Ao mesmo tempo que o futebol feminino continua a ganhar expressão em Portugal, está também a consolidar-se a “Magriça”, um projeto editorial que quer ir além do resultado e da atualidade. A revista Magriça lança esta quinta-feira a sua segunda edição, disponível para encomenda online, reforçando a ambição de se tornar uma referência no jornalismo dedicado à modalidade.
Criada por dois jornalistas, a Magriça surgiu com o propósito claro de preencher um vazio editorial. “Não há nenhuma revista dedicada ao futebol em Portugal e encontramos aqui uma oportunidade de valorizar o empenho e a dedicação de todos os intervenientes do futebol feminino, ouvir e contar as suas histórias”, explica Vítor Carmo, diretor da publicação, à Marketeer.
O lançamento da revista surgiu numa altura de crescimento do futebol feminino em Portugal, com o número de praticantes federadas a atingir cerca 20 mil em 2025, ao que se somaram outros marcos relevantes, como a qualificação da Seleção Nacional Feminina de Futebol de Portugal para o Europeu de 2017 e 2022, bem como a estreia no Mundial de 2023, momentos que contribuíram para alterar a perceção pública e atrair novas audiências.
Mais do que resultados: contar o que fica fora do radar
A proposta editorial da Magriça, no entanto, vai para lá dos resultados assentando num posicionamento de aposta em jornalismo de profundidade, com foco em histórias que raramente chegam à agenda mediática. Entre os temas explorados estão os percursos de formação, os bastidores dos clubes, as desigualdades estruturais, os desafios de profissionalização ou a saúde física e mental das atletas. “Não queremos apenas falar de resultados, queremos falar de pessoas, da transformação do futebol feminino, que para nós tem toda a relevância editorial, e acreditamos que para as marcas também”, explica o diretor.
A abordagem divide-se entre papel e digital, pois enquanto os leitores podem contar na revista em papel com reportagens, entrevistas, perfil de jogadoras, episódios da história do futebol, portfólios fotográficos, crónicas e abordagens científicas através de especialistas, no digital a aposta recai mais em desafios e curiosidades, rubricas como a “Moldura Humana”, a “Playlist do Balneário”, o “Bom Jogo” ou a “Grande Área”, com uma “aposta forte no audiovisual” e com o objetivo de criar “envolvimento no site e nas redes sociais”.

A publicação foi lançada com uma tiragem de 2000 exemplares, número que reflete uma “estratégia de posicionamento premium e desperdício zero”. “Ao contrário do modelo de distribuição em banca, optámos por uma distribuição direta e controlada através da venda online e de ativações em dias de jogos, quer seja na Liga BPI ou na 4ª divisão. Entendemos que cada um destes 2000 exemplares chega efetivamente às mãos de um leitor atento, desde as protagonistas do jogo aos decisores. Mais do que a quantidade, nesta fase inicial focamo-nos no tempo de atenção. A Magriça é desenhada para ser guardada, o que pode aumentar o seu impacto, e a nossa ambição é escalar de forma sustentada nos próximos dois anos, acompanhando a profissionalização do futebol feminino em Portugal, mas mantendo sempre o perfil de objeto de coleção que nos diferencia. Tudo isto, acompanhado também com uma grande ambição de crescimento no digital”, explica o responsável.
E num setor onde o digital parece dominar cada vez mais, a aposta no papel pode parecer contraintuitiva, mas, para a Magriça, essa é precisamente a proposta de valor. “A revista em papel, no caso da Magriça, é um objeto de coleção. Numa era de saturação digital, permite um tempo de atenção diferente”, afirma Vítor Carmo. “Quando um leitor abre a Magriça, ele dedica-nos um foco especial, usufrui de uma curadoria em diferentes aspetos, visual e editorial. É por isso que decidimos não estar em banca por uma questão de eficiência e posicionamento. Ao vendermos exclusivamente online e em pontos selecionados, como nos estádios, controlamos o nosso ecossistema, criamos brand awareness e impacto que pode ser medido de forma mais eficiente”, acrescenta.
Independência e modelo híbrido
Enquanto projeto independente, a Magriça assume tanto os desafios como as vantagens dessa condição, pois se por um lado exige maior rigor e sustentabilidade, por outro, permite liberdade editorial total. “Podemos definir o nosso tom, o nosso ritmo, os nossos critérios editoriais e o nosso posicionamento sem depender de outras agendas. Num projeto como este, a independência permite-nos ser mais ágeis, mais próximos da comunidade e mais consistentes naquilo que queremos representar”, diz o diretor da publicação.
O modelo de negócio passa por uma lógica híbrida, entre venda direta da revista, parcerias com marcas, desenvolvimento da presença digital e, a médio prazo, novas áreas como merchandising ou projetos especiais. “Não queremos depender de uma única receita, mas criar várias possibilidades de monetização coerentes entre si”, aponta Vítor Carmo.

Do lado das marcas, o interesse existe, mas o investimento ainda acompanha de forma gradual o crescimento da modalidade. “Há interesse crescente, mas também há um caminho em que muitos investimentos chegam mais devagar do que o potencial justifica. Somos transparentes quanto a isso. Ao mesmo tempo, acreditamos que esse contexto cria uma oportunidade clara para marcas que queiram entrar com autenticidade num projeto com identidade forte e espaço para crescer. E o público é atrativo”.
Combater estigmas e construir futuro
Apesar da evolução ao nível do futebol, persistem desafios estruturais, sendo que, fora dos grandes clubes, muitas jogadoras continuam a enfrentar limitações ao nível de infraestruturas e condições de treino, ao que se soma um estigma cultural que ainda associa o futebol feminino a um “sub-produto” do masculino.
Para Vítor Carmo, o papel dos media é determinante para mudar este cenário e projetos como a Magriça “são a prova de que a evolução chegou a uma fase de maturidade em que já não se narra apenas o jogo”. “Se não documentarmos agora o que está a acontecer com rigor e estética, vamos perder a oportunidade de registar uma das maiores transformações do desporto em Portugal”, entende.
É precisamente nesse espaço que a Magriça quer posicionar-se, não apenas como revista, mas como plataforma de valorização, memória e construção de comunidade em torno do futebol feminino, sendo que, num horizonte a cinco anos, o objetivo passa por se tornar na “principal referência editorial de futebol feminino em Portugal e como uma marca reconhecida pela sua credibilidade, identidade e capacidade de gerar comunidade”.
Num panorama mediático marcado pela “ditadura do clique” e pela lógica do imediato, o projeto propõe assim a alternativa de abrandar, aprofundar e contar o que ainda não foi contado no futebol feminino. E com a segunda edição agora disponível, esse caminho começa cada vez mais a ganhar forma e ambição, página a página, história a história.














