A sobrevivência ao cancro em Portugal atingiu os 66% aos cinco anos para os doentes diagnosticados em 2019, indica um relatório que será hoje divulgado pelo Registo Oncológico Nacional (RON) e que alerta para diferenças relevantes entre sexos.
Para a elaboração deste relatório foram analisados 54.147 tumores malignos. Na prática, cerca de dois em cada três doentes estavam vivos cinco anos após o diagnóstico. Porém, os resultados revelam diferenças entre sexos: 72% das mulheres sobrevivem pelo menos cinco anos após o diagnóstico, enquanto nos homens esse valor é de 62%.
Em declarações à agência Lusa, a coordenadora do RON, Maria José Bento, que é ainda directora do Serviço de Epidemiologia do IPO do Porto, explicou que esta diferença tem muito a ver com o tipo de tumor, mas também tem influência os hábitos de cada sexo. “Os homens têm muito mais cancro do pulmão, cancro da laringe, cancro da cavidade oral que são tumores que não são de bom prognóstico, o que acaba por também se reflectir nas sobrevivências piores. Por outro lado, se calhar também temos um problema de detecção mais precoce. Habitualmente, as mulheres são mais atentas aos sintomas, recorrem mais atentamente ao médico do que os homens”, afirmou.
Nos homens, as melhores taxas de sobrevivência foram nos casos de cancro do testículo, tiroide e próstata. Já com uma sobrevivência aos cinco anos inferior a 20%, surgem os cancros do cérebro e sistema nervoso central, esófago, pâncreas, mesotelioma e primário de origem desconhecida.
Nas mulheres, os tumores com melhor prognóstico foram as doenças mieloproliferativas crónicas, da glândula tiroideia, Doença de Hodgkin e mama. Por outro lado, os menos favoráveis e com sobrevivências inferiores a 20% aos cinco anos foram os cancros do cérebro e sistema nervoso central, fígado, pâncreas, mesotelioma e primário de origem desconhecida.
É ainda referido no estudo que a análise por localização do cancro confirma que as mulheres apresentam melhores resultados na maioria das neoplasias de maior incidência, incluindo tiroide, pulmão e melanoma.
São também destacadas as desigualdades regionais, com o Norte e o Centro a apresentarem os melhores resultados e a Região Autónoma da Madeira a registar a sobrevivência mais baixa.
Sobre esta matéria, ressalvando que este relatório não permite tirar conclusões sobre o acesso a tratamento, Maria José Bento insistiu que “as diferenças nas sobrevivências podem ter várias explicações”, mas “quando vemos que há regiões nas quais alguns tumores têm melhores sobrevivências do que outros, sabemos que um dos factores principais é a precocidade no diagnóstico e a precocidade no tratamento”. “Os rastreios acrescentam anos de vida. Os serviços de saúde também têm que dar uma resposta atempada ao tratamento destas pessoas. É pouco compatível haver até um diagnóstico e depois a pessoa estar meses à espera para ser tratada”, vincou.
O relatório “Sobrevivência Global – Doentes diagnosticados em 2019” é o segundo deste género a ser publicado em Portugal. Os dados apresentados referem-se a todos os tumores primários malignos invasivos diagnosticados em pessoas com 15 ou mais anos de idade, residentes em Portugal à data do diagnóstico. Foram considerados tumores diagnosticados no ano de 2019, excluindo os cancros da pele não melanoma, bem como metástases ou recidivas.
Lê-se ainda na nota prévia do relatório que “os resultados mostram uma tendência de declínio da sobrevivência à medida que a idade aumenta, verificando-se a pior sobrevivência no grupo etário acima dos 75 anos, com 56,8% o que evidencia o impacto que a idade tem no prognóstico do cancro”.














