Salvar o barro negro e outras raridades

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Daniel Almeida
15/08/2026
10:03
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Daniel Almeida
15/08/2026
10:03
Salvar o barro negro e outras raridades

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Em Gondar, uma pequena aldeia perto de Amarante, o mestre oleiro César Teixeira, de 57 anos, mantém viva a técnica secular da soenga, um processo tradicional de cozedura do barro ao ar livre, em que as peças, fabricadas numa roda baixa, manual e horizontal, são cozidas numa cova aberta no solo. Num ritual ancestral, as peças de cerâmica são colocadas no interior de uma imponente fogueira, que irradia tudo à volta. Quando as chamas atingem uma temperatura próxima dos 1000 ºC, a soenga é tapada com caruma e terra, aprisionando o fumo negro que, pouco depois, transforma o barro em elegantes peças de arte escurecidas.

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Desde o início do século XVII que o barro negro de Gondar é forjado pelo fogo. Mas a soenga, da forma como é tradicionalmente executada naquela região, está em risco de extinção. Hoje, César Teixeira e o filho, João, são os únicos que mantêm acesa a chama desta arte ancestral na região. Agora, a sua história, e a de tantos outros artesãos espalhados pelo País, é contada pela Ra-Ro, uma plataforma online de retalho fundada por três amigos (Luís Serra, Sérgio Carvalho e Tiago Reis), com o objectivo de apoiar e valorizar as artes e ofícios invulgares e em perigo de desaparecer.

O processo do barro negro

Lançada oficialmente em Novembro de 2025, a Ra-Ro é uma plataforma de curadoria e comercialização de peças raras do artesanato nacional. «Os ingredientes que temos no projecto mantêm-se desde o início: queremos curar produtores, contar as suas histórias, valorizar os seus produtos e vendê-los num marketplace online», explicam à Marketeer Luís Serra e Tiago Reis, dois dos três sócios e co-fundadores. «Mas a Ra-Ro não é um marketplace tradicional, porque há uma curadoria, uma validação. Ou seja, as pessoas que fazem artesanato podem candidatar-se, mas há curadoria da nossa parte. Não é um marketplace liberalizado», esclarecem.

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Nesse processo de curadoria, há alguns critérios que são tidos em conta. Em primeiro lugar, têm de ser peças e projectos que «respeitem o passado, seja pela técnica, a matéria-prima ou o design». Depois, «olhamos para o que torna um produto raro: o volume de produção, quem é o artesão, se tem uma boa história para contar, se utiliza uma matéria-prima característica de algum lugar… Somos os três [sócios] que fazemos a curadoria», explanam os responsáveis da Ra-Ro. Além disso, o risco de extinção das peças ou artes em questão é também, naturalmente, um dos critérios mais relevantes. «Por exemplo, no caso da soenga de Gondar, é um pai e um filho que são os únicos que produzem as peças de barro da mesma maneira que se fazia há 500 anos.»

Actualmente, o catálogo da Ra-Ro é composto por mais de 70 produtos raros, produzidos por cerca de 20 artesãos de todo o País, do Minho ao Algarve, passando pelos Açores. A oferta estende-se a potes e panelas de barro negro, figuras e máscaras de barro tradicional, cataplanas de cobre, objectos e utensílios de madeira, cestos e malas de palma, cobertores de papa, mas também produtos orgânicos, como vinho, mel e queijos, entre muitos outros. Todas as peças são organizadas numa escala (o Índice Ra-Ro), que classifica os objectos em diferentes níveis de raridade, entre “invulgares” e “únicos”.

«Somos três pessoas que valorizam muito o passado e estes processos artesanais, os cheiros e o contacto com a terra. Somos muito sensíveis a tudo isso. Então, sermos uma ponte eficaz entre o passado e o futuro destas artes é uma premissa muito importante para nós», afirmam Luís Serra e Tiago Reis. «Olhamos para as tendências no mercado e percebemos que tudo o que é automatismos, IA e consumo excessivo está a ganhar aversão por parte de um nicho de consumidores, que já não é assim tanto um nicho. Cada vez mais, queremos ver coisas feitas por humanos e não por inteligência artificial. O que quisemos foi criar uma plataforma que disponibilizasse estes produtos.»

