Segundo as fontes oficiais, João Pina não fez “Condor”

O filme da Fuel criado para apresentar a obra do fotógrafo português explora o conceito das versões oficiais que negam a existência da Operação Condor, um plano secreto das ditaduras sul-americanas de repressão que vitimou mais de 60 mil pessoas nos anos 70.

“Segundo as fontes oficiais, estes três militantes de esquerda não foram executados.” Arranca assim, cruamente, o filme concebido pela Fuel de apresentação do livro “Condor”, do fotógrafo português João Pina, uma das primeiras sistematizações da Operação Condor, um plano secreto entre ditaduras sul-americanas que, nos anos 70, assassinou mais de 60 mil opositores aos diferentes regimes que, na altura, lideravam países como o Paraguai, Chile, Brasil e Bolívia.

“Condor”, publicado em Portugal pela Tinta da China, serve um propósito: contribuir para a preservação da memória, conta João Pina à Marketeer. «O que me interessa é que o esquecimento não exista. Como sociedade, o que me inquieta é a falta de memória histórica».

O filme, num ritmo cuidadosamente cadenciado, apresenta fotografias que ilustram os actos levados a cabo sob a Operação Condor, acompanhados pela narração de António Capelo com um texto baseado nas “versões oficiais” que nega a verdade das imagens.

A colaboração entre o fotógrafo e a agência remonta a projectos anteriores, com destaque para a campanha “Mugshots”, criada pela Fuel para a Amnistia Internacional. Esta campanha baseou-se em fotografias dos arquivos da PIDE incluídas na obra “Por Teu Livre Pensamento”, de João Pina, um trabalho de recolha de depoimentos de presos políticos do Estado Novo. A campanha arrebatou, em 2011, Leão de Ouro na categoria Outdoor nos Cannes Lions.

O processo de criação do filme “Condor” começou em Junho de 2014, num trabalho com a dupla Marcelo Lourenço e Pedro Bexiga, directores criativos da Fuel, conta João Pina. «Sentámo-nos e começámos a pensar fazer um filme. Foi algo que aconteceu muito naturalmente», sem convites de parte a parte. «Analisámos as imagens e pensámos no que podíamos fazer de diferente.»

Foi claro desde o início que o conceito teria de se basear no poder das imagens, salienta Marcelo Lourenço à Marketeer: «Recebemos o livro ainda antes de ser publicado, na versão “rough” e logo ficou claro que as fotografias tinham um impacto visual fortíssimo – por isso, tinham que ser a “raiz” da ideia.»

«O grande diferencial do livro é registar pela primeira vez de maneira sistemática esta operação que até há pouco tempo era secreta. O que o livro Condor faz é mudar esta “versão oficial” que nega ou simplesmente não fala do que aconteceu», conta.

O estilo depurado do filme é fruto de um trabalho de criação que mostra que a simplicidade é, por um lado, a forma mais poderosa de passar uma mensagem e, por outro, a mais difícil de conseguir. «O filme é muito minimalista e, apesar desta simplicidade dar a impressão de que a coisa foi fácil, foi justamente o contrário. Escrever o texto com as palavras certas foi muito difícil», conta Marcelo Lourenço.

Por isso, o processo de criação foi um labor de «várias semanas»: «Apesar de passar por vários caminhos criativos, quando chegámos ao conceito da versão das “fontes oficiais”, logo chegámos à conclusão» de que este seria o caminho a tomar, explica o director criativo da Fuel.

O resultado pode ser visto aqui.

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