas, que transformam tarefas simples num esforço constante. The Value of Chronic Care mostra que a carga global de doença se está a deslocar das mortes prematuras para os anos vividos com doença e incapacidade.
Portugal entre o sucesso e o desafio
Portugal surge no relatório como um país que se distingue pela equidade no acesso aos cuidados de saúde. No entanto, quando o problema deixa de se tratar de um episódio agudo e passa a ser acompanhar alguém durante décadas com a mesma condição clínica, o desafio muda de natureza.
Como esclarece Ana Paulo, head of Life da Zurich Portugal, «o nosso desafio já não está apenas em chegar às pessoas quando a doença aparece. Está em conseguir acompanhá‑las ao longo de décadas. O que está em causa é garantir qualidade de vida, o que exige mais prevenção, diagnóstico precoce e coordenação de cuidados».
O relatório mostra que os países com melhor desempenho não são necessariamente os que mais gastam em saúde, mas os que organizam melhor a resposta. Países como a Suíça, os Países Baixos ou a Coreia do Sul têm em comum sistemas que evoluíram de uma lógica de crise para uma lógica de percurso: menos foco no episódio isolado, mais foco na gestão da condição ao longo do tempo.
Da crise ao percurso: o que faz a diferença
Entre as principais conclusões do The Value of Chronic Care, destacam‑se três elementos estruturais:
• Percursos integrados: redes em que médico de família, especialista, enfermeiro e serviços comunitários partilham informação e decisões, evitando que o doente se perca entre silos.
• Continuidade de acompanhamento: monitorização regular, ajustamento de terapêuticas e intervenção antes da crise, em vez de respostas apenas quando a situação se agrava.
• Acesso equitativo e ágil: barreiras de tempo, distância ou custo que não impedem o acompanhamento e não empurram a doença para estados mais complexos e caros de tratar.
Para Portugal, que já tem um forte compromisso com a universalidade, a prioridade passa por reforçar esta lógica de percurso, garantindo que quem vive com doença crónica encontra uma linha de cuidados clara, coerente e sustentável ao longo dos anos.
O impacto na economia e nas famílias
Além de um tema clínico, a doença crónica é também um tópico económico e social. Uma doença que se prolonga durante décadas pode levar à redução de horário ou à mudança de função, antecipar a saída do mercado de trabalho, obrigar um familiar a assumir o papel de cuidador e limitar a capacidade de poupar.
No Reino Unido, mais de dois milhões de pessoas estão hoje fora do mercado de trabalho devido a condições de longa duração. Embora os números variem de país para país, a tendência é semelhante: a forma como gerimos a doença crónica tem impacto directo na produtividade, na sustentabilidade dos sistemas de protecção social e na estabilidade financeira das famílias.
Em Portugal, esta realidade traduz-se em desafios concretos para empresas e colaboradores, que exigem ambientes de trabalho capazes de conciliar tratamento e desempenho.
A prevenção como investimento de futuro
Gerir a cronicidade de forma eficaz significa actuar antes da doença surgir, perante os primeiros sinais e ao longo de toda a sua evolução. O relatório distingue entre riscos comportamentais – alimentação, sedentarismo, tabaco, consumo nocivo de álcool – e riscos metabólicos, como pressão arterial elevada, colesterol ou glicemia desregulada.
Uma estratégia de prevenção consistente combina promoção de estilos de vida saudáveis, rastreios e check-ups, que detectam precocemente factores de risco e promovem um acompanhamento regular.
Os países que investem de forma sistemática nestas dimensões conseguem reduzir a pressão sobre os sistemas de saúde, melhorar os resultados e, sobretudo, atrasar ou mitigar o impacto da doença crónica na vida das pessoas.
Um desafio partilhado: sistemas de saúde, empresas e seguradoras
O relatório internacional The Value of Chronic Care sublinha que nenhuma entidade isolada consegue responder ao desafio da doença crónica; é necessária uma resposta em ecossistema, onde sistemas de saúde reforçam a proximidade e a gestão de longo prazo, empregadores promovem ambientes de trabalho saudáveis e flexíveis e as seguradoras evoluem de simples pagadores de sinistros para parceiros de risco ao longo da vida.
Em Portugal, esta colaboração é particularmente relevante. A combinação de um sistema público, empresas que enfrentam desafios de envelhecimento da força de trabalho e seguradoras com capacidade de inovar em soluções de protecção e acompanhamento cria uma oportunidade para redesenhar o percurso das pessoas com doença crónica.
Em países como Portugal, onde viver mais anos é já uma conquista, o próximo passo deve ser garantir que esses anos são vividos com maior autonomia e segurança. Desta forma, a doença crónica deixa de ser apenas um tema de diagnóstico e passa a ser um teste à capacidade de articularmos políticas públicas, práticas empresariais e soluções de seguro que funcionem em conjunto.
O relatório The Value of Chronic Care mostra que existem caminhos concretos para o fazer. Investir em prevenção ao longo da vida, organizar os cuidados em percursos contínuos e transformar a relação entre sistemas de saúde, empresas e seguradoras numa verdadeira parceria são, sem dúvida, elementos centrais.
Este artigo faz parte do Caderno Especial “Seguros” da edição de Agosto (n.º 361) da Marketeer.