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Da comunicação ao retalho

Luís Serra e Tiago Reis contam com cerca de duas décadas de experiência na área da Comunicação. A relação entre ambos começou há muitos anos, quando a Leo Burnett (onde trabalhava Tiago) e a Comon (onde estava Luís) estabeleceram uma parceria estratégica, que durou cinco anos. «Houve logo uma empatia e uma química muito grande entre nós», recordam. Alguns anos depois, acabariam mesmo por trabalhar juntos, quando Tiago Reis se junta à Comon como account director. Em 2021, haveriam de assumir os cargos de co-CEO da agência.

Quando Luís toma a decisão de abandonar a empresa, no final de 2023, a única certeza que tinham é que queriam continuar a trabalhar juntos, noutra área que não a Comunicação. E começaram a pensar em ideias de negócio. O plano de fundar a Ra-Ro haveria de surgir em jeito de brainstorm na praia. «Inicialmente, o nome escolhido foi Em Extinção, porque o objectivo era precisamente o de recuperar produtos e artes em extinção. Mas com duas premissas: teria de ser um negócio rentável e com propósito. Percebemos que era uma ideia muito ambiciosa e que era um caminho para fazer, mas para fazer devagarinho», lembram os dois co-fundadores.

E, por esse mesmo caminho, Sérgio Carvalho, que ocupa o cargo de head of Marketing & Client da Fidelidade, junta-se ao projecto. Luís e Sérgio conheciam-se há mais de 15 anos, desde que a Comon trabalhara a conta da OK! Teleseguros, numa amizade que começou muito cedo, e que há muito se estendera a Tiago. Assim, foi com naturalidade que o agora terceiro sócio recebeu e aceitou o convite para integrar o projecto.

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Ainda no final de 2024, decidem participar no Triggers, programa de aceleração da Casa do Impacto, direccionado a negócios ligados à sustentabilidade. «Quando nos candidatámos ao programa, não tínhamos nada, apenas um papel a dizer “Salvar produtos em extinção”», recordam Luís Serra e Tiago Reis. Haveriam de vencer o segundo lugar, o que lhes valeu um prémio de 3.000 euros e dois meses de mentoria na Casa do Impacto. Mas, mais do que isso, a participação no Triggers permitiu-lhes validar o conceito e limar algumas arestas do plano de negócio.

Desde esse momento até ao lançamento oficial da plataforma, em Novembro de 2025, o trabalho dos fundadores da Ra-Ro passou muito por identificar os artesãos que poderiam vir a integrar a plataforma, estabelecer os contactos e fazer visitas no terreno. Sendo três pessoas que não estavam «muito ligadas ao universo do artesanato», confessam que, no início, enfrentaram muita «desconfiança». «Os artesãos estão habituados a vender em feiras, pelo que saltar para o [meio] digital é todo um outro desafio. O que nos ajudou foi ir lá, conhecer as pessoas, falar cara a cara e perceber os seus problemas e dificuldades», frisam os co-fundadores.

Outros dos principais desafios iniciais estiveram relacionados com o packaging, desenvolvido internamente, teria que ser adaptado a uma grande diversidade de produtos, com desafios logísticos distintos, e, sobretudo, a distribuição. Ao início, a ideia passava por criar um negócio de dropshipping, mas os primeiros testes mostraram que não seria viável. Então, optaram por um modelo de negócio distinto, em que a Ra-Ro trata de quase todo o processo que vai além da produção. «Nós evitamos o stock, mas também não trabalhamos à consignação. Quando convidamos um produtor, se ele aceitar juntar-se à Ra-Ro, a única coisa que tem que fazer é enviar-nos temporariamente o produto para fotografarmos, documentarmos e criarmos os conteúdos que serão depois colocados online. A partir daí, sempre que existir uma venda, contactamo-lo», explicam Luís Serra e Tiago Reis. Hoje, já têm também um pequeno armazém destinado aos produtos mais procurados, ou que estão mais dependentes da sazonalidade.

