“Sustentabilidade, competitividade e inovação não são agendas concorrentes”, Rita Nabeiro

EntrevistaLinkedin
Rafael Ascensão
08/09/2026
09:57
EntrevistaLinkedinNotícias
Rafael Ascensão
08/09/2026
09:57
“Sustentabilidade, competitividade e inovação não são agendas concorrentes”, Rita Nabeiro

Partilhar

Muitas marcas mudam de identidade para acompanhar uma nova fase, mas por vezes há mudanças de identidade que procuram tornar visível uma transformação que já estava a acontecer dentro da própria organização. É neste segundo território que o BCSD Portugal – Conselho Empresarial para o Desenvolvimento Sustentável coloca o seu novo posicionamento, apresentado no ano em que assinala 25 anos de atividade e em que reúne já mais de 200 empresas.

Escolha a Marketeer como fonte preferida no Google Escolher ›

Ao longo deste período, a sustentabilidade tem vindo a deixar de ocupar um lugar periférico na agenda empresarial para passar a cruzar estratégia, investimento, inovação, gestão de risco e competitividade, sendo também essa a evolução que o BCSD Portugal procura traduzir na nova identidade, com uma marca mais contemporânea e preparada para um cenário onde os desafios ambientais convivem com mudanças tecnológicas, sociais e geopolíticas cada vez mais complexas.

Para Rita Nabeiro, presidente do BCSD Portugal, a mudança não representa uma ruptura com o passado, mas uma evolução natural de uma organização que quer assumir um papel mais abrangente na transformação da economia portuguesa, até porque sustentabilidade, competitividade, inovação e futuro, defende, não devem ser encarados como agendas concorrentes, mas como dimensões da mesma transformação.

Continue a ler após a publicidade
Continue a ler após a publicidade

Numa conversa com a Marketeer, Rita Nabeiro, também administradora executiva no Grupo Nabeiro e CEO da Adega Mayor, explica as razões por detrás do rebranding, o que mudou nas empresas portuguesas nos últimos 25 anos e onde continuam a existir obstáculos à transição. A neta de Rui Nabeiro, fundador da Delta, fala ainda sobre o risco de greenwashing, o abrandamento de algumas metas internacionais de sustentabilidade e a ambição do BCSD Portugal para os próximos 25 anos: colocar definitivamente a sustentabilidade no centro da forma como as empresas criam valor e se preparam para o futuro.

Porquê mudar agora a identidade do BCSD Portugal?

O BCSD Portugal este ano celebra os seus 25 anos de atividade num momento particularmente importante. Vivemos uma década decisiva, marcada por desafios ambientais, sociais, tecnológicos e geopolíticos que exigem novas respostas, novas parcerias e novas formas de liderança. As empresas têm aqui um papel determinante – não apenas como agentes económicos, mas como agentes de transformação.

É desta evolução que nasce a nova identidade. Crescemos enquanto organização: reunimos hoje mais de 200 empresas e alargámos o nosso papel junto do tecido empresarial português. A nova identidade não substitui o que fomos – expressa-o de forma mais clara, mais contemporânea, mais preparada para os desafios dos próximos anos.

Continue a ler após a publicidade

É uma nova expressão para uma missão que se mantém: mobilizar as empresas para uma transformação que contribua para uma economia mais sustentável, competitiva e próspera.

Quais os principais objetivos e quais foram os maiores desafios? Como se faz um rebranding de uma marca com 25 anos sem perder o capital de confiança e credibilidade construído ao longo desse período?

O principal objetivo foi atualizar a identidade do BCSD Portugal com a organização que somos hoje e, sobretudo, com a ambição que temos para o futuro, mas mantendo o que foi construído ao longo dos anos. Queríamos uma marca mais contemporânea, clara, distintiva e capaz de dialogar com diferentes stakeholders.

O maior desafio foi precisamente encontrar o equilíbrio entre evolução e continuidade. Por isso, procurámos preservar a nossa essência – liderança, credibilidade, colaboração e inovação – enquanto renovámos a forma de os expressar. Uma marca com 25 anos tem um capital de confiança e reconhecimento que não pode ser perdido. Era importante modernizar sem descaracterizar, ganhar relevância sem perder credibilidade e criar uma identidade preparada para o futuro sem apagar o percurso feito até aqui.

Continue a ler após a publicidade

“Queremos contribuir para uma visão em que sustentabilidade, competitividade e inovação não sejam agendas concorrentes, mas partes da mesma transformação”

O BCSD quer passar de uma comunicação centrada exclusivamente na sustentabilidade para participar de forma mais ampla no debate sobre economia, competitividade, inovação e futuro… é uma mudança de território? 

