“Tornou-se cada vez mais difícil produzir filmes ambiciosos”: Open Cities quer mudar o modelo do cinema independente

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Rafael Ascensão
18/03/2026
10:45
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Lisboa continua a afirmar-se como ponto de encontro entre criatividade e inovação, agora com a chegada da Open Cities, uma produtora internacional liderada por Joana Vicente que nasce com uma proposta clara: repensar a forma como o cinema independente é desenvolvido, produzido e financiado. À ex-CEO do Sundance e ex-diretora executiva do Festival Internacional de Cinema de Toronto junta-se na liderança do projeto o produtor Jason Kliot, numa estrutura que integra ainda o ex-chief revenue officer da Warner Media, Tony Gonçalves, e o empresário e investidor português, Filipe de Botton.

Mais do que um novo player no setor, a Open Cities surge como resposta a um momento de transformação estrutural na indústria. “A missão da Open Cities é ajudar realizadores independentes a realizar filmes ambiciosos, num momento em que se tornou cada vez mais difícil produzi-los dentro dos modelos tradicionais da indústria”, explica a responsável à Marketeer, defendendo a necessidade de criar alternativas que permitam aos realizadores independentes concretizar projetos com maior escala e ambição.

E é precisamente nesse contexto que o projeto se pretende diferenciar, pois em vez de funcionar apenas como produtora, a Open Cities assume-se como uma estrutura híbrida que integra um acelerador de desenvolvimento, uma produtora e, numa fase seguinte, um fundo de financiamento. A ambição é acompanhar os projetos ao longo de toda a cadeia de valor – do argumento à produção – colmatando assim uma das principais fragilidades do setor.

A aceleradora é, aliás, “parte central” deste modelo. Direcionada a um grupo restrito de longas-metragens em desenvolvimento, pretende apoiar realizadores numa fase crítica – entre o argumento e a produção – através do trabalho durante alguns meses “com os realizadores no desenvolvimento do guião, na estratégia de produção, otimização de recursos com o uso a novas tecnologias e IA, e na preparação do projeto para avançar”.

“O objetivo é que os filmes cheguem ao final do programa, não apenas com um argumento mais sólido, mas com um caminho claro para a produção”, diz a produtora portuguesa, adiantando que o programa procura sobretudo apoiar projetos que tenham “uma voz original, clara, com ambição artística e potencial para circular internacionalmente”, sendo também valorizados os realizadores “que estejam abertos à colaboração e a experimentar novas abordagens de produção”.

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Em paralelo está também a ser estruturado um fundo associado à Open Cities que permitirá apoiar alguns dos projetos que passam pelo acelerador. “A ideia não é substituir os sistemas tradicionais de financiamento, mas ajudar certos filmes a chegar mais facilmente à fase de produção”, clarifica a responsável pelo projeto que, embora não adiante nomes, aponta para a existência de investidores internacionais, nomeadamente oriundos de Portugal, Brasil e Estados Unidos, o que “reflete a natureza global do projeto”.

Este modelo surge numa altura em que o cinema independente enfrenta desafios crescentes – desde um financiamento mais escasso, a uma distribuição fragmentada e competição intensa pela atenção do público – os quais, no entanto,  abrem espaço ao mesmo tempo para novas abordagens e formas de colaboração, sublinha Joana Vicente.

Foi assim depois de muitos anos a trabalhar em instituições como o Sundance Institute ou o Toronto International Film Festival que Joana Vicente sentiu “vontade de voltar a estar mais próxima do processo criativo”. “Pareceu-nos o momento certo para experimentar um modelo que combina aquilo que aprendemos ao longo de muitos anos a trabalhar com cineastas, com novas possibilidades e com novos modelos”, enquadra.

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Tecnologia como ferramenta (não como substituto) e um setor em mudança (à procura de novas soluções)

Um dos pilares da Open Cities é a integração de tecnologia e inteligência artificial no processo criativo, mas com uma abordagem cautelosa. “A tecnologia deve servir os artistas, nunca substituí-los”, entende a responsável.

