“Os festivais tornaram-se plataformas muito relevantes para as marcas porque permitem criar experiências reais com as pessoas”

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Sandra M. Pinto
01/07/2026
10:33
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Sandra M. Pinto
01/07/2026
10:33

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Durante anos, o sucesso de um festival media-se pelos nomes no cartaz. Hoje, mede-se pelas histórias que deixa em quem o vive. Entre luz, som, paisagem e emoção, o Nómadas Festival tem vindo a afirmar-se como um exemplo claro desta mudança, apostando numa experiência que vai muito além da música.

Por Sandra M. Pinto

Por trás desta visão está Tiago Cruz, que idealizou o projeto com o objetivo de criar algo verdadeiramente distintivo no Norte de Portugal — um festival onde a curadoria artística, o cenário natural e a ligação à comunidade se cruzam de forma coerente. Nesta entrevista, o fundador partilha a evolução do projeto, reflete sobre as novas exigências do público e explica como se constrói um festival com identidade forte num mercado cada vez mais competitivo, sem perder autenticidade ao longo do caminho.

O setor dos festivais tem vindo a evoluir de uma lógica centrada no cartaz para uma abordagem mais experiencial. Que fatores estão a impulsionar esta mudança?
O público mudou. Hoje não procura apenas ver um artista, procura viver um momento. A música continua a ser o motor principal, mas já não chega ter um bom cartaz. As pessoas querem contexto, estética, conforto, ligação emocional, bons conteúdos, bons acessos, hospitalidade e uma experiência que possam recordar e partilhar. Também existe uma maior exigência do consumidor: viaja mais, compara mais e sabe distinguir um evento bem pensado de um evento apenas montado em função dos nomes.

Quando criou o Nómadas Festival, que oportunidade identificou no mercado e que ambição definiu para o projeto?
Identificámos uma oportunidade para criar, no Norte de Portugal, um festival de música eletrónica com uma identidade muito própria. Não queríamos apenas organizar mais um evento; queríamos construir uma marca com personalidade, capaz de ligar música, natureza e cultura num espaço único. Desde o primeiro dia, a nossa ambição foi desenvolver um projeto sustentável, reconhecido pela qualidade da experiência e pela sua identidade.

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O Nómadas posiciona-se como uma experiência que cruza música, natureza e cultura. De que forma este conceito responde às novas exigências do público?
Hoje, o público valoriza autenticidade. Acreditamos que o local onde acontece um festival é tão importante como os artistas que sobem ao palco. A Pedreira do Monte Castro oferece um cenário natural único, que faz parte da identidade do Nómadas. Quando juntamos esse espaço a uma curadoria cuidada, uma forte componente visual e uma produção de qualidade, conseguimos criar uma experiência que vai muito além dos concertos.

Hoje, a diferenciação de um festival passa cada vez mais pela experiência global. Que pilares considera essenciais na construção dessa proposta de valor?
Diríamos que existem cinco pilares fundamentais: uma curadoria artística consistente, uma localização diferenciadora, uma produção de excelência, conforto para o público e uma comunidade forte. Todos estes elementos têm de funcionar em conjunto. Não basta ter um grande cartaz se a experiência global não corresponder às expectativas.

A proximidade ao artista tornou-se um ativo relevante. Como é que o Nómadas trabalha essa dimensão sem comprometer a curadoria e a qualidade artística?
A proximidade ao artista começa muito antes de ele subir ao palco. Fazemos uma curadoria muito criteriosa, escolhendo artistas que estejam alinhados com a identidade do Nómadas e com a experiência que queremos proporcionar ao público. Depois, damos grande importância à forma como os recebemos: procuramos que se sintam bem acolhidos, que conheçam a cidade, desfrutem da gastronomia e vivam o festival de forma genuína. Acreditamos que um artista bem recebido transmite essa energia em palco. Essa proximidade deve enriquecer a experiência de todos, sem nunca comprometer a qualidade artística nem a identidade do festival.

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O facto de áreas como o backstage ou zonas próximas do DJ esgotarem rapidamente revela uma mudança no comportamento do consumidor. Como interpreta este fenómeno?
Mostra que o público procura experiências mais exclusivas e diferenciadas. Hoje existe uma maior valorização do acesso, da proximidade e da possibilidade de viver o festival de uma forma Isso demonstra que o consumidor está disposto a investir em experiências que criem memórias únicas, e não apenas no acesso ao recinto.

Até que ponto a construção de comunidade é hoje um fator crítico para a sustentabilidade de um festival?
É um dos fatores mais importantes. Um festival que depende exclusivamente do cartaz fica muito vulnerável às mudanças do mercado. Quando existe uma comunidade que acredita no projeto, essa relação mantém-se para além de uma edição específica. É essa ligação emocional que garante continuidade e crescimento sustentável.

O Nómadas tem conseguido atrair artistas internacionais de referência. Como equilibram a curadoria global com a identidade própria do festival?
Temos uma linha muito clara: escolhemos artistas que façam sentido para a identidade do Nómadas. Não seguimos tendências apenas porque estão na moda. Procuramos construir um alinhamento entre os artistas internacionais, os talentos nacionais e o ambiente que queremos criar. A prioridade será sempre o espaço, a experiência e a comunidade que construímos ao longo dos anos. Os artistas são fundamentais, mas vêm complementar essa identidade, não defini-la. Queremos que as pessoas regressem ao Nómadas pelo que sentem quando estão lá, independentemente de quem está em palco.