Não vemos esta evolução como uma mudança de território, mas como uma consequência natural daquilo que entendemos hoje por sustentabilidade. Para o BCSD Portugal, sustentabilidade, competitividade, inovação e futuro não são agendas desligadas.

As empresas que estão a transformar os seus negócios para modelos mais sustentáveis estão a investir em resiliência, eficiência e futuras oportunidades de mercado. Estão a preparar-se para riscos físicos derivados das alterações climáticas, estão a preparar-se para a mudança de regulamentação ou até das expectativas dos clientes.

As tensões podem surgir porque frequentemente estamos a olhar para diferentes horizontes temporais de investimentos e decisões. Mas acreditamos que apesar de poderem parecer “custos adicionais”, numa perspetiva de longo prazo, os investimentos em sustentabilidade são a forma como as empresas prosperam e criam valor duradouro.

É por isso que queremos contribuir para uma visão em que sustentabilidade, competitividade e inovação não sejam agendas concorrentes, mas partes da mesma transformação.

Continue a ler após a publicidade

Num cenário de maior pressão regulatória e de algum “cansaço” em torno do ESG, como se mantém a sustentabilidade no topo da agenda das empresas?

A sustentabilidade mantém-se no topo da agenda quando deixa de ser vista como uma agenda autónoma e passa a estar integrada na própria estratégia das empresas.

A regulamentação teve, neste sentido, um papel importante. Apesar de ter trazido novas exigências, também veio reduzir a incerteza para as empresas, ao definir um enquadramento mais claro sobre o que é esperado e sobre a direção que a economia está a tomar. As empresas passaram a ter maior visibilidade sobre as regras e expectativas e, consequentemente, maior capacidade para antecipar, planear e integrar estas transformações nas suas decisões.

Embora as empresas portuguesas se encontrem em diferentes estágios de maturidade, hoje, a sustentabilidade é de forma geral entendida como a nova forma de operar na economia.

O papel do BCSD Portugal é ajudar as empresas a fazer essa transição: a antecipar mudanças, adquirir conhecimento e competências, inovar e colaborar para transformar esta nova realidade em modelos de negócio mais resilientes, competitivos e preparados para o futuro.

“A credibilidade constrói-se quando existe alinhamento entre aquilo que uma empresa diz, aquilo que faz e aquilo que consegue provar”

A comunicação da sustentabilidade também enfrenta uma crise de credibilidade, entre greenwashing e excesso de claims. Como devem as marcas comunicar sustentabilidade sem cair nessa armadilha?

A comunicação das empresas deve focar-se efetivamente naquilo que fazem e conseguem demonstrar. Isso implica objetivos claros, métricas, transparência sobre o progresso e, sobretudo, coerência entre o discurso e as suas decisões.

Também significa reconhecer que a sustentabilidade é uma jornada de evolução contínua. Reconhecer as áreas onde há limitações e a melhoria é necessária, cria mais confiança do que tentar apresentar uma imagem de perfeição para comunicar progresso.

A credibilidade constrói-se quando existe alinhamento entre aquilo que uma empresa diz, aquilo que faz e aquilo que consegue provar.

Também ao nível da regulação tem havido preocupação com estas questões, lançando a União Europeia diretrizes sobre greenwashing e green claims para proteger o consumidor e limitar estes acontecimentos.

Temos assistido a empresas internacionais a abrandarem ou reformularem algumas das suas metas de sustentabilidade, concorda? Portugal deve “preocupar-se” com esse movimento?

Algumas empresas internacionais estão a rever metas, prazos ou a forma como comunicam os seus compromissos de sustentabilidade. Mas é importante olhar para estes movimentos no contexto mais amplo e não interpretá-los necessariamente como uma inversão de tendência.

As transformações económicas e empresariais acontecem por ciclos. Há momentos de maior aceleração e momentos de recalibração, em função do contexto económico, geopolítico e regulatório. O que vemos é que as empresas que já assumiram este caminho e integraram a sustentabilidade na sua estratégia não deixaram de o fazer. Podem ajustar prioridades ou ritmos, mas a transformação continua.

Além disso, não vemos sinais de que, por exemplo, os investidores, tenham deixado de atribuir importância a estes temas. A sustentabilidade continua a estar fortemente ligada a questão de gestão de risco, de eficiência na utilização de recursos e a capacidade de antecipar mudanças.

Portugal deve, por isso, acompanhar este movimento com atenção, mas não deve vê-lo como uma razão para abrandar. Pelo contrário, num país que precisa de reforçar a sua competitividade e capacidade de inovação, antecipar estas transformações pode ser uma vantagem.

O BCSD reúne mais de 200 empresas. Onde identifica hoje o maior gap entre aquilo que as empresas dizem querer fazer e aquilo que efetivamente conseguem fazer?