A utilização destas ferramentas surge assim como forma de otimizar processos, testar ideias mais cedo e tornar produções mais viáveis, sem comprometer a visão criativa. Num momento em que a IA está no centro do debate na indústria, a produtora posiciona-se numa linha de equilíbrio: explorar o potencial tecnológico, mantendo o cinema como um processo essencialmente humano.

“Para nós, a tecnologia é simplesmente uma ferramenta. Se certas ferramentas ajudarem os cineastas a planear melhor um filme, a testar ideias mais cedo ou a tornar uma produção mais viável, então podem ser muito úteis. Mas o ponto de partida continua sempre a ser o material e a visão do realizador. A tecnologia deve expandir as possibilidades criativas, não substituí-las”, defende Joana Vicente.

Para a cineasta, a indústria vive um momento de reconfiguração profunda, com a consolidação dos grandes grupos de media – que controlam produção, distribuição e plataformas – a reduzir o espaço para produtores independentes e a limitar a diversidade criativa.

“Muitas empresas controlam em simultâneo o financiamento, produção, distribuição e até as próprias plataformas onde o público descobre os filmes. Isso cria uma cultura mais monolítica e reduz muito o espaço para produtores independentes, ao mesmo tempo que limita os caminhos que os filmes têm para chegar ao público. Nos últimos anos assistimos ao desaparecimento de grande parte do cinema de orçamento médio, ao enfraquecimento do mercado internacional de vendas e a uma grande diminuição das possibilidades económicas para produtores independentes”, diz.

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“Ao mesmo tempo, o cinema independente sempre encontrou formas de se reinventar fora desses grandes sistemas. Acredito que a resposta passa por criar modelos, incentivar uma maior diversidade de vozes e garantir que exista um ecossistema mais aberto e competitivo para os criadores”, acrescenta.

Neste cenário, projetos como a Open Cities procuram assim posicionar-se como parte da solução, criando novos modelos de financiamento, incentivando a colaboração e aproximando o setor cultural do investimento privado, naquela que é uma ligação que, em Portugal, continua a ser limitada. “Ainda falta criar mais pontes entre o setor cultural e o mundo empresarial. O cinema pode ser também um espaço interessante de investimento, mas isso exige uma visão mais estratégica e conhecimento do mercado internacional”, entende.

E apesar de reconhecer a qualidade e tradição do cinema português, Joana Vicente sublinha que o país ainda não é um grande centro do setor, o que também tem as suas vantagens.

“Portugal tem uma tradição cinematográfica forte e autores reconhecidos internacionalmente. Não é um grande centro industrial do cinema, mas isso também cria espaço para experimentar ideias novas e para desenvolver modelos diferentes”, aponta, acrescentando que projetos como a Open Cities podem “ajudar a criar pontes entre talentos portugueses e redes internacionais”, sendo que “muitas vezes é precisamente através dessas colaborações que os filmes conseguem circular mais e ganhar maior visibilidade fora do país”.

Num momento em que o cinema independente procura novas formas de sustentabilidade, Lisboa ganha assim não apenas uma nova produtora, mas um laboratório de modelos que podem ajudar a redefinir o futuro da indústria, sendo que a escolha pela capital portuguesa como sede do projeto reflete tanto uma ligação pessoal como uma leitura estratégica do ecossistema atual.

“Lisboa é a minha cidade, onde cresci. Nos últimos anos, também se tornou num ponto de encontro muito interessante entre criatividade, tecnologia e empreendedorismo. Há uma energia internacional e uma grande abertura à experimentação. Ao mesmo tempo, Nova Iorque continua a ser um dos centros mais importantes da indústria cinematográfica, onde temos as nossas relações de trabalho. Para nós, faz sentido funcionar entre estes dois lugares, construir a empresa em Portugal e manter uma ligação forte com o ecossistema criativo e industrial norte-americano”, conclui.




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