Uma das mais belas mercearias do mundo

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Maria João Vieira Pinto
15/08/2026
16:03
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Uma das mais belas mercearias do mundo

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O “Financial Times” já a considerou uma das melhores mercearias centenárias do mundo. Depois disso, foi a “Forbes”, em 2021. E, mais tarde, a “Love Food” elegeu-a como uma das mais bonitas mercearias históricas do mundo. A Manteigaria Silva tem história de vida a sustê-la e que a mantém, hoje como sempre, fiel aos seus princípios, valores, oferta e imagem.

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Isto, apesar de a sua história remontar mesmo ao pré-nome, ou não tivesse aberto portas com outra designação, estava-se então em 1890. O nome actual, esse recebeu-o em 1922, ano em que também mudou de proprietário, sendo que, na altura, como de resto o nome indica, a manteiga era o produto principal. A este acrescentou o bacalhau (e mais uma mão-cheia de produtos entre queijos, vinhos ou enchidos) e nos anos 30 passou a ter duas entradas, pelo que hoje poderá encontrar a Bacalhoaria de um lado e a Manteigaria de outro, paredes-meias.

Na altura, só podiam vender manteiga as casas de comércio assim nomeadas e, no século XIX, eram umas vinte, além desta. Agora, é considerada uma das lojas mais antigas da capital portuguesa, e a única que mantém a sua originalidade.

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Mas, vamos à sua história, conforme a própria a conta e partilha publicamente!

Desde a Monarquia Constitucional à Primeira República, passando pelo Estado Novo ou a Revolução do 25 de Abril, a Manteigaria Silva tem servido várias gerações, sempre com a maior exigência.

Uma verdadeira pérola do comércio tradicional lisboeta, resistente à passagem dos anos e à entrada de grandes marcas no mercado português, tem conseguido conservar também muito dos elementos arquitectónicos da época da sua fundação. As origens documentadas da loja foram-se perdendo no tempo, mas, de acordo com a tradição oral, sabe-se que tem mais de 125 anos de história, remontando ao período da Monarquia Constitucional. Nesse tempo, a Baixa acordava ao som dos pregões e as ruas enchiam-se com o bulício dos fregueses.

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Produtos da Manteigaria Silva

Em 1890, a actual Rua Dom Antão de Almada chamava-se Rua dos Correeiros. Foi aqui que, no número 301, no espaço onde actualmente está a Bacalhoaria Silva, a Manteigaria Silva, ainda sem essa designação, abriu portas. Na porta ao lado, onde hoje funciona a mercearia fina, havia um matadouro de gado caprino, que abastecia o antigo Mercado da Praça da Figueira, entretanto já extinto.

Em 1922, a loja haveria então de mudar de mãos e de nome, passando a designar-se Manteigaria Silva, pois nessa época a manteiga era um produto importante e dispendioso, que vinha dos Açores em blocos e era vendida a peso, em pequenos embrulhos. Vendia-se unicamente manteiga e seus derivados.

Oito anos mais tarde, já em 1930, seria ampliada para os números 303, 305 e 307, ficando com o tamanho que hoje mantém e com a manteigaria de um lado, e do outro… um talho, que viria a transformar-se em mercearia fina.

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Já em 1956, o negócio estendeu-se ao comércio de bacalhau, com a Bacalhoaria a abrir portas no 1C da Rua Dom Antão Vaz de Almada. E, em 1989, o actual proprietário, José Tabuaço Branco, tornar-se-ia sócio maioritário após adquirir quotas do negócio.

Natural de Ramalde, no Porto, José Branco veio para Lisboa, em 1966, cumprir o serviço militar, e ficou pela capital. Filho e neto de empresários ligados à indústria conserveira, trabalhou na área dos laticínios de 1974 a 1985, altura em que decidiu criar um pequeno negócio em nome próprio, ligado ao comércio do bacalhau. A Manteigaria Silva era um dos seus clientes e José Branco ficou a conhecer bem a casa e os seus funcionários. Quando soube da oportunidade de adquirir quotas, não hesitou. Em 29 de Dezembro de 1989, assinou a escritura que lhe garantiu 57% da sociedade.

Nesse ano, o panorama económico do País era diferente e o jovem empresário, com filhos pequenos, investiu todo o seu saber e recursos para que a Manteigaria Silva alcançasse o potencial que viu nela. À época, o bacalhau, em boa parte devido à emigração, era o principal motor do negócio e continuou a ser a grande aposta. Vendiam-se toneladas de bacalhau por ano e, no subterrâneo da loja, havia mesmo um poço onde se armazenavam várias toneladas de atum conservado em barricas. Sabendo bem que caminho seguir, José Branco foi mais longe e saiu à procura dos melhores queijos, nos quais se especializou. A partir daí, os produtos-estrela da casa passariam a ser os que ainda são hoje, nomeadamente o bacalhau, queijos e presuntos.

Entre 1989 e 1996, José Branco vai adquirindo as restantes quotas aos outros sócios e, aos poucos, restaura a loja, das prateleiras aos balcões, até lhe dar as melhores condições, o que passou por criar um escritório e armazém noutro ponto de Lisboa, para conservação dos stocks.

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A filosofia que se perfilhou e se persegue é a de ter uma concentração única na Baixa dos melhores produtos da gastronomia nacional. Na parede junto ao bacalhau é possível ver recortes de imprensa que remetem para episódios singulares da história da loja, como o Natal de 1977, em que o bacalhau escasseou, dado que a seguir à Revolução de 74 as importações caíram consideravelmente, com os clientes a fazerem fila na rua. Acabou por ser racionado, com um bacalhau por pessoa e um polícia presente, para manter a ordem.

Seria em 2000 que o filho, também José, se junta à equipa. Com o seu contributo foi possível trazer um novo fôlego ao negócio e apostar em outras áreas, como a salsicharia e os vinhos. Tal como o pai, José visita pessoalmente os fornecedores, quase todos eles pequenos produtores regionais, e conhece as características dos produtos como a palma da mão. O que ajuda na promoção, venda e aconselhamento personalizado. É que o bom atendimento e a arte de bem servir também fazem parte da história desta casa.

Aliás, o pai, José Branco, já participou numa campanha do bacalhau na Islândia para compreender ainda melhor a arte da pesca e da salga; enquanto o filho já correu o Alentejo inteiro à procura dos melhores porcos (os líderes das varas), para garantir que dali a três anos a Manteigaria Silva terá os melhores presuntos do mercado.

Em 2011, foi a vez de Laura, a filha, formada em Arquitectura, se juntar ao negócio, dando apoio na área financeira. Nos últimos anos, sob a sua supervisão, foram-se também fazendo restauros e ampliações no espaço da loja, sempre respeitando a traça antiga e as exigentes directrizes para a recuperação deste tipo de imóvel de interesse público.

Ao longo dos anos, a família Branco tem conduzido ainda a marca para outros patamares e encarado novos desafios, com a abertura, em 2014, de uma Manteigaria Silva no Mercado da Ribeira, a convite da Time Out, e, já em 2016, de um espaço no Bairro do Avillez, no Chiado, a convite do chef.

Hoje, a Manteigaria Silva é visitada por portugueses e estrangeiros, ou não estivesse também referenciada em inúmeros guias de viagens que a recomendam. Quanto aos seus produtos, esses são vendidos ao balcão, mas não deixam de muitas vezes seguir viagem para todos os pontos do mundo, levando produtos e sabores do nosso País a outras geografias.

 

Este artigo faz parte da edição de junho (n.º 359) da Marketeer






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