Num contexto em que as marcas procuram ligações mais autênticas, que papel podem desempenhar os festivais enquanto plataformas de comunicação?
Os festivais tornaram-se plataformas muito relevantes para as marcas porque permitem criar experiências reais com as pessoas. Quando uma marca participa de forma integrada na experiência do público, cria uma ligação muito mais forte do que através da publicidade tradicional. A autenticidade é hoje o principal ativo.

Que critérios orientam a integração de marcas no Nómadas, garantindo que acrescentam valor à experiência e não a descaracterizam?
Somos muito seletivos nas marcas com quem trabalhamos. Preferimos ter poucas parcerias, mas que sejam realmente relevantes e acrescentem valor à experiência. Não queremos um recinto visualmente poluído por logótipos, estruturas e cores que retirem protagonismo ao espaço natural e à identidade do Nómadas. Procuramos sempre um equilíbrio entre a visibilidade das marcas e a preservação da estética e da atmosfera do festival. As parcerias devem integrar-se de forma natural e melhorar a experiência do público, nunca descaracterizar o evento.

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O crescimento do festival tem sido consistente ao longo das edições. Quais têm sido os principais desafios a nível estratégico e operacional?
O maior desafio é crescer mantendo a qualidade. À medida que o festival evolui, aumenta também a complexidade da operação: produção, logística, equipas, artistas, fornecedores, comunicação e segurança. A responsabilidade também cresce, porque milhares de pessoas confiam em nós para viver esta experiência. Por isso, temos um enorme cuidado em garantir que tudo funciona da melhor forma possível, desde a qualidade dos serviços e dos produtos disponibilizados, à limpeza, à segurança e ao conforto do recinto. O nosso foco tem sido garantir que cada crescimento representa também uma melhoria da experiência, protegendo sempre a comunidade que escolhe o Nómadas ano após ano.

Braga tem assumido um papel central no desenvolvimento do Nómadas. De que forma o território contribui para a construção da marca festival?
Braga é parte integrante da identidade do Nómadas. A cidade tem vindo a afirmar-se cada vez mais como um polo cultural, e a Pedreira do Monte Castro oferece um enquadramento absolutamente diferenciador. Gostamos também de mostrar que é possível desenvolver projetos de dimensão internacional fora dos centros tradicionais, valorizando o território onde nascem. Quem viaja até ao Nómadas não vem apenas ao festival, vem viver Braga. A cidade tem uma enorme riqueza histórica e cultural, um centro histórico vibrante, monumentos como o Bom Jesus e a Sé, uma gastronomia reconhecida e uma hospitalidade muito própria. Tudo isto complementa a experiência do festival e faz com que muitos visitantes prolonguem a estadia para descobrir a cidade. Para nós, o Nómadas e Braga crescem lado a lado, e queremos continuar a contribuir para colocar a cidade no mapa dos grandes destinos culturais e musicais.

Como avalia a maturidade do mercado de música eletrónica em Portugal face a outros mercados europeus?
O mercado português evoluiu muito nos últimos anos. Hoje existem eventos de elevada qualidade, um público cada vez mais informado e um interesse crescente pela música eletrónica. Isso demonstra que o mercado está mais maduro e preparado para receber projetos ambiciosos. Ainda há margem para crescer ao nível da profissionalização e da internacionalização, mas acreditamos que Portugal tem todas as condições para afirmar-se como um destino relevante na Europa. No nosso caso, a ambição passa por contribuir para essa evolução, tornando o Nómadas uma referência nacional e ajudando a colocar não só Portugal, mas também Braga, na rota dos grandes festivais internacionais.

Que tendências antecipa para o futuro dos festivais, nomeadamente ao nível da personalização, tecnologia e relação com o público?
Acreditamos que o futuro dos festivais passa por experiências cada vez mais personalizadas, onde a tecnologia tem um papel fundamental. Hoje já vemos essa evolução com sistemas cashless, que eliminam a necessidade de dinheiro físico e permitem pagamentos mais rápidos, filas menores e um serviço muito mais Ao mesmo tempo, a componente visual será cada vez mais importante. A evolução dos sistemas de iluminação, ecrãs LED, conteúdos visuais e efeitos especiais permite criar experiências verdadeiramente imersivas, que elevam a ligação emocional do público ao espetáculo. Mais do que assistir a um concerto, as pessoas procuram viver uma experiência completa. O desafio dos festivais será continuar a utilizar a tecnologia para melhorar o conforto, a operação e a experiência do público, sem perder a autenticidade e a identidade que tornam cada evento único.

Que novidades e objetivos estratégicos estão definidos para esta 5.ª edição?
A quinta edição representa um momento importante de consolidação. O nosso objetivo é elevar todos os aspetos da experiência: programação, produção, conforto, hospitalidade e comunicação. Queremos continuar a reforçar o posicionamento do Nómadas como uma referência nacional, aumentar a presença de público internacional e consolidar a comunidade que temos vindo a construir. Ao mesmo tempo, esta edição serve também para preparar o futuro. Estamos a trabalhar numa evolução mais ambiciosa para 2027, com mudanças estruturais que irão marcar uma nova fase do festival e reforçar ainda mais a identidade e a dimensão do projeto.

Numa perspetiva de longo prazo, como imagina a evolução do Nómadas Festival mantendo a sua identidade diferenciadora?
Queremos que o Nómadas cresça de forma sustentável, sem perder a sua identidade. A ambição passa por aumentar a capacidade do recinto, criar uma maior diversidade de palcos e experiências, apresentar uma imagem renovada e elevar continuamente a qualidade da produção. Queremos também trazer artistas cada vez mais ambiciosos, mantendo uma curadoria coerente com a identidade do festival. O crescimento, para nós, só faz sentido se continuar a oferecer uma experiência diferenciadora e autêntica a quem escolhe viver o Nómadas.






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