Num setor tradicionalmente marcado por códigos conservadores, a nova campanha dos Vinhos do Alentejo surge com uma abordagem inesperada — simples na forma, mas ambiciosa na intenção. “Um alentejano cai sempre bem” é o mote que dá o tom a uma comunicação que cruza humor, autenticidade e inovação tecnológica, procurando reforçar a presença da região no momento de decisão do consumidor.
Por Sandra M. Pinto
Por detrás do conceito da campanha que será lançada no próximo dia 01 de junho, estão Pedro Bidarra e João Wengoroviusum, dois dos nomes mais reconhecidos da publicidade em Portugal, e Álvaro Silveira, da Falamusa. Nesta entrevista, Pedro Bidarra explica o racional estratégico da campanha, o recurso à inteligência artificial na produção do filme e a forma como tradição e contemporaneidade podem coexistir na comunicação de uma das mais emblemáticas regiões vínicas nacionais.
Como surgiu o conceito criativo por detrás do mote “um alentejano cai sempre bem” e que objetivos estratégicos estiveram na base desta abordagem?
“Um Alentejano cai sempre bem,” surgiu do briefing. É uma convicção partilhada pelos consumidores, e até por especialistas e críticos, que reflete uma verdade do produto: os vinhos alentejanos têm uma alta qualidade média, fruto de condições geográficas únicas, ou seja do terroir. De algum modo pode-se dizer que o conceito é apenas um lembrete, que ajuda o consumidor a decidir, no momento de escolher um vinho (quer seja em frente ao linear ou passando os olhos numa carta de vinhos), perante uma tão grande escolha de regiões, marcas e preços.
De que forma trabalharam o equilíbrio entre humor, irreverência e a autenticidade associada aos Vinhos do Alentejo?
Qualquer pessoa que tenha família alentejana (como nós) ou que se tenha sentado a almoçar umas migas com entrecosto numa casa alentejana rodeada de amigos sabe que o tom da conversa é sempre autêntico e com um tom de irreverente mas contido bom humor.
Esta campanha recorre à inteligência artificial em toda a sua composição. O que motivou esta opção e que desafios encontraram ao nível criativo e de execução?
Não é em toda a sua composição. Esta campanha recorre à máquina, mas apenas na produção do filme, que é o fim do processo. A conceção, o pensamento, as ideias, o script e as decisões são humanas: minhas, do João Wengorovius e do Álvaro Silveira da Falamusa, que manipulou a máquina. A utilização da máquina na produção do filme foi uma escolha nossa por se apresentar como a mais eficaz para materializar a ideia. Quanto aos desafios, não posso responder. Talvez o Álvaro o possa fazer. A máquina, para mim que sou de outro tempo, é uma caixa negra. Apenas sei o que é capaz de fazer; o como é um enigma.
Consideram que esta abordagem representa uma mudança na forma como o setor do vinho comunica, sobretudo junto de públicos mais jovens?
Tentámos apenas criar uma mensagem pertinente e entregá-la de forma memorável. Só isso. Claro que para o conseguir não se pode fazer mais do mesmo; é precisa novidade, ou a mensagem não chega aos ouvidos do público, seja ele novo ou velho.
Que impacto pretendem gerar ao cruzar tradição e inovação tecnológica numa categoria historicamente mais conservadora?
A única inovação pertinente, ou seja, o novo, está apenas na mensagem. Trata-se de uma campanha que se quer memorável e com impacto. O facto de se utilizarem novos recursos tecnológicos na produção (neste caso AI), é uma prática a que a indústria sempre deitou mão ao longo dos tempos, sofisticando os meios de produção, recorrendo a pós-produção digital, a imagens geradas por computador, etc.
Já agora. Todas as categorias são historicamente conservadoras e recorrem a convenções que são próprias e comumente aceites. A razão é o conforto e a aversão ao risco. De quando em quando surge algo novo e a comunicação avança.
Este projeto assinala o regresso da dupla João Wengorovius e Pedro Bidarra à publicidade. O que motivou este reencontro?
Neste últimos anos, a Wengorovius & Bidarra tem trabalhado com diversas marcas nas áreas da estratégia de comunicação e marketing. O facto de, neste caso, termos dado o passo para a criação e execução deveu-se a um conjunto de fatores irresistíveis: um bom briefing; um cliente com vontade de fazer o que não foi feito; e a oportunidade de explorar as possibilidades abertas por novos meios de produção, i.e. a Máquina.