O que identificamos hoje é cada vez menos um problema de falta de vontade ou de consciência dentro das empresas. Muitas já fizeram um caminho muito significativo internamente: criaram competências, definiram objetivos, alteraram processos e começaram a integrar a sustentabilidade nas suas decisões. O desafio surge muitas vezes quando esse caminho interno encontra uma barreira externa.

Há setores em que uma empresa pode estar preparada para fazer diferente, mas encontra dificuldades porque o cliente ainda não reconhece esse valor e não está disponível para pagar mais por ele ou porque parte da cadeia de valor ainda não está preparada para acompanhar a mudança. Noutros casos, faltam infraestruturas, tecnologia ou condições de mercado que permitam propor determinadas soluções.

É aqui que percebemos que a transformação não depende apenas das empresas individualmente. Se queremos acelerar a mudança, precisamos de criar condições para que o mercado valorize e recompense as empresas que estão a fazer esse caminho.

“A sustentabilidade era vista como um imperativo moral, um ato de filantropia ou uma abordagem extra ao negócio”

O BCSD nasceu há 25 anos. O que mudou mais nas empresas portuguesas desde então?

A sustentabilidade evoluiu de um tema periférico para um eixo estratégico das empresas. Anteriormente a sustentabilidade era vista como um imperativo moral, um ato de filantropia ou uma abordagem extra ao negócio.

Hoje, cada vez mais empresas trabalham a sustentabilidade ao nível estratégico: definem metas, assumem compromissos públicos, integram critérios ESG nas decisões e reforçam o reporte.

As exigências do mercado também mudaram:  existe uma pressão acentuada dos investidores, reguladores e consumidores que procuram serviços e produtos com impacto mais positivo.

A sustentabilidade também era apenas encarada como um tema ambiental. Depois do lançamento das metas internacionais sobre os critérios ESG, começou-se a refletir as três dimensões da sustentabilidade: ambiental, social e de governança, reforçando também a ligação entre sustentabilidade e desempenho financeiro.

A descarbonização através da transição energética e a economia circular foram os temas em que as empresas deram passos mais sólidos. Muitas empresas passaram a medir, reportar e reduzir as suas emissões de gases com efeito de estufa, estabelecendo objetivos concretos para a neutralidade carbónica.

Também o campo da governance surgiu para garantir que os compromissos ambientais e sociais das empresas são efetivamente integrados na gestão, nas decisões estratégicas e nos mecanismos de controlo.

Apesar de verificarmos que as empresas em Portugal têm diferentes maturidades de sustentabilidade, conseguimos afirmar que é uma realidade do dia-a-dia das atividades empresariais.

Olhando agora para os próximos 25 anos, qual é a transformação mais urgente que o BCSD quer provocar ou promover nas empresas portuguesas?

Ao longo destes 25 anos, procurámos transformar ambição em impacto concreto, através da produção e partilha de conhecimento, da capacitação, da inovação e da colaboração. São estes pilares que explicam o percurso que hoje celebramos e que continuarão a orientar o caminho que temos pela frente.

Olhando para os próximos 25 anos, a transformação mais urgente é conseguirmos colocar definitivamente a sustentabilidade no centro da estratégia e das decisões empresariais, não como uma dimensão paralela ao negócio, mas como parte da forma como as empresas criam valor e se preparam para o futuro.

Vivemos num contexto económico, político, social e ambiental cada vez mais complexo e interdependente, onde os riscos se multiplicam e se amplificam mutuamente. Antecipar esses riscos, compreender as suas interdependências e preparar as empresas para diferentes cenários será determinante para a sua resiliência e competitividade.

Ao mesmo tempo, precisamos de acelerar transformações que já não podem ser adiadas: descarbonizar a economia, integrar os princípios da economia circular nos modelos de negócio e fazer da inovação um motor de transformação e criação de valor. Inovar será essencial não apenas para responder aos desafios, mas para os transformar em novas soluções, produtos, serviços e oportunidades de crescimento.

Queremos, por isso, que o BCSD Portugal continue a ser uma plataforma de mobilização empresarial, capaz de ajudar as empresas a antecipar a mudança, gerir melhor os riscos e tomar hoje decisões estratégicas que reforcem a sua capacidade de criar valor no futuro.

É também neste espírito que lançámos a Visão 2050, um exercício de reflexão coletiva com empresas, academia, especialistas e decisores, para identificar as grandes forças de mudança e desenhar caminhos concretos para um futuro onde competitividade, inovação e sustentabilidade caminhem lado a lado.

“Queremos criar marcas portuguesas capazes de competir lá fora”, Maria Athayde Cordeiro (Ó Studio)




Subscrever newsletter



Notícias Relacionadas

Ver Mais