Contar histórias raras

Na génese da Ra-Ro está, assim, o objectivo de criar um «canal de distribuição eficaz» para alguns dos produtos mais raros do artesanato português e que estavam, até então, dispersos pelo território nacional. Mas, além da vertente comercial, esta é uma plataforma que pretende dar palco e espaço para contar as histórias de cada peça e de cada produtor, respeitando e valorizando o processo criativo. Nesse aspecto, a experiência dos três sócios nas áreas da Comunicação e do Marketing é valiosa. «Procuramos um equilíbrio muito grande entre a linguagem editorial e a vertente comercial.»

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Além disso, a sustentabilidade é pedra basilar do negócio. «Ainda hoje, não negociamos o preço [das peças] com o produtor, não o pressionamos de maneira nenhuma e este valida tudo o que nós fazemos. É tudo co-criado. Isto não deixa de ser um negócio, que tem que ter fins lucrativos, mas não queremos só o lucro pelo lucro, queremos recuperar efectivamente estas indústrias», garantem os responsáveis. Assim como o tempo de entrega poderá estar dependente do tempo de produção, o que, em alguns casos, pode demorar várias semanas, isso é sempre explicado aos clientes. «Esta dinâmica de trazer sustentabilidade económica aos produtores é um ponto de diferenciação muito grande da Ra-Ro. Virámos o modelo de negócio ao contrário, porque acreditamos que estes produtos têm valor e que o processo e o tempo de espera, apesar de sermos uma plataforma online, também têm de ser valorizados», defendem.

Além das peças de barro negro de Gondar que são preservadas pela família Teixeira, a plataforma conta a história de outros produtores, como Céu Reis, da associação O Genuíno Cobertor de Papa, da Guarda, que recuperou a produção dos tradicionais cobertores portugueses (utilizados pelos pastores de antigamente), feitos de lã churra, num tear manual com cerca de 300 anos; a mestria de António Ramalho, bisneto de Rosa Ramalho (a criadora do Galo de Barcelos), que dá continuidade à tradição familiar através de peças que evocam figuras tradicionais de barro de Barcelos e um elenco peculiar de criaturas surreais, como o Sarronco (Papão); ou a originalidade de Luca D’Ortenzi, um torneiro e escultor de madeira italiano que decidiu criar o projecto Vago, que transforma a madeira queimada, na sequência dos incêndios de 2022 na região da Serra da Estrela, em autênticas obras de arte reaproveitadas. Na plataforma online da Ra-Ro há muito mais histórias como estas para conhecer.

E outras que poderão vir a ser reveladas. Actualmente, há pelo menos 20 novos produtores que estão na calha para integrar a Ra-Ro a breve prazo, o que deverá alargar o catálogo das actuais 70 referências a cerca de 250. A prioridade no imediato passa, ainda, por reforçar o plano de comunicação e activações da marca Ra-Ro, uma vez que, até ao momento, o crescimento da plataforma tem sido praticamente orgânico.

O plano de desenvolvimento prevê ainda o reforço da Ra-Ro no mercado B2B, promovendo acções de team building ou workshops para empresas, que podem ser, por exemplo, experiências de olaria em parceria com os artesãos, assim como o crescimento na área das parcerias, funcionando a Ra-Ro como uma ponte que liga produtores distintos em processos de co-criação de produtos e colecções exclusivos.

A internacionalização da plataforma é também um dos objectivos a curto prazo. «Temos a ambição de, em 2027, conseguirmos alargar o negócio a Marrocos e a Espanha. Já estamos a explorar estes mercados e temos inclusive alguns produtores identificados», revelam Luís Serra e Tiago Reis.

Num horizonte mais flexível, assumem como objectivo a abertura de uma loja própria e a presença em espaços pop-up. Contudo, a prioridade, neste momento, passa por «atingir rapidamente o break-even, para poder começar a diversificar os investimentos», concluem.

 

Este artigo faz parte da edição de junho (n.º 359) da Marketeer





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